domingo, 25 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (7)

                             Hugo Martins



          Ingressar num curso superior era incumbência para poucos, pois só existiam a UFC e alguns cursos independentes da futura UECE, desdobramento da FAFICE (Faculdade de Filosofia do Ceará), que, embora possuísse um quadro docente do mais fino trato, funcionava precariamente nas dependências do então Colégio Cearense. Naquele tempo, o discurso sofístico da democratização do ensino ainda não se estabelecera, só entrava quem ostentasse competência e disposição para as elucubrações que o ensino universitário exigia.

          Naquele tempo, os exames vestibulares exigiam do candidato infindos sacrifícios, noites indormidas e ansiedade tantálica. Não havia ir à praia, tampouco ao cinema, afinal a concorrência impunha dedicação exclusiva aos estudos e distância da mediocridade intelectual.

          Aquele que concluísse o antigo Curso Científico escolhia o ingresso em carreiras concernentes às ciências físicas e biológicas.  Quem houvesse   concluído o Curso Clássico estava optando pelas humanidades. As provas eram aplicadas por matéria. Constituíam núcleo obrigatório as provas de língua portuguesa, língua estrangeira e matemática. Química, física e biologia para os primeiros; filosofia, sociologia e história para os últimos. Assim, a angústia dos exames se estendia por seis torturantes dias. Se os economicamente  mais bem aquinhoados matriculavam-se nos famigerados cursinhos, espécie de câncer da educação, em que eram amestrados a fazer provas, aos mais desprovidos restava o esforço sobre-humano para com aqueles concorrer.

          Naquele tempo, os medíocres e os intelectualóides enrustidos não tinham vez. Haveriam de esperar a mentira pedagógica das bodegas escolares em que se finge ensinar, pensar e aprender.

          Naquele tempo, a teleologia educacional centrava-se na preocupação não só de formar o bacharel mas também de formar o homem global que, no exercício da profissão, tinha em vista a preocupação humanística de bem servir. A figura sombria do “bacharégua”, misto de zumbi com descerebrado, só servia mesmo para deambular em corredores do fórum, ostentando fumos doutorais ou travestida por indumentária de marca famosa, portando no dedo o indefectível anelão de onde reverberava sua lastimável incompetência. Quando não, azafamavam-se nos corredores de assembléias estaduais e câmaras municipais à procura das sinecuras de alguns cargos públicos, que, à época, ainda não exigiam o concurso público de provas e títulos. Esteavam-se nas costas largas de políticos inescrupulosos e patifes.

          Naquele tempo, ser professor do Liceu do Ceará não era para qualquer um. Havia de ser professor, pois os “dadores de aulas” vomitavam suas pseudo-aulinhas em escolas cujo lema era o “pagou passou”.  Para ser professor naquele tempo não bastava conhecer a matéria. Fazia-se necessária uma sólida formação pedagógica, haurida em demorados estudos, calcados em filósofos e pensadores da problemática do homem no mundo. Conhecer só a matéria e cobrá-la em sensaboronas provículas bancárias não era suficiente. Por isso, naquele tempo, o professor, por mais limitado que fosse, era senhor de conhecimento eclético, além de ser portador do que se convencionou chamar apurado senso crítico. Não se conhecia o mundo apenas pela leitura de jornais e revistas, instrumentos pelos quais se veiculavam as ideologias de então. Ia-se além, e a “máquina de fazer doido” ainda não era a rainha do lar. Havia mais tempo à dedicação da leitura de obras de cunho literário, filosófico e conteúdos afins. A indústria cultural ainda não banalizara o conhecimento.

          Naquele tempo, havia menos pose, mais estudo e, sobretudo, um autodidatismo gratuito e sincero...

          Bons tempos aqueles.

         

           

         

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