NAQUELE
TEMPO (7)
Hugo
Martins
Ingressar num curso superior era incumbência para poucos,
pois só existiam a UFC e alguns cursos independentes da futura UECE,
desdobramento da FAFICE (Faculdade de Filosofia do Ceará), que, embora possuísse
um quadro docente do mais fino trato, funcionava precariamente nas dependências
do então Colégio Cearense. Naquele tempo, o discurso sofístico da
democratização do ensino ainda não se estabelecera, só entrava quem ostentasse
competência e disposição para as elucubrações que o ensino universitário
exigia.
Naquele tempo, os exames vestibulares exigiam do candidato
infindos sacrifícios, noites indormidas e ansiedade tantálica. Não havia ir à
praia, tampouco ao cinema, afinal a concorrência impunha dedicação exclusiva
aos estudos e distância da mediocridade intelectual.
Aquele que concluísse o antigo Curso Científico escolhia o
ingresso em carreiras concernentes às ciências físicas e biológicas. Quem houvesse
concluído o Curso Clássico estava optando pelas humanidades. As provas
eram aplicadas por matéria. Constituíam núcleo obrigatório as provas de língua
portuguesa, língua estrangeira e matemática. Química, física e biologia para os
primeiros; filosofia, sociologia e história para os últimos. Assim, a angústia
dos exames se estendia por seis torturantes dias. Se os economicamente mais bem aquinhoados matriculavam-se nos
famigerados cursinhos, espécie de câncer da educação, em que eram amestrados a
fazer provas, aos mais desprovidos restava o esforço sobre-humano para com
aqueles concorrer.
Naquele tempo, os medíocres e os intelectualóides
enrustidos não tinham vez. Haveriam de esperar a mentira pedagógica das bodegas
escolares em que se finge ensinar, pensar e aprender.
Naquele tempo, a teleologia educacional centrava-se na
preocupação não só de formar o bacharel mas também de formar o homem global
que, no exercício da profissão, tinha em vista a preocupação humanística de bem
servir. A figura sombria do “bacharégua”, misto de zumbi com descerebrado, só
servia mesmo para deambular em corredores do fórum, ostentando fumos doutorais
ou travestida por indumentária de marca famosa, portando no dedo o indefectível
anelão de onde reverberava sua lastimável incompetência. Quando não, azafamavam-se
nos corredores de assembléias estaduais e câmaras municipais à procura das
sinecuras de alguns cargos públicos, que, à época, ainda não exigiam o concurso
público de provas e títulos. Esteavam-se nas costas largas de políticos
inescrupulosos e patifes.
Naquele tempo, ser professor do Liceu do Ceará não era para
qualquer um. Havia de ser professor, pois os “dadores de aulas” vomitavam suas
pseudo-aulinhas em escolas cujo lema era o “pagou passou”. Para ser professor naquele tempo não bastava
conhecer a matéria. Fazia-se necessária uma sólida formação pedagógica, haurida
em demorados estudos, calcados em filósofos e pensadores da problemática do
homem no mundo. Conhecer só a matéria e cobrá-la em sensaboronas provículas
bancárias não era suficiente. Por isso, naquele tempo, o professor, por mais
limitado que fosse, era senhor de conhecimento eclético, além de ser portador
do que se convencionou chamar apurado senso crítico. Não se conhecia o mundo
apenas pela leitura de jornais e revistas, instrumentos pelos quais se veiculavam
as ideologias de então. Ia-se além, e a “máquina de fazer doido” ainda não era
a rainha do lar. Havia mais tempo à dedicação da leitura de obras de cunho
literário, filosófico e conteúdos afins. A indústria cultural ainda não
banalizara o conhecimento.
Naquele tempo, havia menos pose, mais estudo e, sobretudo,
um autodidatismo gratuito e sincero...
Bons tempos aqueles.
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