12ª
CARTAS À MINHA FILHA
Maria Helena,
nada
existe sem a palavra. Ela instaura as significações do mundo, determinando o
que é, o que deve ser e o que não deve ser. Não é à toa que os latinos a chamam
de verbum.
Se leres o Evangelho segundo São João há nele uma referência a um verbo que se
fez carne. Aliás, o vocábulo palavra designa,
para os exegetas bíblicos, a própria essência, o próprio Ser do Deus dos
cristãos. Em grego, o logos, elemento mórfico
encontradiço num sem número de palavras do léxico português, sobremaneira no
vocabulário das ciências biomédicas, aponta para conhecimento, ciência, saber,
discurso. O grande Parmênides, filósofo pré-socrático, já advertia, bem antes
de Aristóteles, que o homem é, além de gregário e racional, dono de um
discurso, de uma fala, de uma parole acerca do mundo e suas
gestações fenomenológicas. Está umbilicalmente preso o homem à palavra. Sem
esta o homem não é homem, e o mundo não é mundo. Ambos se interpenetram para
que as significações se instaurem. Aliás, nunca é demais lembrar o axioma do
pensador alemão Heidegger: “a linguagem é a morada do Ser”.
Os
irracionais possuem uma linguagem geneticamente programada. Não instauram
significações, tampouco criam cultura. O homem, a seu turno, transforma o
mundo, acrescenta a ele algo de novo e o torna mais suportável para as gerações
vindouras.
O homem é ser vocacionado para a morte, pois é
o único que dela tem consciência, só ele detém a crua verdade de que é pasto de
vermes. Sabedor de sua finitude, de sua insignificância, de sua pouca
importância durante a estação em que passa pela vida, recorre a artifícios
mirabolantes e, pela linguagem, cria-os de todo jaez... Recorre até mesmo a
mentirinhas variadas, às famigeradas datas comemorativas em que ele finge e
abraça papéis artísticos. Em dado momento, ele é Papai Noel, aquele velhote
pançudo, portando borzeguins e trazendo sobre os costados um saco cheio de
mesmices discursivas; em outros, tenta arrancar a máscara hipócrita do fariseu
bíblico para substituí-la por um ar, a um tempo, trágico e grotesco. O tartufo
de antes se veste de santarrão bem intencionado e sai a enviar cartõezinhos
bordados com discurso ensaiado de boa Páscoa, que ele anexa a caixas de
chocolates desenhadas por coelhinhos ridículos, cuja simbologia pouca gente
consegue decifrar.
Por
fim, sempre há ocasiões para as apoteóticas mise en scène em que,
pela alquimia da palavra/linguagem, o homem se engane na vã certeza de que
ninguém pode ler suas intenções mais esconsas... As palavras escamoteiam o
real, mas, paradoxalmente, a este revelam, expondo o homem como um clown desvairado, vítima da comédia
tantas vezes ensaiada, que resulta sempre na tragédia das dores do mundo de que
nos falam os filósofos.
Minha
filha, teu pai não te quer induzir ao pessimismo dos fracos e covardes...
Prefere conduzir-te à necessidade de que temos de recorrer à filosofia como
forma de compreender o mundo, o homem e seu drama, bem como advertir-te de que
otimismo ou pessimismo sem reflexão é ensaio de asnices. Filosofar não é apanágio
de alguns, mas de todos que se aventuram na decifração do mundo pela palavra. Ave, verbum!!
Teu
pai.
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