A PROPÓSITO DA LEITURA
Hugo Martins
Nos anos 80, a pedagogia vigente
malbaratava a leitura das revistas em quadrinhos. Havia
escolas que, por injunção dos pais, jogavam à fogueira, como fez a Ditadura
Vargas com os livros dos romancistas brasileiros dos anos 30, revistas com
personagens da Turma da Mônica, sob o falso argumento de que eram nocivas ao
desenvolvimento lingüístico das crianças, sobretudo Chico Bento, cuja linguagem
mantém-se, coerentemente, fiel à ambiência cultural em que vive sobredito
personagem.
Além desse, outros
falsos argumentos havia: tais revistinhas, além de instaurarem a preguiça
mental, veiculavam valores contrários à moral então vigente, pois a adorável e
dentuça menininha Mônica se comportaria com modos nada femininos, por viver em
meio a meninos, ostentando um coelhinho, com o qual veiculava sua tendência à
violência quando se via de algum modo insultada.
No mesmo diapasão,
quando algum professor tinha a audácia de indicar este ou aquele livro de
romancistas como Eça de Queirós ou Jorge Amado, a hipocrisia impava. Esses
romancistas eram imorais... A leitura “desses monstros” certamente conspurcaria
a alma cândida de nossa ingênua juventude. Havia casos de demissões sumárias de
professores, imoralistas irresponsáveis, desconhecedores das funções da
literatura na formação intelectual e, por conseqüência, lingüística da
juventude.
Na verdade, a leitura
da revista em quadrinhos conduz à formação do bom leitor: as frases são curtas,
seu ritmo se afeiçoa à oralidade das crianças e instauram a fantasia. Por outro
lado, os personagens, pelo menos os da Turma da Mônica, repassam valores como
solidariedade, lealdade, fidelidade e outros, também engrandecedores da pessoa
humana.
Mônica, a menininha
destemida, é o protótipo da mulher que se impõe ao mundo organizado por machos.
Não se dobra, tal a boneca Emília de Lobato, ao que não passa pelo crivo de seu
acentuado senso crítico. Nem por isso deixa de ser feminina, graciosa, sensível
e portadora de uma bela alma.
Quanto à fala de Chico
Bento, “polvilhada de erros” deveria servir de pretexto à reflexão acerca dos
diversos idioletos existentes no Brasil, que se afastam, por natural, do
engessamento da Gramática Normativa, cujo modelo é do século II a.C., e peca
por valorizar apenas a linguagem das pessoas “bem falantes”. É preciso que
Chico Bento acorde a consciência das pessoas. Sua linguagem, aparentemente
afeada, pode ser consertada e concertar-se com outros modelos mais valorizados
pela sociedade. Estigmatizá-lo é dar prova de afastamento irresponsável de
postura mais consentânea com o epistemológico.
Já com relação ao
conteúdo das obras perfilhadas ao modo dos escritores supracitados, é bom
lembrar que uma das obras mais perfeitas da literatura universal, Madame de
Bovary, conduziu seu autor a responder ação criminal, pois seu conteúdo
atentaria contra a moral e aos bons costumes da época. Assim também, existiu,
grande obra da Igreja Católica, o index
librorum prohibitorum (índice de livros proibidos). Quer dizer: ignorância,
somada à hipocrisia e à falta de preparo ainda é a arma de quem tem medo de
pensar e quer proibir o pensar. Parafraseando Virgílio, estudar é mais do que
preciso... É impositivo.
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