domingo, 5 de fevereiro de 2012


EMÍLIA...



                                                                                                               Hugo Martins

                                                                                    

  Na literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato, tão mal-digerida pela “máquina de fazer doido”, há um personagem da estatura dos arquetípicos personagens da literatura universal, que ombreia com o Quixote de Cervantes por sua vocação para sonhar sem deixar de questionar, vis-à-vis, a realidade objetiva do mundo. Trata-se da boneca Emília, encanarnação viva e alter ego do escritor de Taubaté. Em qualquer episódio de que participa, Emília não regateia palavras e raciocínios para fazer frente aos mesmismos e rebater hipocrisias e ingenuidades, advindas do discurso dos ingênuos e parvos.

          A reflexão aflora de um fato singular: o desconhecimento de boa parte do povo brasileiro em relação aos seus mais comezinhos direitos. Mesmo aqueles que lhe afrontam diretamente a bolsa nas relações de consumo.

          O sujeito compra dada mercadoria, cujo preço é, por exemplo, R$ 9,99 (nove reais e noventa e nove centavos). Entrega ao caixa uma cédula de vinte e recebe o troco de dez reais. Ora, a loja ou magazine nunca dispõem de moedas de centavo para o troco e, impunemente, lesa o consumidor. Ora, exigir o centavo é direito, não é mesquinhez... Exigir o centavo é dar prova de que o direito de propriedade, tão decantado pela Carta Política, deve ser por todos respeitado. Exigir o centavo é não permitir que o comerciante inescrupuloso se locuplete ilicitamente, amealhando dez, vinte, cem, mil, um milhão de centavos a cada dia, a cada mês, a cada ano... Enfim, o centavinho sai de milhares e milhares de bolsos. Se cada brasileiro - já tão indignado com os discursos bonitinhos, eleitoreiros e caramelados, advindos da pior espécie de gente, que é a detestável classe política - resolver posar de Emília e exigir seu centavo, dará mostra de que isso também é exercício de cidadania.

          Rudolph Von Ihering, jusfilósofo alemão, na obra A LUTA PELO DIREITO, diz, com propriedade, que aquele que se apodera de um centavo de um súdito inglês fere de morte o equilíbrio da monarquia britânica. Parafraseando, às avessas, o pensador germânico, o brasileiro que se deixa lesar, permitindo que o comerciante cretino lhe assalte a bolsa, dá prova de ser um toleirão de marca maior. Exigir respeito a direitos não deve a ninguém envergonhar.

          Louve-se Emília não só por seu discurso direto, desprovido de eufemismos açucarados, mas, sobretudo, porque não se deixa embair por fulanos e sicranos e também por ser capaz de levantar a bandeira de seu direito quando alguém sobre este ousa tripudiar...

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