sexta-feira, 30 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (12)

                                                                     Hugo Martins



          Pedro Ângelo, caboclo de truz e boa cepa, temendo os horrores de nova seca, resolveu se botar para a Amazônia. Já vira muita areia nos grandes formigueiros, o vôo prenunciador das aves de arribação e outros sinais que o persuadiram a partir em busca de melhores dias. A família, queira-Deus, é que não podia ficar ao deus-dará, padecendo os horrores da fome e estirando o pires humilhante à caridade pública. Esperar pelas históricas promessas de políticos pilantras era um desafio a que não mais se submeteria. O negócio era mesmo arrumar as trouxas e arribar... A mãe e os irmãos compreenderiam aquela dolorosa decisão. Depois de algum tempo, estaria de volta. Partiria com a esperança e traria dinheiro no bolso. A providência divina a todos daria o arrimo...

          A cidadezinha ardia sob o nefando rigor dos raios solares. Bois de espinhaço à mostra fuçavam o pasto estorricado em volta da igreja; cães de extrema magreza reviravam os monturos à procura de restolhos de alguma coisa para amainar a fome. Pedro Ângelo beijou a mãe, abraçou os irmãos e, a passo tardo, arrastou-se pela cidadezinha pobre para esperar o caminhão misto, que já buzinava freneticamente chamando os passageiros. Pedro aligeirou o passo e, de súbito, estacou. Não podia partir sem levar a bênção de Tio Estevim, que, esparramado na calçada, curtia a embriaguez diária de anos a fio. Estevim era um tipo popular que, às vezes, surpreendia por tiradas espirituosas. Ante a insistência do sobrinho - era tio de toda a cidade – abriu os olhos e atendeu àquele, desejando-lhe todas as sortes do mundo. Pedro partiu, e Tio Estevim e entregou-se a seu filosófico sono, indiferente à sorte e às dores do mundo.

          A vida continuava, homens se sucediam no poder, a civilização avançava, e a cidadezinha na mesma modorra dos dias vãos. Getúlio Vargas fora apeado do poder provisório em que se instalou por curtos quinze anos.  Dutra assumiu a presidência, redemocratizando o País. Quatro anos depois, Getúlio volta ao poder, amarra seu cavalo no obelisco da Cinelândia e suicida-se. A terrinha tupiniquim passa a viver os anos dourados de Juscelino. Começa o embate pela presidência entre o Marechal Lott, Ademar de Barros e a sinistra figura de Jânio Quadros. Instala-se a ditadura militar de 1964... Até que um dia, Pedro Ângelo, riscou na ponta da rua, sorridente. Parecia alegre - seu semblante não mentia - trazia na valise presentes para toda a família, comprados na Zona Franca de Manaus. Havia a impressão de que o país se tornara um Eldorado, embora os porões da ditadura cheirassem a humilhação, dor e morte. Ainda bem que conquistamos a Copa do Mundo de 1970 sob os auspícios do hino cretinóide “Pra Frente, Brasil”, cujas versificadas baboseiras mais e mais narcotizavam a consciência patrioteira de todos.   Mas Pedro vinha feliz, queria apenas chegar em casa (perdoem os gramáticos, a regência “chegar a” cheira a pedantismo que ofende o português brasileiro).  Pois bem, Pedro Ângelo ia estugar os passos alvissareiros, quando viu, estirado na calçada, o corpo franzino de Tio Estevim. Curtia mais uma homérica bebedeira. O sobrinho aproximou-se, sacudiu o corpo do velho, mas não lhe pediu a bênção. Saiu-se com uma de que se arrependeu para o resto da vida:

          - Tio Estevim, saí daqui faz quase quinze anos. O senhor estava bêbado e hoje, depois de tantos anos, reencontro o senhor na mesma situação, cheio da “água que passarim não bebe”.

          O velho revolveu-se, levantou a cabeça, encarou o sobrinho e sapecou-lhe filosófica estocada, sem “macaquear a sintaxe lusíada”:

          - Pra tu vê, neguim, como eu não bebo às tuas custas... Continuou dormindo a sono solto.

          Não tão bons aqueles tempos.

         

            

         

         

         

         

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