terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


12ª

CARTAS  À MINHA FILHA



Maria Helena,

nada existe sem a palavra. Ela instaura as significações do mundo, determinando o que é, o que deve ser e o que não deve ser. Não é à toa que os latinos a chamam de verbum. Se leres o Evangelho segundo São João há nele uma referência a um verbo que se fez carne. Aliás, o vocábulo palavra designa, para os exegetas bíblicos, a própria essência, o próprio Ser do Deus dos cristãos. Em grego, o logos, elemento mórfico encontradiço num sem número de palavras do léxico português, sobremaneira no vocabulário das ciências biomédicas, aponta para conhecimento, ciência, saber, discurso. O grande Parmênides, filósofo pré-socrático, já advertia, bem antes de Aristóteles, que o homem é, além de gregário e racional, dono de um discurso, de uma fala, de uma parole acerca do mundo e suas gestações fenomenológicas. Está umbilicalmente preso o homem à palavra. Sem esta o homem não é homem, e o mundo não é mundo. Ambos se interpenetram para que as significações se instaurem. Aliás, nunca é demais lembrar o axioma do pensador alemão Heidegger: “a linguagem é a morada do Ser”.

Os irracionais possuem uma linguagem geneticamente programada. Não instauram significações, tampouco criam cultura. O homem, a seu turno, transforma o mundo, acrescenta a ele algo de novo e o torna mais suportável para as gerações vindouras.

 O homem é ser vocacionado para a morte, pois é o único que dela tem consciência, só ele detém a crua verdade de que é pasto de vermes. Sabedor de sua finitude, de sua insignificância, de sua pouca importância durante a estação em que passa pela vida, recorre a artifícios mirabolantes e, pela linguagem, cria-os de todo jaez... Recorre até mesmo a mentirinhas variadas, às famigeradas datas comemorativas em que ele finge e abraça papéis artísticos. Em dado momento, ele é Papai Noel, aquele velhote pançudo, portando borzeguins e trazendo sobre os costados um saco cheio de mesmices discursivas; em outros, tenta arrancar a máscara hipócrita do fariseu bíblico para substituí-la por um ar, a um tempo, trágico e grotesco. O tartufo de antes se veste de santarrão bem intencionado e sai a enviar cartõezinhos bordados com discurso ensaiado de boa Páscoa, que ele anexa a caixas de chocolates desenhadas por coelhinhos ridículos, cuja simbologia pouca gente consegue decifrar.

Por fim, sempre há ocasiões para as apoteóticas mise en scène em que, pela alquimia da palavra/linguagem, o homem se engane na vã certeza de que ninguém pode ler suas intenções mais esconsas... As palavras escamoteiam o real, mas, paradoxalmente, a este revelam, expondo o homem como um clown desvairado, vítima da comédia tantas vezes ensaiada, que resulta sempre na tragédia das dores do mundo de que nos falam os filósofos.

Minha filha, teu pai não te quer induzir ao pessimismo dos fracos e covardes... Prefere conduzir-te à necessidade de que temos de recorrer à filosofia como forma de compreender o mundo, o homem e seu drama, bem como advertir-te de que otimismo ou pessimismo sem reflexão é ensaio de asnices. Filosofar não é apanágio de alguns, mas de todos que se aventuram na decifração do mundo pela palavra. Ave, verbum!!

Teu pai.


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