quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


CARNAVAL

                                                          Hugo Martins



            Nada igual ao Carnaval de 2012 para mim. Na sexta-feira, já curtindo homéricas ressacas literárias, resolvi tomar um porre de poesia. Por isso, deixei de lado Iaiá Garcia e desculpei-me com Machado, afiançando-lhe que, passado o Carnaval, voltaria a curtir sua romântica história. O romancista, como sempre fleumático e tolerante, assentiu filosoficamente, ajuntando que me esperaria, ciente que está de minha fidelidade machadiana.

            Pois bem. Preparei a mesa, arrumei os livros retirados da estante, e comecei a sorvê-los como quem degusta um vinho refinado ou um copo da mais gelada das cervejas. Nenhum comensal. Só eu. Tomei a primeira dose. De repente, vi-me no Navio Negreiro, tendo ao lado o baiano Castro Alves, transpirando indignação a pedir emprestados ao albatroz asas e olhos para melhor enxergar o “sonho dantesco”. A seguir, ouvi-lhe apostrofar não só Deus, mas também a natureza como a perguntar-lhes se era admissível tanto horror perante os céus. O poeta estremecia como um insano, aguilhoado por uma dor insuportável, misto de pavor e impotência. Envergonhado da bandeira que cobria “tanta infâmia e cobardia”, dirige-se, aos gritos, aos heróis do Novo Mundo     , pedindo-lhes, ao primeiro, que arrancasse aquele pendão dos ares; e, ao segundo que fechasse as portas de seus mares. Referia-se o vate adolescente, respectivamente, a José Bonifácio de Andrada e Silva e ao navegador genovês Cristóvão Colombo. Vi-me envolvido pela atmosfera épica e embriaguei-me com aquele traçado de metáforas e metonímias, que cheguei ao estertor estético. Disse de mim para mim que aquele porre valera a pena. Afinal, não era pequena a alma do poeta...

            No sábado, encontrei Machado de Assis no cemitério... Pouco importa a elegância do “bruxo”, sua sobrecasaca, os óculos redondos e o chapéu bem posto, cobrindo-lhe s cãs, acentuando-lhe a barba grisalha... Sim, trazia nas mãos um buquê de flores frescas; no semblante carregado, uma dor intraduzível; e, na alma curvada, uma solidão sem tamanho...  Vi-o, então, aproximar-se de um túmulo, em cuja lápide lia-se um nome: Carolina. Depositou as flores na laje fria e musguenta do sepulcro. Em seguida balbuciou algumas palavras, dizendo: “querida, ao pé do leito derradeiro, em que descansas dessa longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração do companheiro”. Depois consegui ainda ouvir mais algumas palavras: “Trago-te flores, restos arrancados da terra, que nos viu passar unidos e, ora mortos, nos deixa e separados.” Ao fim, como vencido, homenageia sua amada com esse brinde final: “Que eu, se tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos.”  Não me contive: entreguei-me a copioso pranto, enquanto a figura solitária e digna do escritor se embrenhava por entre as tumbas vetustas naquela manhã fria da cidade que ele tanto amou e decantou. Certamente tomaria um tílburi, que o levaria à casa do Cosme Velho.

            No domingo, acordei dobrado por uma grande tristeza. Vasculhei a alma e vi-me vencido por uma espicaçante saudade. Nada fazia sentido. Tentei tomar um porre de lirismo. Conversei um pouco com Bilac, depois com Vinicius, mas nenhum me consolou. Ao contrário, tornaram mais lancinante aquela saudade malvada. Deitei-me numa velha rede de corda e entreguei-me à leitura de revistas sobre língua portuguesa... Nada. O diabo da saudade e me lacerar... De repente, pensei: essa saudade não me vai estragar o Carnaval. Apanhei um táxi e fui à raiz do problema: minha amada, de quem estava distanciado há largos e insuportáveis dois meses e dezenove dias. “Resistir quem há-de”? Corri a ela, esparramei minha alma, derramei meu pranto e atirei-me a seus braços, rendido. Daí, por diante, troquei o porre. Deixei de lado a poesia, recoloquei meus companheiros na estante, dele me despedi e eles, como sempre, permaneceram no seu mutismo, esperando-me como amigos fiéis de todas as horas. Abracei-me à mulher amada e demos início a uma nova folia, que se estendeu até quarta-feira de cinzas... Foi bom, natural, edificante e prometedor.

            Hoje, sem medo de errar, foi para mim um grande Carnaval...



           

           

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