sábado, 11 de fevereiro de 2012


BENDITO ESQUECIMENTO

                                                                                                   Hugo Martins

                                                                              

                        A tarde estava amena, apesar do forte calor que vinha fazendo ultimamente na cidadezinha. Uma leve brisa ciciava nas palhas da grande palmeira do centro da praça, em frente à Igreja Matriz. Meninos deslizavam em bicicletas, colegiais passavam sobraçando livros, cuidando de evitar que a saia larga do uniforme fosse erguida pela brejeirice gaiata do vento, que arrastava as folhas secas dos pés de castanholas. Em frente ao Bar do Toinho, o parlamento, espécie de reunião diária e ordinária de pessoas versadas na arte de falar mal dos outros, encontrava-se em plena sessão. Não poupava ninguém. A vida amorosa do padre com a beata viúva, o namoro das filhas de seu Otávio, a embriaguez a que se entregara o gerente do banco por ter sido mimoseado com um par de chavelhos pela mulher, sem falar no lojista próspero, que se encontrava em estado de falência por financiar a pose da mulher e dos filhos, tudo servia de pasto aos comentários ferinos daquele colegiado.

                              Não havia rebuliço algum. Tudo parado. A mesma monotonia. A mesmice dos dias vãos. A não ser o prenúncio da festa de São Sebastião, que dava ares alvissareiros à cidade, era uma nota dissonante.  É verdade que ainda faltavam algumas semanas, mas, passados os festejos do Natal e do Ano Novo, a cidade se travestia. Afinal era o santo, ex-soldado romano, o padroeiro daquela cidade ao pé da serra. Comerciantes se alegravam com o prenúncio de lucros. A banana descia da serra a preço mais baixo. Em redor da Igreja armava-se a quermesse. Até circo de empanada sem teto chegava ali. À tardinha, chamando a população, via-se um palhaço desengonçado, nariz redondo e vermelho, cara pintada e ar traquinas, portando uma espécie de megafone e gritando para a molecada que o seguia: “Hoje tem espetáculo?” A garotada ecoava: “Tem sim, senhor!” O palhaço então reperguntava: “Às sete horas da noite?” A meninada politonava: “Tem sim, senhor!” Fechando o apelo, o palhaço exortava: “Então arrocha, negada!” E o bando de meninos abrindo a gorja, acompanhava o palhaço e soltava uma espécie de grito de guerra:  “Iurrruuuuuuuuuuu!!!!” Tudo isso para fazer jus à entrada gratuita no circo. Para isso, cada menino do alegre cortejo tinha uma parte da mão pintada,  como a provar a participação naquela gostosa publicidade matuta. Quando iam tomar banho, evitavam molhar aquela espécie de senha.

               Caía a noite. O parlamento parecia principiar dissolver-se, quando, na ordem do dia, veio à baila a dívida externa do país. Ouviram-se comentários sobre outras dívidas menos importantes e as dificuldades que algumas pessoas encontram para pagar suas dívidas. De repente, o farmacêutico, senhor de longos bigodes retorcidos para cima, dando ares de quem engoliu uma gaivota, deixando de fora apenas as asas da ave marinha, olhou para os circundantes e fez uma afirmação judiciosa:



-        Eu não gosto de cobrar ninguém. Nunca gostei!



                            E colocando a mão no ombro de um companheiro de conversa, aduziu:



                            - O compadre aqui me deve quinze contos de réis, faz mais de três meses, e eu nunca cobrei. Não é mesmo, compadre?



                              E o compadre, rápido, encarando a todos, apertando e entortando a comissura dos lábios, balançou a cabeça e protestou:



                              - Não, compadre Nenzim!  Só te devo doze contos!



                              Nenzim, então, encarando a todos, arrematou em tom de autocensura.



- Vejam, meus senhores,  como sou esquecido!!!!!!!!!!!!



                   Em meio a gargalhadas, soou a ave-maria e o parlamento se desfez.






                             



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