CARNAVAL
Hugo Martins
Nada
igual ao Carnaval de 2012 para mim. Na sexta-feira, já curtindo homéricas
ressacas literárias, resolvi tomar um porre de poesia. Por isso, deixei de lado
Iaiá Garcia e desculpei-me com Machado, afiançando-lhe que, passado o Carnaval,
voltaria a curtir sua romântica história. O romancista, como sempre fleumático
e tolerante, assentiu filosoficamente, ajuntando que me esperaria, ciente que
está de minha fidelidade machadiana.
Pois
bem. Preparei a mesa, arrumei os livros retirados da estante, e comecei a
sorvê-los como quem degusta um vinho refinado ou um copo da mais gelada das
cervejas. Nenhum comensal. Só eu. Tomei a primeira dose. De repente, vi-me no
Navio Negreiro, tendo ao lado o baiano Castro Alves, transpirando indignação a
pedir emprestados ao albatroz asas e olhos para melhor enxergar o “sonho
dantesco”. A seguir, ouvi-lhe apostrofar não só Deus, mas também a natureza como
a perguntar-lhes se era admissível tanto horror perante os céus. O poeta
estremecia como um insano, aguilhoado por uma dor insuportável, misto de pavor
e impotência. Envergonhado da bandeira que cobria “tanta infâmia e cobardia”,
dirige-se, aos gritos, aos heróis do Novo Mundo ,
pedindo-lhes, ao primeiro, que arrancasse aquele pendão dos ares; e, ao segundo
que fechasse as portas de seus mares. Referia-se o vate adolescente,
respectivamente, a José Bonifácio de Andrada e Silva e ao navegador genovês
Cristóvão Colombo. Vi-me envolvido pela atmosfera épica e embriaguei-me com
aquele traçado de metáforas e metonímias, que cheguei ao estertor estético.
Disse de mim para mim que aquele porre valera a pena. Afinal, não era pequena a
alma do poeta...
No
sábado, encontrei Machado de Assis no cemitério... Pouco importa a elegância do
“bruxo”, sua sobrecasaca, os óculos redondos e o chapéu bem posto, cobrindo-lhe
s cãs, acentuando-lhe a barba grisalha... Sim, trazia nas mãos um buquê de
flores frescas; no semblante carregado, uma dor intraduzível; e, na alma
curvada, uma solidão sem tamanho... Vi-o,
então, aproximar-se de um túmulo, em cuja lápide lia-se um nome: Carolina.
Depositou as flores na laje fria e musguenta do sepulcro. Em seguida balbuciou
algumas palavras, dizendo: “querida, ao pé do leito derradeiro, em que
descansas dessa longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o
coração do companheiro”. Depois consegui ainda ouvir mais algumas palavras:
“Trago-te flores, restos arrancados da terra, que nos viu passar unidos e, ora
mortos, nos deixa e separados.” Ao fim, como vencido, homenageia sua amada com
esse brinde final: “Que eu, se tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida
formulados, são pensamentos idos e vividos.”
Não me contive: entreguei-me a copioso pranto, enquanto a figura solitária
e digna do escritor se embrenhava por entre as tumbas vetustas naquela manhã
fria da cidade que ele tanto amou e decantou. Certamente tomaria um tílburi,
que o levaria à casa do Cosme Velho.
No
domingo, acordei dobrado por uma grande tristeza. Vasculhei a alma e vi-me
vencido por uma espicaçante saudade. Nada fazia sentido. Tentei tomar um porre
de lirismo. Conversei um pouco com Bilac, depois com Vinicius, mas nenhum me
consolou. Ao contrário, tornaram mais lancinante aquela saudade malvada. Deitei-me
numa velha rede de corda e entreguei-me à leitura de revistas sobre língua
portuguesa... Nada. O diabo da saudade e me lacerar... De repente, pensei: essa
saudade não me vai estragar o Carnaval. Apanhei um táxi e fui à raiz do
problema: minha amada, de quem estava distanciado há largos e insuportáveis
dois meses e dezenove dias. “Resistir quem há-de”? Corri a ela, esparramei
minha alma, derramei meu pranto e atirei-me a seus braços, rendido. Daí, por
diante, troquei o porre. Deixei de lado a poesia, recoloquei meus companheiros
na estante, dele me despedi e eles, como sempre, permaneceram no seu mutismo,
esperando-me como amigos fiéis de todas as horas. Abracei-me à mulher amada e
demos início a uma nova folia, que se estendeu até quarta-feira de cinzas...
Foi bom, natural, edificante e prometedor.
Hoje,
sem medo de errar, foi para mim um grande Carnaval...
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