NAQUELE
TEMPO (12)
Hugo Martins
Pedro Ângelo, caboclo de truz e boa cepa, temendo os
horrores de nova seca, resolveu se botar para a Amazônia. Já vira muita areia
nos grandes formigueiros, o vôo prenunciador das aves de arribação e outros
sinais que o persuadiram a partir em busca de melhores dias. A família,
queira-Deus, é que não podia ficar ao deus-dará, padecendo os horrores da fome e
estirando o pires humilhante à caridade pública. Esperar pelas históricas
promessas de políticos pilantras era um desafio a que não mais se submeteria. O
negócio era mesmo arrumar as trouxas e arribar... A mãe e os irmãos
compreenderiam aquela dolorosa decisão. Depois de algum tempo, estaria de
volta. Partiria com a esperança e traria dinheiro no bolso. A providência
divina a todos daria o arrimo...
A cidadezinha ardia sob o nefando rigor dos raios solares.
Bois de espinhaço à mostra fuçavam o pasto estorricado em volta da igreja; cães
de extrema magreza reviravam os monturos à procura de restolhos de alguma coisa
para amainar a fome. Pedro Ângelo beijou a mãe, abraçou os irmãos e, a passo
tardo, arrastou-se pela cidadezinha pobre para esperar o caminhão misto, que já
buzinava freneticamente chamando os passageiros. Pedro aligeirou o passo e, de
súbito, estacou. Não podia partir sem levar a bênção de Tio Estevim, que,
esparramado na calçada, curtia a embriaguez diária de anos a fio. Estevim era
um tipo popular que, às vezes, surpreendia por tiradas espirituosas. Ante a
insistência do sobrinho - era tio de toda a cidade – abriu os olhos e atendeu àquele,
desejando-lhe todas as sortes do mundo. Pedro partiu, e Tio Estevim e
entregou-se a seu filosófico sono, indiferente à sorte e às dores do mundo.
A vida continuava, homens se sucediam no poder, a
civilização avançava, e a cidadezinha na mesma modorra dos dias vãos. Getúlio
Vargas fora apeado do poder provisório em que se instalou por curtos quinze
anos. Dutra assumiu a presidência,
redemocratizando o País. Quatro anos depois, Getúlio volta ao poder, amarra seu
cavalo no obelisco da Cinelândia e suicida-se. A terrinha tupiniquim passa a
viver os anos dourados de Juscelino. Começa o embate pela presidência entre o
Marechal Lott, Ademar de Barros e a sinistra figura de Jânio Quadros.
Instala-se a ditadura militar de 1964... Até que um dia, Pedro Ângelo, riscou
na ponta da rua, sorridente. Parecia alegre - seu semblante não mentia - trazia
na valise presentes para toda a família, comprados na Zona Franca de Manaus.
Havia a impressão de que o país se tornara um Eldorado, embora os porões da
ditadura cheirassem a humilhação, dor e morte. Ainda bem que conquistamos a
Copa do Mundo de 1970 sob os auspícios do hino cretinóide “Pra Frente, Brasil”,
cujas versificadas baboseiras mais e mais narcotizavam a consciência
patrioteira de todos. Mas Pedro vinha feliz, queria apenas chegar em
casa (perdoem os gramáticos, a regência “chegar a” cheira a pedantismo que
ofende o português brasileiro). Pois
bem, Pedro Ângelo ia estugar os passos alvissareiros, quando viu, estirado na
calçada, o corpo franzino de Tio Estevim. Curtia mais uma homérica bebedeira. O
sobrinho aproximou-se, sacudiu o corpo do velho, mas não lhe pediu a bênção.
Saiu-se com uma de que se arrependeu para o resto da vida:
- Tio Estevim, saí daqui faz quase quinze anos. O senhor
estava bêbado e hoje, depois de tantos anos, reencontro o senhor na mesma
situação, cheio da “água que passarim não bebe”.
O velho revolveu-se, levantou a cabeça, encarou o sobrinho e
sapecou-lhe filosófica estocada, sem “macaquear a sintaxe lusíada”:
- Pra tu vê, neguim, como eu não bebo às tuas custas...
Continuou dormindo a sono solto.
Não tão bons aqueles tempos.
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