quinta-feira, 1 de março de 2012


15ª

Maria Helena,

contaram-me uma singularíssima historieta sobre o ato de escrever. Diz-se que um escritor, após terminar conferência sobre o assunto, foi abordado por uma graciosa jovem, que, dos altiplanos de sua estupidez, perguntou ao conferencista de que forma se deve iniciar a redação de um texto. A resposta saiu pronta: “inicia-se com uma letra maiúscula e termina-se com um ponto final.” A moçoila, com ar de quem nada entendeu, emendou: “e, entre um e outro, que deve fazer o redator.” Resposta curta: “deve você colocar-se entre a maiúscula e o ponto.”

Contei a historinha a um grupo de alunos... Não entenderam e ficaram me olhando como cachorro que cai de caminhão de mudança.

Com efeito, a feitura do texto resulta de nosso olhar sobre a realidade, que, traduzindo-a, entretece uma série de pensamentos e inferências rumo à arquitetura do discurso. As coerência e coesão, virtudes da clareza e precisão, surdirão da competência com que o usuário do idioma entrelaça palavras e instrumentos gramaticais. Aliás, a palavra texto, sob os aspectos mórfico e semântico, lembra têxtil, tecido, tessitura, cosimento. Bem diz quem bem costura. Só que o ofício de costurar exige o namoro diuturno com a leitura e a escritura. Não basta inspiração. Esta há de estar aliada à transpiração.

Todo grande escritor sofre do que Gustave Flauber chamou de “angústia de forma”. Em outras palavras, o escrever, sobretudo artisticamente, supõe uma luta infrene com a busca da forma. Aquele autor francês gastou mais de cinco anos para pôr o ponto final no Madame de Bovary; Machado de Assis, conta Raimundo Magalhães Júnior, muitas vez , erguia-se da cama, já indo alta a noite, para promover alguma emenda no texto já escrito; Raimundo Correia só deu forma final ao soneto Banzo, ao fim de catorze anos. Antes disso, já o publicara em duas versões diversas. Quer dizer, o escrever supõe, em Bilac, o “trabalha, e teima, e lima, e sofre e sua.”  Embora nossa luta com palavras “seja vã, com ela lutamos mal rompe a manhã.” Também é bem certo existirem escritores, como Manuel Bandeira. Dizia o poeta pernambucano que, no momento em que a inspiração jorrasse, não dispusesse ele de caneta ou lápis para registrar o poema, este se esvaía e não mais voltava. Para João Cabral, bastava-lhe o tema para fazer o poema. Este era obsessivo no dizer pensado, aquele voltava-se também para os ajustes finais do poema, embora este saltasse aos borbotões, sem a frieza crua da intervenção intelectual.

Causa riso a existência do professor de redação. Ou é mágico ou, quando tira a barba, usa óleo de peroba no lugar de loção após a barba. Ninguém ensina ninguém a escrever. O máximo que se pode fazer é orientar leituras e criar condições de pensar antes, durante e depois do texto lido. Lembras o livro de Othon M. Garcia, o Comunicação em Prosa Moderna? Tem por subtítulo “aprender a escrever, aprendendo a pensar.” Refiro-me não ao texto artístico, este é apanágio de poucos. Reporto-me ao texto em que predominam outras funções da linguagem que não a função poética. Digo do texto pensado e repensado, que traz uma reflexão ou notícia do mundo.

A quem pretende escreve com fluência, clareza e propriedade não se pode dispensar a leitura, tampouco o exercício constante da escritura. Quem pensa escrever alguma coisa sem um conhecimento prévio do assunto pelo exercício da leitura vai, no chavão, malhar em ferro frio. Com certeza lhe sairá da pena um amontoado de dislates, misturados a lugares-comuns ou entrecortados de uma fieira de adjetivos vazios, sem brilho e sem vida.

Tu, filha, que optaste pelas Belas Letras, não caias na esparrela de que alguém te possa dar aulas de redação. O professor de redação é, no mínimo, um asno pretensioso que se esconde sob a capa de letrado. Por evidente não estou a querer ofender o quadrúpede.

O ler e o escrever constituem um jogo (ludus) encantador que nos dá a certeza de que estamos vivos. Não devemos nos render à idéia de que somos cadáveres ambulantes, embora adiados...

Ler e escrever são um grande negócio. Não para quem investe na Bolsa de Valores ou especula no mercado financeiro. Mas para quem deseja aproximar-se de alguns mistérios do bicho homem, desterrado no mundo em que se encontra...

Teu pai.


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