segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


A LEITURA E O FALSO PUDOR

                                                                             Hugo Martins



            Até a década de oitenta, não se permitia à juventude ler determinadas obras literárias porque, na opinião dos educadores e censores, poderiam elas exercer efeito deletério de grandes proporções no espírito da moçada. Seriam criações das forças do mal. Às meninas, futuras jovens casadoiras, oferecia-se um cardápio de livros, em cujo conteúdo e direcionamento ideológico, pescavam-se idéias subliminares de que toda moça deveria ter como objetivo maior de vida a preparação para o casamento. Com efeito, havia mesmo escolas em que, no turno da manhã, a jovem estudava as matérias propedêuticas comuns ao currículo escolar da época, e, no turno da tarde, assistia a aulas de etiqueta, de como preparar um bom petisco ou lauto almoço e, sobretudo, como administrar a casa e agradar o marido. Essa ideologia se encontrava bem às claras na famigerada Biblioteca das Moças...

Virtuosa era a jovem que guardava as primícias da virgindade para um determinado homem, muitas vezes escolhido pelos pais da donzela. Bom partido era aquele que detinha bens patrimoniais que, caso a casa caísse, na hora da partilha, a jovem poderia abiscoitar um bom naco do patrimônio, de regra, construído pelo marido. Não é à toa que o regime conjugal obrigatório na época era o da comunhão universal de bens, isto é, aquilo que pertencesse aos nubentes, mesmo antes do casamento, deveria ser partilhado na base de cinqüenta por cento para cada um...

Determinados obras, consideradas clássicas, quando não eram trancadas a sete chaves, eram jogadas à fogueira ou colocadas num tal Index Librorum Prohibitorum (Índice dos livros proibidos).  Coisa da igreja Católica, tão preocupada com a salvação das almas... Comovente...  Madame Bovary, na França, levou seu autor às barras dos tribunais por ser considerado imoral. Ler O Primo Basílio ou o Crime do Padre Amaro era um sacrilégio. Na opinião dos filisteus, o primeiro era também imoral e o último, atentatório aos homens virtuosos da Igreja. Graciliano Ramos teve alguns de seus livros levados literalmente à fogueira numa praça pública em Alagoas. Difícil mesmo é saber o que é moral ou imoral quando se trata da criação artística. Qual seria o grau de moralidade ou imoralidade que o burguês ignorante daria ao quadro O Juízo Final, em que Michelângelo Buonarroti coloca em evidência a nudez lírica de seus personagens?  O artista não acrescenta à sua criação senão o que é humano. A questão do feio ou do bonito, do moral ou do imoral parece situar-se, pelo menos em termos de criação artística, no que cada um tem de censor ou de apreciador estético.

Lembra-nos um episódio em que um professor foi demitido de um colégio em Fortaleza porque indicou a obra A Estrela Sobe de Marques Rebelo. Um pedagogo dos mais néscios julgou ser a obra imprópria para alunos que já cursavam o último ano do Curso Médio. Argumento daquele bravo educador: estava passando um filme baseado na obra. Estarrecido, o educador viu uma cena em que uma jovem, desejando subir na vida artística, tinha que deitar-se na cama do diretor do filme e com ele fazer concessões se quisesse ser uma “estrela”. Quer dizer, sexualidade, mesmo mercadejada,  para nosso educador é coisa feia sobre a qual não se deve falar e, portanto, a demissão do professor fundou-se numa justa causa. A História continua. Hoje, toda moçoila que alimente o sonho de ser “modelo”, também há de fazer concessões por faltar-lhe talento... Os pedagogos e censores de agora não mais se preocupam, os tempos são outros.  

Um escritor brasileiro, dos mais profícuos, contador de histórias, intérprete do Brasil, de linguagem, a um tempo, desabrida e rica, também tem recebido tarjas de escritor imoral e, portanto desaconselhável ao filisteu. Trata-se de Jorge Amado. Não conheço leitor sério que rejeite Jorge Amado por descrever cenas escabrosas ou utilizar, em seus livros, palavrões cabeludos de largo uso pelo povo. Aliás, trata-se de uma marca estilística do escritor baiano, que leva o leitor às gargalhadas. Jorge Amado sem palavrão é o mesmo que o Brasil sem carnaval e futebol. O leitor ingênuo, arraigado a preconceitos avoengos não enxerga o outro lado da prosa amadiana, não lhe descobre a poesia e o humanismo, aspectos tão polvilhados em sua obra. Esse tipo de leitor age como o cãozito de Pavlov, mal vê um palavrão, joga de lado a obra, perdendo a oportunidade de recrear o espírito com o texto saboroso do criador de Capitães da Areia.

A obra de Jorge Amado é pródiga de brasilidade. A linguagem é brasileira. A temática é brasileira. O coronelismo cacaueiro, os menores abandonados, os malandros, os capoeiras, o grevista, o retirante, as putas, e toda a casta de personagens que, pelo menos ficcionalmente, nos convidam para o seu lado. Com Jorge Amado, o leitor fica sempre ao lado do mais fraco ou daquele que não se afeiçoa aos padrões da sociedade capitalista. Não, os personagens de Jorge Amado, quase todos, sobretudo os marginalizados e explorados, respiram liberdade e desvinculação dos modelos bem comportados.

Ora, o escritor baiano é, no Brasil, um dos mais lidos. Muitas de suas obras foram traduzidas para mais de cinquenta idiomas. Vários de seus livros foram adaptados para o cinema e para a televisão.

Mesmo assim, o leitor-burguês-filisteu, sempre preso a livros que estão na moda, figuram na lista dos mais vendidos ou se encontram na linha de frente dos balcões de entrada de livrarias, tem pavor ao palavrão. Míope, só enxerga o palavrão... Não há palavras para definir o leitor-filisteu que abomina o palavrão e outras coisas afins...

Por evidente, também se vende muito lixo cultural, muita coisa travestida de bom-gosto graças a uma insondável química que consegue transformar cocô em arte porque, como já dizia um compositor, “camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.”

Eis um bom argumento para o leitor inimigo de palavrões e de cenas escabrosas na obra literária ou qualquer outra manifestação de cunho artístico.














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