CARTAS À MINHA FILHA
3ª
Maria Helena,
estou convencido de que o professor
de português dotado de algum rudimento das letras clássicas é mais eficiente do
que aquele voltado apenas para os estudos lingüísticos modernos. Com efeito, se
nossa língua deriva, em grande parte do grego e do latim, não se duvida de que
aqueles rudimentos se tornam indispensáveis para a explicação de alguns fatos
lingüísticos inalcançados pela lingüística. Além disso, a aula se torna bem
mais interessante, fugindo ao mesmismo gramatiqueiro maniqueísta do certo e do
errado ou com o cheiro autoritário de algumas baboseiras lingüísticas, apanágio
dos viciados em terminologias só para iniciados.
Deve o professor de português fugir
às léguas da monotonia das regras, levadas à sala de aula sem apoio no texto.
Professores há que adoram engordar a idéia de que a língua portuguesa é muito
difícil. Por isso, se escancham nas regrinhas e exceções que a nada levam, a
não ser ao tédio burrificante e sem finalidade... O coitado ao aluno não mede
esforços para decorar aqueles preceitozinhos... Internaliza-os a muque... Seu
desempenho em leitura e escritura é sofrível porque seu vocabulário é pobre; a
interpretação é vergonhosa porque fundamentada apenas no maldito livro-do-professor,
muleta de professor que não estuda; enfim pergunta-se: para que serve mesmo o
ensino da gramática pela gramática? Refiro-me ao ensino da gramatiquice calcada
apenas num modelo: a gramática normativa. Ora, existem outros modelos gramaticais.
O próprio professor pode usar sua gramática pessoal em benefício do alunado.
Afinal, somos todos donos da gramática se temos alguma segurança no
conhecimento de como funciona o idioma. Tal gramática vem à baila sempre que se
lêem ou se escrevem novos textos...
Sim, as línguas clássicas? Fazem
pensar, espicaçam a curiosidade e possuem uma literatura, cuja temática se
repete de forma estilhaçada em narrativas de toda ordem. Figure que, lendo o
Satyricon, livro de Petrônio, o arbiter,
nele encontrei o fio da meada de alguns romances de literatura brasileira. Ler
Memórias de um Sargento de Milícias ou romances de Jorge Amado, sobretudo
aqueles que retratam a vida miserável, mas livre de alguns personagens, como
Vadinho, Curió, o Cabo Martim ou Jesuíno Galo Doido, é o mesmo que ler a
narrativa petroniana. Vê-se o personagem pícaro, a prostituta, além da
linguagem desabrida do romancista baiano.
Ora, não há negar que a origem da
tragédia está em Homero, malgrado os tragediógrafos gregos mais em evidência
sejam Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. No aedo grego ouvem-se todos os tons
narrativos e dramáticos. Suficiente por si mesmo, além de Aquiles dos pés ligeiros, sobressai Ulisses ou
Odisseu, cuja volta para Ítaca é um desfilar de tragédias e comédias, afora o
tom poético que, por vezes, salta à sensibilidade do leitor. Depois é a
repetição de tudo em Virgílio, em cuja epopéia desponta Enéias, herói troiano,
que foge, na Guerra de Tróia, à fúria de Aquiles. Em seguida, mais pasticho da
antiga epopéia, que se desdobra no romance moderno. Mas a fonte é Homero. Penso
que ler a chamada literatura clássica é a forma mais lídima de se compreender o
que hoje se faz com a literatura...
Por fim, ler é o melhor remédio, como
dizia a revista Seleções, ou ler é ainda a maior diversão e não o cinema como
queria Luís Severiano Ribeiro. Professor de português que nada lê ou pouco lê
queda-se a repetir o que dizem os livros didáticos e se regozijam em amedrontar
o alunado com a história da carochinha da Gramática Normativa.
Teu pai, Hugo
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