terça-feira, 20 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (4)

                                                                               Hugo Martins

          Fazer a primeira comunhão era um suplício. À tardinha, sentava-se a meninada na calçada da igreja. De saia longa e blusa de mangas compridas, por sobre a qual se viam toda sorte de medalhas e um agnus Dei, a beata, de carantonha fechada, chegava sobraçando o missal. Ante o olhar medroso dos meninos, lembrava a importância da confissão e da comunhão, acentuando que os pecadores iriam pretinho (sic) para o inferno caso não contassem direitinho seus pecados ao padre. Todos os dias, àquela hora, a mesma cantilena: onde está Deus? Deus está no céu, na terra e em toda a parte. Quantas são as pessoas da Santíssima Trindade? Três. Quais são as pessoas da Santíssima Trindade? Pai, Filho e Espírito Santo. Tudo era respondido em uníssono embora ninguém soubesse o que respondia, por quê e para quê. Depois se rezava o Ato de Contrição. Somavam-se a este, para se tornar mais infenso às influências do capiroto, as orações “Chagas Abertas” e o “Meu Anjo da Guarda”. A primeira dizia: “Chagas abertas, coração ferido, sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo entre mim e o perigo”. A segunda era assim: “Meu anjo da guarda, meu fiel protetor, guardai minha alma para Nosso Senhor”.

          Hora do ocaso. Finda a tortura, todos voltavam para casa pensando não só nas orações aprendidas mas também no fogo ardente do inferno e no pontiagudo tridente do capeta. A melancolia da tarde, o silêncio reinante, cortado pelo aboio de vaqueiro e pelo bimbalhar de chocalhos, além dos sinos anunciando a hora do ângelus, era momento propício a que aquelas alminhas mergulhassem ainda mais num misto de medo e profunda contrição.

          Antes do dia da comunhão, todos atentos às admoestações da beata, cuidavam de, pelo menos até chegar aquele dia, não escorregar nas esparrelas de pecados e tentações. Proferir “nome feio”, brigar com os irmãos, desobedecer aos pais, alimentar pensamentos ruins e ceder aos apelos da concupiscência era cair duas vezes no pecado. Vigilância e oração, pois, constituíam santo remédio para manter a alma limpa e “ser digno das promessas do Cristo”.

          Chegava o grande dia. De roupa domingueira lá ia o pequeno e indefeso pecador, coração aos pulos, postar-se aos pés do padre a fim de contar-lhe os pecadilhos e faltas. A aplicação da penitência era proporcional à intensidade do conteúdo da confissão. Paga a dívida, restava esperar o dia da comunhão.

          Na manhã de domingo, os sinos repicavam, chamando os fiéis à missa. Calça curta de suspensórios e camisa enfiada no cós, lá ia o penitente, célere, ao som do clap, clap das alpargatas de couro, receber a hóstia consagrada. Havia a dúvida: mastigava a hóstia ou esperava-se sua diluição, grudando-a entre o céu da boca e a língua? Seria pecado optar pela primeira alternativa? Mais correto escolher a outra... Nada de ofender o Senhor com incômodas mordidas, Ele já sofrera muito nas mãos dos soldados romanos conforme os ensinamentos da beata.

          Finda a cerimônia, abraços, vivas, parabéns e retratos com a velinha na mão, olharzinho santificado e o estereotipado arzinho de santarrão.

          Naquele tempo, depois do teatro familiar, de sofrimentos e medos, de comunhões e confissões, o Senhor, lá de seus altiplanos, abria Seu largo e bondoso sorriso ao ver que aquelas alminhas ingênuas voltavam a ser crianças outra vez.

          Bons tempos aqueles...  

         

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