quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA




Maria Helena,

estou convencido de que o professor de português dotado de algum rudimento das letras clássicas é mais eficiente do que aquele voltado apenas para os estudos lingüísticos modernos. Com efeito, se nossa língua deriva, em grande parte do grego e do latim, não se duvida de que aqueles rudimentos se tornam indispensáveis para a explicação de alguns fatos lingüísticos inalcançados pela lingüística. Além disso, a aula se torna bem mais interessante, fugindo ao mesmismo gramatiqueiro maniqueísta do certo e do errado ou com o cheiro autoritário de algumas baboseiras lingüísticas, apanágio dos viciados em terminologias só para iniciados.

Deve o professor de português fugir às léguas da monotonia das regras, levadas à sala de aula sem apoio no texto. Professores há que adoram engordar a idéia de que a língua portuguesa é muito difícil. Por isso, se escancham nas regrinhas e exceções que a nada levam, a não ser ao tédio burrificante e sem finalidade... O coitado ao aluno não mede esforços para decorar aqueles preceitozinhos... Internaliza-os a muque... Seu desempenho em leitura e escritura é sofrível porque seu vocabulário é pobre; a interpretação é vergonhosa porque fundamentada apenas no maldito livro-do-professor, muleta de professor que não estuda; enfim pergunta-se: para que serve mesmo o ensino da gramática pela gramática? Refiro-me ao ensino da gramatiquice calcada apenas num modelo: a gramática normativa. Ora, existem outros modelos gramaticais. O próprio professor pode usar sua gramática pessoal em benefício do alunado. Afinal, somos todos donos da gramática se temos alguma segurança no conhecimento de como funciona o idioma. Tal gramática vem à baila sempre que se lêem ou se escrevem novos textos...

Sim, as línguas clássicas? Fazem pensar, espicaçam a curiosidade e possuem uma literatura, cuja temática se repete de forma estilhaçada em narrativas de toda ordem. Figure que, lendo o Satyricon, livro de Petrônio, o arbiter, nele encontrei o fio da meada de alguns romances de literatura brasileira. Ler Memórias de um Sargento de Milícias ou romances de Jorge Amado, sobretudo aqueles que retratam a vida miserável, mas livre de alguns personagens, como Vadinho, Curió, o Cabo Martim ou Jesuíno Galo Doido, é o mesmo que ler a narrativa petroniana. Vê-se o personagem pícaro, a prostituta, além da linguagem desabrida do romancista baiano.

Ora, não há negar que a origem da tragédia está em Homero, malgrado os tragediógrafos gregos mais em evidência sejam Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. No aedo grego ouvem-se todos os tons narrativos e dramáticos. Suficiente por si mesmo, além de Aquiles dos pés ligeiros, sobressai Ulisses ou Odisseu, cuja volta para Ítaca é um desfilar de tragédias e comédias, afora o tom poético que, por vezes, salta à sensibilidade do leitor. Depois é a repetição de tudo em Virgílio, em cuja epopéia desponta Enéias, herói troiano, que foge, na Guerra de Tróia, à fúria de Aquiles. Em seguida, mais pasticho da antiga epopéia, que se desdobra no romance moderno. Mas a fonte é Homero. Penso que ler a chamada literatura clássica é a forma mais lídima de se compreender o que hoje se faz com a literatura...

Por fim, ler é o melhor remédio, como dizia a revista Seleções, ou ler é ainda a maior diversão e não o cinema como queria Luís Severiano Ribeiro. Professor de português que nada lê ou pouco lê queda-se a repetir o que dizem os livros didáticos e se regozijam em amedrontar o alunado com a história da carochinha da Gramática Normativa.

Teu pai, Hugo
           

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