CARTA À MINHA FILHA.
8ª
Maria Helena,
perguntas-me qual o método ideal que
deve abraçar o professor para alcançar o fim de tornar o estudante mais
proficiente enquanto usuário do idioma. Quando alguém me faz tal pergunta,
vem-me à cachola uma historieta singular. Conta-se que Machado de Assis, de uma
feita, folheava o caderno de um estudante e a ele perguntou-lhe que língua era
aquela. O jovem bisonho respondeu ser língua portuguesa. “O bruxo do Cosme
Velho”, cético e irônico, balançou a cabeça e disse desconhecer os meandros de
tal língua. Por evidente, entreviu nas garatujas do caderno uma gama acentuada
de regras e exceções que deixariam tonto o mais sisudo dos filólogos.
Isso também não nos parece língua portuguesa.
O ensino da língua pela língua é inócuo, improdutivo e cretinóide, pois, por
ele, o discurso didático-pedagógico não leva em conta manifestar-se o uso do
idioma, enquanto instrumento de comunicação, por meio de quatro perspectivas
humanas, demasiadamente humanas: de um lado, o falar e o escrever; de outro, o
ouvir e o ler. Ora, o pobre do aluno, privado disso, suportando estoicamente o
enfiar de goela abaixo a miríade de regrinhas e exceções, queda-se mudo,
resignado e internaliza a idéia falsa de que aprender língua portuguesa é algo
muito difícil. E tem razão. Enquanto isso, a expressão oral, o redigir, o ler e
o falar ficam relegados, inexplicavelmente, a um segundo plano.
Sempre acreditei que, não importa o
assunto a ser abordado, o texto deverá sempre o ponto de partida. Lido o texto,
procede-se ao levantamento do vocabulário. Em seguida, escrevem-se frases
verbais simples e composta com as palavras cujo significado contextual já foi
desvendado. Por fim, redigem-se parágrafos, utilizando-se aquelas palavras. E,
para coroar a tarefa, a criação do texto, que deve fundamentar-se no tema abordado.
As questões lingüísticas serão comentadas no decorrer do comentário dos
exercícios. Nada mais simples.
Não se deve, por evidente, olvidar a
leitura da obra literária. Reprovável a utilização das famosas fichinhas, que a
editoras mandam prontinhas, em franco desrespeito ao ofício do professor. Este
deve formular questões, quatro ou cinco, no máximo, de modo que o aluno não
veja na leitura da obra uma obrigação enfadonha. Para tanto, há de haver
motivação prévia, entretecida pelo professor. Postos em evidência o estético da
obra, os jogos de palavras, bem como o problema humano por ela abordado, o
aluno se dispõe, livre, leve e solto, a ler a obra com prazer e dela retirar,
entre outras coisas, o prazer e o gosto de viajar nas asas da arte.
Ao fim e ao cabo, terminado o
semestre ou ano letivo, sairá o aluno com uma bagagem cultural e lingüística,
sem ter que padecer com as regrinhas e exceções enfadonhas da gramática
normativa. Voilà...
Teu pai
Nenhum comentário:
Postar um comentário