11ª
Maria Helena,
segunda-feira de Carnaval. Chove em
Fortaleza. Acabei a leitura de Édipo Rei, de Sófocles, a tragédia Agamêmnon, de
Ésquilo e já começo a ler Medéia, de Eurípedes. As três retratam a condição e
as paixões humanas em conflito, o homem entregue ao torvelhinho da
inevitabilidade do destino. Dou um tempo aos livros e, vez por outra, ligo o
televisor. Que vejo? A tragicomédia humana nessa terra de contrastes.
Com efeito, o brilho, o glamour, a graça e nudez da mulher
brasileira, desfilando em meio a condes e reis, fazem pensar que vivemos no “melhor
dos mundos” como queria o Doutor Pangloss, personagem do Cândido, de Voltaire.
Feérica festa, embalada por cortejos,
cujos figurantes erguem os braços para o ar e abrem-se em sorrisos, é o retrato
da contradição. Toda a riqueza, traduzida em fantasias e carros alegóricos,
conduzida pela voz do sambista, que, certamente, ignora o tema desenvolvido no
enredo, é uma ópera-bufa, que escamoteia a situação trágica em que se acha
mergulhado o pobre povo brasileiro. Com fome, carente de educação, de cultura e
mergulhada numa despolitização sem precedentes, aquela multidão de foliões mal
sabe que se costuram, em gabinetes de homens endomingados e pilantras,
estratégias perversas para manter o status
quo: privilégios para poucos e negação dos direitos mais comezinhos à
multidão embriagada pela alienação e a imbecilidade nossa de cada dia.
Alguns falam em viver um momento de
glória em três dias. Vejo aí um sofisma, uma mendacidade malvada, uma afirmação
cretinóide, tingida pela burrice, elevada à enésima potência da inconsciência e
da descerebração.
Depois da “glória”, virá a dureza do
cotidiano, a falta de perspectiva, a violência e todos os males provindos da
perversa distribuição de renda, que sempre marcou este país desde que Cabral
nele tropeçou. De que adianta ser rei por alguns dias, se amanhã a fraternidade
e solidariedades humanas são moedas escassas nas relações sociais? Terminada a
festa, reis, rainhas e príncipes voltam ao tugúrio. Finda a alegria e jogadas a
um canto fantasias e alegorias, surgem as contas e a apreensão de como
saldá-las.
A única apoteose que resta no palco, após a
glória, é a certeza de que nossas crianças continuam alvos da indiferença de
governantes e legisladores falastrões. Após a pantomima, sobrará a convicção de
que as esmolas governamentais continuarão instilando na consciência de zumbis
analfabetos slogans festivos,
grávidos de otimismo. Ao fim e ao cabo, aplaudir-se-á o governante que,
continuará recebendo ampla aprovação dos brasileiros, narcotizados pela
minguada espórtula política, sacada, com grande gáudio para comprar o gás e
alguma comida e, por que não, para regar a gorja hiante e aflita dos que
narcotizam a consciência com libações alcoólicas nesse país de eterno carnaval,
alegorizado e fantasiado por fantasmagóricos três dias.
Teu pai
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