quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


CARTA À MINHA FILHA.


Maria Helena,

perguntas-me qual o método ideal que deve abraçar o professor para alcançar o fim de tornar o estudante mais proficiente enquanto usuário do idioma. Quando alguém me faz tal pergunta, vem-me à cachola uma historieta singular. Conta-se que Machado de Assis, de uma feita, folheava o caderno de um estudante e a ele perguntou-lhe que língua era aquela. O jovem bisonho respondeu ser língua portuguesa. “O bruxo do Cosme Velho”, cético e irônico, balançou a cabeça e disse desconhecer os meandros de tal língua. Por evidente, entreviu nas garatujas do caderno uma gama acentuada de regras e exceções que deixariam tonto o mais sisudo dos filólogos.

 Isso também não nos parece língua portuguesa. O ensino da língua pela língua é inócuo, improdutivo e cretinóide, pois, por ele, o discurso didático-pedagógico não leva em conta manifestar-se o uso do idioma, enquanto instrumento de comunicação, por meio de quatro perspectivas humanas, demasiadamente humanas: de um lado, o falar e o escrever; de outro, o ouvir e o ler. Ora, o pobre do aluno, privado disso, suportando estoicamente o enfiar de goela abaixo a miríade de regrinhas e exceções, queda-se mudo, resignado e internaliza a idéia falsa de que aprender língua portuguesa é algo muito difícil. E tem razão. Enquanto isso, a expressão oral, o redigir, o ler e o falar ficam relegados, inexplicavelmente, a um segundo plano.

Sempre acreditei que, não importa o assunto a ser abordado, o texto deverá sempre o ponto de partida. Lido o texto, procede-se ao levantamento do vocabulário. Em seguida, escrevem-se frases verbais simples e composta com as palavras cujo significado contextual já foi desvendado. Por fim, redigem-se parágrafos, utilizando-se aquelas palavras. E, para coroar a tarefa, a criação do texto, que deve fundamentar-se no tema abordado. As questões lingüísticas serão comentadas no decorrer do comentário dos exercícios. Nada mais simples.

Não se deve, por evidente, olvidar a leitura da obra literária. Reprovável a utilização das famosas fichinhas, que a editoras mandam prontinhas, em franco desrespeito ao ofício do professor. Este deve formular questões, quatro ou cinco, no máximo, de modo que o aluno não veja na leitura da obra uma obrigação enfadonha. Para tanto, há de haver motivação prévia, entretecida pelo professor. Postos em evidência o estético da obra, os jogos de palavras, bem como o problema humano por ela abordado, o aluno se dispõe, livre, leve e solto, a ler a obra com prazer e dela retirar, entre outras coisas, o prazer e o gosto de viajar nas asas da arte.

Ao fim e ao cabo, terminado o semestre ou ano letivo, sairá o aluno com uma bagagem cultural e lingüística, sem ter que padecer com as regrinhas e exceções enfadonhas da gramática normativa. Voilà...

Teu pai

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