segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


11ª

Maria Helena,

segunda-feira de Carnaval. Chove em Fortaleza. Acabei a leitura de Édipo Rei, de Sófocles, a tragédia Agamêmnon, de Ésquilo e já começo a ler Medéia, de Eurípedes. As três retratam a condição e as paixões humanas em conflito, o homem entregue ao torvelhinho da inevitabilidade do destino. Dou um tempo aos livros e, vez por outra, ligo o televisor. Que vejo? A tragicomédia humana nessa terra de contrastes.

Com efeito, o brilho, o glamour, a graça e nudez da mulher brasileira, desfilando em meio a condes e reis, fazem pensar que vivemos no “melhor dos mundos” como queria o Doutor Pangloss, personagem do Cândido, de Voltaire.

Feérica festa, embalada por cortejos, cujos figurantes erguem os braços para o ar e abrem-se em sorrisos, é o retrato da contradição. Toda a riqueza, traduzida em fantasias e carros alegóricos, conduzida pela voz do sambista, que, certamente, ignora o tema desenvolvido no enredo, é uma ópera-bufa, que escamoteia a situação trágica em que se acha mergulhado o pobre povo brasileiro. Com fome, carente de educação, de cultura e mergulhada numa despolitização sem precedentes, aquela multidão de foliões mal sabe que se costuram, em gabinetes de homens endomingados e pilantras, estratégias perversas para manter o status quo: privilégios para poucos e negação dos direitos mais comezinhos à multidão embriagada pela alienação e a imbecilidade nossa de cada dia.

Alguns falam em viver um momento de glória em três dias. Vejo aí um sofisma, uma mendacidade malvada, uma afirmação cretinóide, tingida pela burrice, elevada à enésima potência da inconsciência e da descerebração.

Depois da “glória”, virá a dureza do cotidiano, a falta de perspectiva, a violência e todos os males provindos da perversa distribuição de renda, que sempre marcou este país desde que Cabral nele tropeçou. De que adianta ser rei por alguns dias, se amanhã a fraternidade e solidariedades humanas são moedas escassas nas relações sociais? Terminada a festa, reis, rainhas e príncipes voltam ao tugúrio. Finda a alegria e jogadas a um canto fantasias e alegorias, surgem as contas e a apreensão de como saldá-las.

 A única apoteose que resta no palco, após a glória, é a certeza de que nossas crianças continuam alvos da indiferença de governantes e legisladores falastrões. Após a pantomima, sobrará a convicção de que as esmolas governamentais continuarão instilando na consciência de zumbis analfabetos slogans festivos, grávidos de otimismo. Ao fim e ao cabo, aplaudir-se-á o governante que, continuará recebendo ampla aprovação dos brasileiros, narcotizados pela minguada espórtula política, sacada, com grande gáudio para comprar o gás e alguma comida e, por que não, para regar a gorja hiante e aflita dos que narcotizam a consciência com libações alcoólicas nesse país de eterno carnaval, alegorizado e fantasiado por fantasmagóricos três dias.

Teu pai

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