OPINIÃO
Hugo Martins
Sempre
que o mundo dos homens mergulha num mar de imoralidades, tangido pelas
circunstâncias de que nos fala Gasset, no célebre axioma “Eu sou eu e as minhas
circunstâncias,” vozes se alevantam e, tal sibilas oraculares, disseminam toda
sorte de definições tal qual fazia o senador romano Catão quando vituperava
contra a dissolução dos costumes dos homens de seu tempo.
Hoje,
em nossa terrinha da Santa Cruz, tornou-se moda publicarem-se artigos nos
veículos de comunicação de massa, deblaterando contra a falta de ética do homem
moderno e, sobretudo, contra a prática de alguns profissionais, cujo vezo tem
por mira a falta de postura, a incompetência e a sede pelo lucro fácil.
Os maiores alvos
das investidas de tais moralistas são os advogados. Estes operadores do Direito
vêm recebendo nas ancas sucessivas setas irônicas, atiradas por colegas que,
alçando-se em altiplanos construídos por uma mitificação de suas figuras
deusificadas, regozijam-se em proteger-se sob o manto de uma égide vulnerável
ou sob o abrigo de telhados de vidro, cujo zimbório, muitas vezes, não oferece
resistência face à sua evidente fragilidade.
Nenhuma acolhida
merecem esses pontos de vista. Nada justifica a criação de exércitos
moralistas, sobremaneira, quando suas armas se reduzem a apontar falhas na
formação de profissionais na área do Direito, pespegando-lhes o apodo
antipático, grosseiro e insultuoso de DESPREPARADO, quando é sabido que o
preparo de quem quer que seja depende mais de seu pendor para atividades
intelectuais do que aquilo que colhe nos bancos de uma faculdade. Nesta, se se
aproveita algo, guardam-se apenas as recordações de um ou outro professor, cuja
experiência e vocação para o magistério deixa, indelével, em nosso espírito a
certeza de que vale a pena estudar, para melhor compreender a grandeza e a
pequenez, a fortaleza e a fragilidade do homem, a quem Blaise Pascal chamou de
“ caniço pensante.” O mais são literatices inócuas.
O filósofo alemão
Martin Heiddeger dizia que a linguagem é a morada do ser. A tomar como
verdadeira essa premissa, que é ser preparado? Por trás dessa “palavramundo”,
neologismo drummondiano, desencavam-se variegadas significações com que não
sonha atinar nossa vã filosofice. Depende, pois, da perspectiva em que se
colocam o “magister dixit” e os narcotizados pela volúpia de um apoteótico
narcisismo. Pode significar o exercício estéril de reproduzir linguagem
bolorenta e bacharelesca que nos tentam impingir nas aulas sensaboronas
ministradas por professores sem nenhum preparo pedagógico para transmitir ao
alunado uma compreensão do Direito como ciência que apregoa e põe em prática
uma justiça voltada para a real e sincera remissão do homem. Pode também
convergir para uma compreensão de que o mundo é dos mais espertos, conforme se
entrevê em diálogos de candidatos à advocacia, que nela vêem uma forma legal de
ludibriar a boa fé dos outros por meio da chicana aviltante ou mesmo pelo ganho
de causas por artifícios inimagináveis em que se mercadejam consciência e
prestígio. Ou mesmo, lograr aprovação em concursos públicos pelo apadrinhamento
imoral, difícil de trazer à baila, devido a forças estranhas de que o próprio
Deus duvida. Afinal, isso é preparo, ou a linguagem conceitual nos oferece
outra forma de compreensão?
Ser preparado
para o exercício da advocacia não se reduz a decorar leis, abeberar-se em
doutrina ou sustentar argumentação por jurisprudências nem sempre consentâneas
com o Direito. Assim fosse, a decantada justiça social já teria aportado no
Brasil, não só pela enxurrada de leis, e medidas provisórias, editadas de
conformidade com o humor de Sua Majestade Fernando Henrique Cardoso mas também
pela profusão de acórdãos advindos de tribunais superiores, quase sempre
contrários aos superiores interesses do povo. A arte de advogar deve ir além
disso.
Não se dispensa
ao advogado uma cultura eclética, perpassada pela aura vivificadora da
Filosofia, pelo humanismo ínsito à Literatura, pela necessidade premente da
Sociologia, enfim, não se pode ver a advocacia sem que tenhamos em mira o homem
vislumbrado por uma visão totalizante do mundo. E isso nossas Faculdades de
Direito não mais oferecem. Se nosso ensino jurídico em nossos simulacros de
Salamanca formassem bons e competentes advogados, que dizer de Cícero, que
nunca pisou numa Faculdade de Direito? E de Evaristo de Moraes, o pai, cuja
sensibilidade para o Direito revelou-se antes de resolver entrar num curso
jurídico, pois mostrou-se advogado quando, na condição de rábula, patrocinou
antológicas defesas no Tribunal do Júri e escreveu livros? Seremos bons
advogados com e apesar dos cursos jurídicos, cuja maioria de professores abraça
o magistério como forma de aprender, fingindo que ensinam?
Tenho visto
petições de muito medalhão (ou merdalhão?) , cujos tropeços na ortografia
oficial e na sintaxe do idioma fazem Luís de Camões tremer na sepultura. E o
pior, vazadas numa lógica que insulta Aristóteles. Aqui e ali, citam seu
latinório vesgo, transcrevem a fraseologia de jurisconsultos romanos, que
jamais leram, e trazem como desfecho o
indefectível “ex positis.” Tudo muito bem ensaiado, numa “mise en scène”
simiesca de fazer inveja às pantomimas levadas à cena por uma espécie de
ópera-bufa suburbana. São, entretanto, amigos do rei, e isso basta.
No Tribunal do
Júri, nem pensar. Alguns medalhões se arvoram na condição de grandes tribunos
e, num discurso oco, recheado de um retoricismo burlesco, enveredam pelo
sofisma ingênuo, convencidos de que aquele linguajar facilmente convencerá os
jurados de que a tese sustentada deve ser acolhida como incontestável. Tivemos
a infelicidade de assistir a uma sessão do júri, a que estavam presentes
estudantes de cursos de Direito, em que o promotor de justiça porfiou, durante
toda a sessão, em atrapalhar a defesa, com trejeitos de gravoche desajeitado, tudo
com o beneplácito do Juiz-Presidente. Ganhou ele a causa, perderam o bom
exemplo os estudantes, prejudicou-se a aplicação justa do direito. O medalhão,
porém, com seu galardão, ria e fazia chiste com sua façanha. Era realmente um
homem preparado...
Como ser
preparado para exercer a advocacia num país em que os maus exemplos vêm dos
mais altos escalões, aliás estampados diariamente na imprensa? De que forma
compreender o ser preparado num país em que a Constituição da República e as
leis infraconstitucionais são
vilipendiadas imoralmente pela inércia do Poder Judiciário e pela incompetência
(?) do Poder Legislativo? Como pôr em prática um preparo jurídico num país em
que homens morrem de fome e de sede? Em que somos obrigados a conviver com a
mentira convencional de uma democracia apregoada pelos princípios
constitucionais tão aviltados? E a falta de escolas? E o descaso para com a
educação? E a propaganda governamental mentirosa para a qual não existe
repressão, pelo óbvio? Enfim, como ser preparado num país em que as nulidades,
a incompetência, a pouca vergonha, o jogo do poder ainda são a tônica desde que
o velho Cabral aqui pôs os pés, montado numa mentira histórica?
Ora, tenhamos
paciência. Digamos com o poeta Fernando Pessoa: “Vão para o diabo sem mim, ou
deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos?”
À guisa de fecho,
ainda Pessoa: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”
Há, poeta, os
falsos moralistas, que jamais leram algum tratado de moral. Aristóteles e
Spinoza, para eles, soam como integrantes de seleção de futebol européia.
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