sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012




A PROPÓSITO DA LEITURA

                                                                                               Hugo Martins



            Nos anos 80, a pedagogia vigente malbaratava a leitura das revistas em quadrinhos. Havia escolas que, por injunção dos pais, jogavam à fogueira, como fez a Ditadura Vargas com os livros dos romancistas brasileiros dos anos 30, revistas com personagens da Turma da Mônica, sob o falso argumento de que eram nocivas ao desenvolvimento lingüístico das crianças, sobretudo Chico Bento, cuja linguagem mantém-se, coerentemente, fiel à ambiência cultural em que vive sobredito personagem.

            Além desse, outros falsos argumentos havia: tais revistinhas, além de instaurarem a preguiça mental, veiculavam valores contrários à moral então vigente, pois a adorável e dentuça menininha Mônica se comportaria com modos nada femininos, por viver em meio a meninos, ostentando um coelhinho, com o qual veiculava sua tendência à violência quando se via de algum modo insultada.

            No mesmo diapasão, quando algum professor tinha a audácia de indicar este ou aquele livro de romancistas como Eça de Queirós ou Jorge Amado, a hipocrisia impava. Esses romancistas eram imorais... A leitura “desses monstros” certamente conspurcaria a alma cândida de nossa ingênua juventude. Havia casos de demissões sumárias de professores, imoralistas irresponsáveis, desconhecedores das funções da literatura na formação intelectual e, por conseqüência, lingüística da juventude.

            Na verdade, a leitura da revista em quadrinhos conduz à formação do bom leitor: as frases são curtas, seu ritmo se afeiçoa à oralidade das crianças e instauram a fantasia. Por outro lado, os personagens, pelo menos os da Turma da Mônica, repassam valores como solidariedade, lealdade, fidelidade e outros, também engrandecedores da pessoa humana.

            Mônica, a menininha destemida, é o protótipo da mulher que se impõe ao mundo organizado por machos. Não se dobra, tal a boneca Emília de Lobato, ao que não passa pelo crivo de seu acentuado senso crítico. Nem por isso deixa de ser feminina, graciosa, sensível e portadora de uma bela alma.

            Quanto à fala de Chico Bento, “polvilhada de erros” deveria servir de pretexto à reflexão acerca dos diversos idioletos existentes no Brasil, que se afastam, por natural, do engessamento da Gramática Normativa, cujo modelo é do século II a.C., e peca por valorizar apenas a linguagem das pessoas “bem falantes”. É preciso que Chico Bento acorde a consciência das pessoas. Sua linguagem, aparentemente afeada, pode ser consertada e concertar-se com outros modelos mais valorizados pela sociedade. Estigmatizá-lo é dar prova de afastamento irresponsável de postura mais consentânea com o epistemológico.

            Já com relação ao conteúdo das obras perfilhadas ao modo dos escritores supracitados, é bom lembrar que uma das obras mais perfeitas da literatura universal, Madame de Bovary, conduziu seu autor a responder ação criminal, pois seu conteúdo atentaria contra a moral e aos bons costumes da época. Assim também, existiu, grande obra da Igreja Católica, o index librorum prohibitorum (índice de livros proibidos). Quer dizer: ignorância, somada à hipocrisia e à falta de preparo ainda é a arma de quem tem medo de pensar e quer proibir o pensar. Parafraseando Virgílio, estudar é mais do que preciso... É impositivo.

           


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