BENDITO ESQUECIMENTO
Hugo Martins
A tarde
estava amena, apesar do forte calor que vinha fazendo ultimamente na
cidadezinha. Uma leve brisa ciciava nas palhas da grande palmeira do centro da
praça, em frente à Igreja Matriz. Meninos deslizavam em bicicletas, colegiais
passavam sobraçando livros, cuidando de evitar que a saia larga do uniforme
fosse erguida pela brejeirice gaiata do vento, que arrastava as folhas secas
dos pés de castanholas. Em frente ao Bar do Toinho, o parlamento, espécie de
reunião diária e ordinária de pessoas versadas na arte de falar mal dos outros,
encontrava-se em plena sessão. Não poupava ninguém. A vida amorosa do padre com
a beata viúva, o namoro das filhas de seu Otávio, a embriaguez a que se
entregara o gerente do banco por ter sido mimoseado com um par de chavelhos
pela mulher, sem falar no lojista próspero, que se encontrava em estado de
falência por financiar a pose da mulher e dos filhos, tudo servia de pasto aos
comentários ferinos daquele colegiado.
Não
havia rebuliço algum. Tudo parado. A mesma monotonia. A mesmice dos dias vãos.
A não ser o prenúncio da festa de São Sebastião, que dava ares alvissareiros à
cidade, era uma nota dissonante. É
verdade que ainda faltavam algumas semanas, mas, passados os festejos do Natal
e do Ano Novo, a cidade se travestia. Afinal era o santo, ex-soldado romano, o
padroeiro daquela cidade ao pé da serra. Comerciantes se alegravam com o
prenúncio de lucros. A banana descia da serra a preço mais baixo. Em redor da
Igreja armava-se a quermesse. Até circo de empanada sem teto chegava ali. À
tardinha, chamando a população, via-se um palhaço desengonçado, nariz redondo e
vermelho, cara pintada e ar traquinas, portando uma espécie de megafone e
gritando para a molecada que o seguia: “Hoje tem espetáculo?” A garotada
ecoava: “Tem sim, senhor!” O palhaço então reperguntava: “Às sete horas da
noite?” A meninada politonava: “Tem sim, senhor!” Fechando o apelo, o palhaço
exortava: “Então arrocha, negada!” E o bando de meninos abrindo a gorja,
acompanhava o palhaço e soltava uma espécie de grito de guerra: “Iurrruuuuuuuuuuu!!!!” Tudo isso para fazer
jus à entrada gratuita no circo. Para isso, cada menino do alegre cortejo tinha
uma parte da mão pintada, como a provar
a participação naquela gostosa publicidade matuta. Quando iam tomar banho,
evitavam molhar aquela espécie de senha.
Caía a noite. O parlamento
parecia principiar dissolver-se, quando, na ordem do dia, veio à baila a dívida
externa do país. Ouviram-se comentários sobre outras dívidas menos importantes
e as dificuldades que algumas pessoas encontram para pagar suas dívidas. De
repente, o farmacêutico, senhor de longos bigodes retorcidos para cima, dando
ares de quem engoliu uma gaivota, deixando de fora apenas as asas da ave
marinha, olhou para os circundantes e fez uma afirmação judiciosa:
-
Eu não gosto de cobrar ninguém. Nunca gostei!
E colocando a mão
no ombro de um companheiro de conversa, aduziu:
- O compadre aqui
me deve quinze contos de réis, faz mais de três meses, e eu nunca cobrei. Não é
mesmo, compadre?
E
o compadre, rápido, encarando a todos, apertando e entortando a comissura dos
lábios, balançou a cabeça e protestou:
-
Não, compadre Nenzim! Só te devo doze
contos!
Nenzim,
então, encarando a todos, arrematou em tom de autocensura.
- Vejam, meus
senhores, como sou esquecido!!!!!!!!!!!!
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