NAQUELE
TEMPO (4)
Hugo Martins
Fazer a primeira comunhão era um suplício. À tardinha,
sentava-se a meninada na calçada da igreja. De saia longa e blusa de mangas compridas,
por sobre a qual se viam toda sorte de medalhas e um agnus Dei, a beata, de carantonha fechada, chegava sobraçando o
missal. Ante o olhar medroso dos meninos, lembrava a importância da confissão e
da comunhão, acentuando que os pecadores iriam pretinho (sic) para o inferno
caso não contassem direitinho seus pecados ao padre. Todos os dias, àquela
hora, a mesma cantilena: onde está Deus? Deus está no céu, na terra e em toda a
parte. Quantas são as pessoas da Santíssima Trindade? Três. Quais são as
pessoas da Santíssima Trindade? Pai, Filho e Espírito Santo. Tudo era
respondido em uníssono embora ninguém soubesse o que respondia, por quê e para
quê. Depois se rezava o Ato de Contrição. Somavam-se a este, para se tornar
mais infenso às influências do capiroto, as orações “Chagas Abertas” e o “Meu
Anjo da Guarda”. A primeira dizia: “Chagas abertas, coração ferido, sangue de
Nosso Senhor Jesus Cristo entre mim e o perigo”. A segunda era assim: “Meu anjo
da guarda, meu fiel protetor, guardai minha alma para Nosso Senhor”.
Hora
do ocaso. Finda a tortura, todos voltavam para casa pensando não só nas orações
aprendidas mas também no fogo ardente do inferno e no pontiagudo tridente do capeta.
A melancolia da tarde, o silêncio reinante, cortado pelo aboio de vaqueiro e pelo
bimbalhar de chocalhos, além dos sinos anunciando a hora do ângelus, era
momento propício a que aquelas alminhas mergulhassem ainda mais num misto de
medo e profunda contrição.
Antes do dia da comunhão, todos atentos às admoestações da
beata, cuidavam de, pelo menos até chegar aquele dia, não escorregar nas esparrelas
de pecados e tentações. Proferir “nome feio”, brigar com os irmãos, desobedecer
aos pais, alimentar pensamentos ruins e ceder aos apelos da concupiscência era
cair duas vezes no pecado. Vigilância e oração, pois, constituíam santo remédio
para manter a alma limpa e “ser digno das promessas do Cristo”.
Chegava o grande dia. De roupa domingueira lá ia o pequeno
e indefeso pecador, coração aos pulos, postar-se aos pés do padre a fim de
contar-lhe os pecadilhos e faltas. A aplicação da penitência era proporcional à
intensidade do conteúdo da confissão. Paga a dívida, restava esperar o dia da
comunhão.
Na manhã de domingo, os sinos repicavam, chamando os fiéis
à missa. Calça curta de suspensórios e camisa enfiada no cós, lá ia o
penitente, célere, ao som do clap, clap das alpargatas de couro, receber a
hóstia consagrada. Havia a dúvida: mastigava a hóstia ou esperava-se sua
diluição, grudando-a entre o céu da boca e a língua? Seria pecado optar pela
primeira alternativa? Mais correto escolher a outra... Nada de ofender o Senhor
com incômodas mordidas, Ele já sofrera muito nas mãos dos soldados romanos
conforme os ensinamentos da beata.
Finda a cerimônia, abraços, vivas, parabéns e retratos com a
velinha na mão, olharzinho santificado e o estereotipado arzinho de santarrão.
Naquele tempo, depois do teatro familiar, de sofrimentos e
medos, de comunhões e confissões, o Senhor, lá de seus altiplanos, abria Seu largo
e bondoso sorriso ao ver que aquelas alminhas ingênuas voltavam a ser crianças
outra vez.
Bons tempos aqueles...
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