A LEITURA E O FALSO
PUDOR
Hugo Martins
Até
a década de oitenta, não se permitia à juventude ler determinadas obras
literárias porque, na opinião dos educadores e censores, poderiam elas exercer
efeito deletério de grandes proporções no espírito da moçada. Seriam criações
das forças do mal. Às meninas, futuras jovens casadoiras, oferecia-se um
cardápio de livros, em cujo conteúdo e direcionamento ideológico, pescavam-se
idéias subliminares de que toda moça deveria ter como objetivo maior de vida a
preparação para o casamento. Com efeito, havia mesmo escolas em que, no turno
da manhã, a jovem estudava as matérias propedêuticas comuns ao currículo
escolar da época, e, no turno da tarde, assistia a aulas de etiqueta, de como
preparar um bom petisco ou lauto almoço e, sobretudo, como administrar a casa e
agradar o marido. Essa ideologia se encontrava bem às claras na famigerada
Biblioteca das Moças...
Virtuosa era a
jovem que guardava as primícias da virgindade para um determinado homem, muitas
vezes escolhido pelos pais da donzela. Bom partido era aquele que detinha bens
patrimoniais que, caso a casa caísse, na hora da partilha, a jovem poderia
abiscoitar um bom naco do patrimônio, de regra, construído pelo marido. Não é à
toa que o regime conjugal obrigatório na época era o da comunhão universal de
bens, isto é, aquilo que pertencesse aos nubentes, mesmo antes do casamento,
deveria ser partilhado na base de cinqüenta por cento para cada um...
Determinados
obras, consideradas clássicas, quando não eram trancadas a sete chaves, eram
jogadas à fogueira ou colocadas num tal Index
Librorum Prohibitorum (Índice dos livros proibidos). Coisa da igreja Católica, tão preocupada com
a salvação das almas... Comovente... Madame Bovary, na França, levou seu autor às
barras dos tribunais por ser considerado imoral. Ler O Primo Basílio ou o Crime
do Padre Amaro era um sacrilégio. Na opinião dos filisteus, o primeiro era
também imoral e o último, atentatório aos homens virtuosos da Igreja.
Graciliano Ramos teve alguns de seus livros levados literalmente à fogueira
numa praça pública em Alagoas. Difícil mesmo é saber o que é moral ou imoral
quando se trata da criação artística. Qual seria o grau de moralidade ou
imoralidade que o burguês ignorante daria ao quadro O Juízo Final, em que
Michelângelo Buonarroti coloca em evidência a nudez lírica de seus
personagens? O artista não acrescenta à
sua criação senão o que é humano. A questão do feio ou do bonito, do moral ou
do imoral parece situar-se, pelo menos em termos de criação artística, no que
cada um tem de censor ou de apreciador estético.
Lembra-nos um
episódio em que um professor foi demitido de um colégio em Fortaleza porque
indicou a obra A Estrela Sobe de Marques Rebelo. Um pedagogo dos mais néscios
julgou ser a obra imprópria para alunos que já cursavam o último ano do Curso
Médio. Argumento daquele bravo educador: estava passando um filme baseado na
obra. Estarrecido, o educador viu uma cena em que uma jovem, desejando subir na
vida artística, tinha que deitar-se na cama do diretor do filme e com ele fazer
concessões se quisesse ser uma “estrela”. Quer dizer, sexualidade, mesmo
mercadejada, para nosso educador é coisa
feia sobre a qual não se deve falar e, portanto, a demissão do professor fundou-se
numa justa causa. A História continua. Hoje, toda moçoila que alimente o sonho
de ser “modelo”, também há de fazer concessões por faltar-lhe talento... Os
pedagogos e censores de agora não mais se preocupam, os tempos são outros.
Um escritor
brasileiro, dos mais profícuos, contador de histórias, intérprete do Brasil, de
linguagem, a um tempo, desabrida e rica, também tem recebido tarjas de escritor
imoral e, portanto desaconselhável ao filisteu. Trata-se de Jorge Amado. Não
conheço leitor sério que rejeite Jorge Amado por descrever cenas escabrosas ou
utilizar, em seus livros, palavrões cabeludos de largo uso pelo povo. Aliás,
trata-se de uma marca estilística do escritor baiano, que leva o leitor às
gargalhadas. Jorge Amado sem palavrão é o mesmo que o Brasil sem carnaval e
futebol. O leitor ingênuo, arraigado a preconceitos avoengos não enxerga o outro
lado da prosa amadiana, não lhe descobre a poesia e o humanismo, aspectos tão
polvilhados em sua obra. Esse tipo de leitor age como o cãozito de Pavlov, mal
vê um palavrão, joga de lado a obra, perdendo a oportunidade de recrear o
espírito com o texto saboroso do criador de Capitães da Areia.
A obra de
Jorge Amado é pródiga de brasilidade. A linguagem é brasileira. A temática é
brasileira. O coronelismo cacaueiro, os menores abandonados, os malandros, os
capoeiras, o grevista, o retirante, as putas, e toda a casta de personagens
que, pelo menos ficcionalmente, nos convidam para o seu lado. Com Jorge Amado,
o leitor fica sempre ao lado do mais fraco ou daquele que não se afeiçoa aos
padrões da sociedade capitalista. Não, os personagens de Jorge Amado, quase
todos, sobretudo os marginalizados e explorados, respiram liberdade e
desvinculação dos modelos bem comportados.
Ora, o
escritor baiano é, no Brasil, um dos mais lidos. Muitas de suas obras foram
traduzidas para mais de cinquenta idiomas. Vários de seus livros foram
adaptados para o cinema e para a televisão.
Mesmo assim, o
leitor-burguês-filisteu, sempre preso a livros que estão na moda, figuram na
lista dos mais vendidos ou se encontram na linha de frente dos balcões de
entrada de livrarias, tem pavor ao palavrão. Míope, só enxerga o palavrão...
Não há palavras para definir o leitor-filisteu que abomina o palavrão e outras
coisas afins...
Por evidente,
também se vende muito lixo cultural, muita coisa travestida de bom-gosto graças
a uma insondável química que consegue transformar cocô em arte porque, como já
dizia um compositor, “camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Está
provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.”
Eis um bom
argumento para o leitor inimigo de palavrões e de cenas escabrosas na obra
literária ou qualquer outra manifestação de cunho artístico.
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