segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


SAUDADE II.

                                                       Hugo Martins

            Os sinos badalavam em repiques contínuos, a chamar os fiéis para a missa. De vez em quando, minha mãe nos advertia: essa é a segunda chamada. O menino punha as calças de suspensórios, enfiava a camisinha de riscado por entre o cós, calçava as apragatas de rabicho e metia o pé na carreira rumo à igreja. Esfalfado, entrava pela porta lateral e se sentava num batente frio da escadinha de três degraus que volteava o altar. Os sinos tocavam a última chamada...  Dali, ele via mais de perto a entrada do padre e seus acólitos, todos paramentados. Também se inebriava com o coro de vozes e a música do órgão. Vinham do alto, e o menino não atinava de onde partiam exatamente aquele canto e aquela música harmoniosos, cujo pulsar parecia convidar a todos à meditação e à contrição.

            O padre e os coroinhas ficavam de costa para a assistência. A missa era celebrada numa língua estranha: o padre dizia algo e seus auxiliares respondiam ou confirmavam. Os fiéis ora se levantavam, ora se sentavam ou se ajoelhavam. Nunca entendeu o menino aquele senta-e-levanta. Só mais tarde é que veio a saber que a língua ali utilizada era o latim.  Lembra ele de uma sentença que o padre pronunciava: Dominus vobiscum! (O Senhor esteja convosco). A meninada traduzia: Deus te belisque!! Quanta ao senta-e-levanta era um mero ritual.

            Além da música, muito lhe agradava ouvir o sermão do padre. Vezes, adquiria tom festivo; vezes outras, assumia tom admoestatório. Costumava o padre apodar as moçoilas muito dadas a danças, sobretudo em tempos carnavalescos, de pequenas Salomés. Ao exprobrar a dissolução dos costumes da pequena cidade, o vigário se esgoelava e soltava cobras e lagartas contra aqueles que desejavam, a seu aviso, transformar aquela comunidade numa Sodoma ou Gomorra! As intenções do padre eram louváveis e ele era ouvido...

            Àquela época, sólida era a formação que os padre traziam do seminário. Daí a férrea fundamentação de seus discursos, a segurança com que eram proferidos e a sensação de que eram embebidos em caudalosa Filosofia e em refletida Teologia. Afora a cultura humanística com que eram instilados. Nada era dito em vão...

            Hoje, quando o menino vai à missa, de regra, missa de sétimo dia ou de casamento, sente saudades daqueles tempos de antanho. O padre mais parece um animador de auditório. Os sermões são desgraciosos; o coro, desenxabido; e as músicas soam com um falso tom de jovialidade.  

            Se, em outros tempos, o padre se locomovia por até sete léguas de distância de sua paróquia para levar uma extrema-unção ou rezar uma missa de mortos sem esperar receber nada em troca, pois fazia isso de ofício; os padre dos tempos de hoje, quando chamados a exercer o seu mister, consultam sua agenda e procedem à contabilidade do que vão perceber pecuniariamente durante aquele dia. Uma ocasião, o menino viu um padre modernoso cobrar a quantia de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta) reais para celebrar uma missa de corpo presente num dos cemitérios da cidade. Além disso, cobrou o pagamento da tarifa do táxi e disse ao devedor que tratasse de resolver logo a coisa que ele tinha outro compromisso. Parece que iria celebrar outra missa nos mesmos moldes. Pura caridade...

            Em outros tempos, no decorrer da celebração de uma missa, uma irmã de caridade passava, de fila em fila, trazendo nas mãos uma vara comprida, de cuja ponta pendia um saquete em que os fiéis, se o quisessem, depositavam a espórtula que desejassem... Não havia obrigação de pagamento de dízimo ou coisa que o valha. Hoje, se a Igreja Católica recorre a discurso suasório a fim de convencer os fiéis de que todos têm o sagrado dever de pagar o dízimo, não é por zelo, mas porque não quer ficar atrás das igrejas de inspiração luterana. Não sabe o menino por que, mas que isso cheira a indulgência, isso cheira!!

            É tudo muito estranho. O menino passou hoje, dia 13 de novembro, em frente à Igreja de Fátima. Um ror de gente formigava pela praça ou embaixo de barracas, adrede preparadas. Não sabe o menino se propagavam a fé, ou se faziam as vezes dos vendilhões do tempo... Viam-se amontoadas às centenas imagens esculpidas, imagens pintadas, terços, flores, bentinhos, tudo sendo apregoado pela fala cristã daquelas pessoas piedosas. Se o menino fosse grande, diria que aquilo não passava de comércio com as coisas sacras, que, para o bom entendedor, não passa de simonia. O menino não estranharia se o Cristo ali surgisse de repente e, de chicote em punho, lanhasse as costas daqueles mercadores e dali os expulsasse.

            “Où sont les neiges d´antant?” (Onde estão as neves de antanho?) - pergunta o coração aflito do menino...



           

           


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