EM QUE ESTOU
PENSANDO? Em Seu João Faz Tudo, um tipo popular da cidade de Itapipoca, que
sofria de mitomania, mas não admitia que ninguém risse das histórias que
costumava contar... Ai daquele que desconfiasse da veracidade de seus “causos”.
Costumava pontificar nos mercados, feiras e praças à moda rapsodo grego.
As pessoas o
espicaçavam a contar histórias, mas ele sempre se fazia de rogado. Depois de
muita insistência, ajeitava o chapéu na cabeça, preparava um cigarro pé-duro,
dava algumas longas tragadas e soltava o verbo. Alguém pediu que ele contasse o
caso da chuva. Deu mais uma tragada no cigarro de palha e soltou a língua.
Ora, se deu, certa
feita, vir eu montado no meu cavalo, trazendo na garupa meu filho Esaú. Vinha
despreocupado, pensando na vida... Estava a seis quilômetros de minha casa, na
altura da entrada que dá para o açude Poço Verde. De repente, sinto uma
cutucada e uma advertência de meu filho: Olha, pai, vem vindo chuva grossa lá
das bandas de São Bento da Conceição da Amontada. Não contei pipoca, esporeei o
alazão e meti-lhe o relho. O bicho murchou as orelhas e saiu em desembalada
carreira. Eu disse de mim para mim: essa chuva não vai me pegar, não senhor!
Quando olho para trás, a bicha estava nos cascos do cavalinho corredor.
Esporeei mais o bichinho, caprichei no açoite, e o cavalo chispou feito um
corisco. E a chuva ali, no meu pé, querendo emparelhar comigo. Nesse
pega-não-pega, entrei no alpendre de minha casa e a danada passou... Alguém
indagou: e o senhor não se molhou, Seu João? O velho respondeu: eu mesmo não,
só fiquei com pena de meu pobre filho, ficou todo encharcado. Alguns dos
circunstantes quiseram rir, mas se contiveram, colocando a palma da mão sobre
os lábios.
Depois veio a
história da caçada. O velho sentou num dos degraus do coreto da praça, cruzou
as pernas, preparou outro cigarrinho de palha... Pois bem. Doutra feita fui
caçar pombas-de-bando com meu filho Esaú. Para não estragar chumbo nem perder o
tiro, pus carga mais pesada na espingardinha. No lugar de atirar diretamente
nas bichinhas, atirava por sobre a cabeça delas de modo a não matá-las, mas
deixá-las desmaiadas de modo que meu
filho as apanhasse ainda vivas. Esaú não
se detinha. Corria, apanhava uma a uma e pendurava-as numa embira que trazia em
torno da cintura. Dado o tiro, lá ia meu filho. Houve um momento em que dei o
último tiro e exortei meu filho a que recolhesse as últimas avoantes. Súbito,
ouço um grito distante: paaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Era o menino, as aves tinham acordado, alçado
vôo e levado meu filho, que gritava em desespero... Então, pus as duas mãos
abertas em forma de cone sobre a boca e gritei: meu filho, vá quebrando o
pescoço de cada uma que você aterrissa. Corri rumo á minha casa. Quando cheguei
ao quintal, meu filho ia segura e lentamente baixando ao solo. Ninguém riu... Seu João deu boa noite e se
retirou no momento em que a bandinha começou a tocar os dobrados em homenagem a
Nossa Senhora das Mercês.
Conta-se que,
certo dia, Seu João esbravejava, furioso, soltando farpas contra os políticos
locais, pespegando-lhes toda sorte de injúrias. O menor insulto era “cambada de
ladrões”. Um dos caciques locais ordenou que metessem o velho no xadrez. Nesse
momento, um de seus filhos foi ao gramofone e soltou essa pérola de raciocínio:
“Só mesmo na Itapipoca. A primeira vez que o papai fala a verdade vai preso...”
Depois eu
conto mais.
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