EMÍLIA...
Hugo Martins
Na literatura infanto-juvenil de Monteiro
Lobato, tão mal-digerida pela “máquina de fazer doido”, há um personagem da
estatura dos arquetípicos personagens da literatura universal, que ombreia com
o Quixote de Cervantes por sua vocação para sonhar sem deixar de questionar,
vis-à-vis, a realidade objetiva do mundo. Trata-se da boneca Emília,
encanarnação viva e alter ego do
escritor de Taubaté. Em qualquer episódio de que participa, Emília não regateia
palavras e raciocínios para fazer frente aos mesmismos e rebater hipocrisias e
ingenuidades, advindas do discurso dos ingênuos e parvos.
A
reflexão aflora de um fato singular: o desconhecimento de boa parte do povo
brasileiro em relação aos seus mais comezinhos direitos. Mesmo aqueles que lhe
afrontam diretamente a bolsa nas relações de consumo.
O
sujeito compra dada mercadoria, cujo preço é, por exemplo, R$ 9,99 (nove reais
e noventa e nove centavos). Entrega ao caixa uma cédula de vinte e recebe o
troco de dez reais. Ora, a loja ou magazine nunca dispõem de moedas de centavo
para o troco e, impunemente, lesa o consumidor. Ora, exigir o centavo é
direito, não é mesquinhez... Exigir o centavo é dar prova de que o direito de
propriedade, tão decantado pela Carta Política, deve ser por todos respeitado.
Exigir o centavo é não permitir que o comerciante inescrupuloso se locuplete
ilicitamente, amealhando dez, vinte, cem, mil, um milhão de centavos a cada
dia, a cada mês, a cada ano... Enfim, o centavinho sai de milhares e milhares
de bolsos. Se cada brasileiro - já tão indignado com os discursos bonitinhos, eleitoreiros
e caramelados, advindos da pior espécie de gente, que é a detestável classe
política - resolver posar de Emília e exigir seu centavo, dará mostra de que
isso também é exercício de cidadania.
Rudolph
Von Ihering, jusfilósofo alemão, na obra A LUTA PELO DIREITO, diz, com
propriedade, que aquele que se apodera de um centavo de um súdito inglês fere
de morte o equilíbrio da monarquia britânica. Parafraseando, às avessas, o
pensador germânico, o brasileiro que se deixa lesar, permitindo que o
comerciante cretino lhe assalte a bolsa, dá prova de ser um toleirão de marca
maior. Exigir respeito a direitos não deve a ninguém envergonhar.
Louve-se
Emília não só por seu discurso direto, desprovido de eufemismos açucarados,
mas, sobretudo, porque não se deixa embair por fulanos e sicranos e também por
ser capaz de levantar a bandeira de seu direito quando alguém sobre este ousa
tripudiar...
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