16ª
CARTAS
À MINHA FILHA
Maria
Helena,
falar
em progresso e desenvolvimento tornou-se lugar-comum na boca de político patife
e de leitor empedernido de jornais, que, tal um robô bem treinado, sai
papagaiando essa inominável verdade.
Ora,
neste País perdido, cuja história se inicia com a mentira deslavada de que o
tal Cabral descobriu o Brasil, tudo é potoca. Ora, se Colombo encontrou o
Continente Americano, e o Brasil se encontra neste... Nada a declarar. Além
disso, Capistrano de Abreu sempre defendeu a idéia de que o navegador espanhol
Vicente Pinzon, em 1492, já dera com os cascos na cidade de Aracati.
Tudo
aqui é mentira... Há uma mentira religiosa, de onde emanam todas as hipocrisias
e cinismos deslavados, traduzidos em comportamentos farisaicos em que o menos
importante é o próximo; há uma mentira tributária, manifestada no assalto legal
que o poder público faz ao bolso do cidadão, sob o pretexto nefando de que,
pela mágica da lei, tudo o que for tirado da bolsa do contribuinte voltará a
este em forma de serviço. Educação? Necas. Saúde? Necas. Políticas Sociais?
Necas de pitibiriba! Há uma mentira pedagógica. Há pessoas que adoram o
magistério, mas fogem da sala de aula como o tinhoso foge da cruz. Em
determinados estabelecimentos da rede pública de ensino temos visto muito
professor deslocado. Intelectuais da mais fina flor, pelo menos eles assim se
vêem, no entanto, se lhes for pedido escrever um “O” com uma quenga, terminam por desenhar um
quadrilátero, pois nada lêem a não ser as noticiazinhas sobre futebol,
politicalha e outros assuntos do mesmo jaez. Seriam mais honestos se fossem vender
banana na feira, atividade mais lucrativa e mais verdadeira que obter título
acadêmicos como se estes fossem bônus. Quer dizer, conhecimento de mundo não
importa. Ao títere vale o dar sua aulinha minguada sem nenhum mergulho mais
profundo no devir histórico. Há muitas outras mentirinhas. Deixo de
enfileirá-las não só porque já bem as conhece mas também porque estão visíveis
no cotidiano...Não devemos esquecer a mentirinha oficial do “salve-se quem
puder” no magistério: por exemplo: o sujeito tem formação acadêmica em
filosofia e vai cursar pós-graduação em Geografia... Durma-se com um barulho
desses. Não sei se estudar Geografia tem muito a ver com isso. Talvez seja eu
ignorante nessas coisas pedagógicas, mas que causa espanto, lá isso causa. Quer
dizer: não mais se exige competência, mas titulação oca, que nada diz respeito
à formação do mestrando ou doutorando. Interessa ao poder público seja o
professor portador de títulos. Não importa a natureza. Aliás, por esse prisma,
estou aguardando mestrado em corte e costura para, depois, perseguir o
doutoramento em arte culinária. Perguntar-me-ás o porquê disso, se tenho
formação em belas-letras e letras jurídicas. Ora, é o tal salve-se quem puder,
é a questão das essências e das aparências. Ou como diria um personagem de
Chico Anísio: “eu quero é me arrumar.”
Por
isso, progresso e desenvolvimento não passam de palavras proferidas ao vento,
com cheiro de agrado, mas longe do seu significado mais essencial. Pouco adianta
essa tal tecnologia, se não há progresso e desenvolvimento humano nas relações dos
homens entre si. Pouco adianta a presença dos doutos, que, sem consciência, não
fazem ciência. A propósito, quando o deus Apolo disse ser Sócrates o mais sábio
dos homens, referia-se à humildade do pensador que dizia ser o conhecimento a
maior virtude do homem, mas, (que divino paradoxo!!), o homem não pode
alcançá-lo. Em face disso, o filósofo, mestre de Platão, não aceitava que
alguém o chamasse sófos
(sábio), preferia ser conhecido como filósofos
(aquele que ama, convive com e tem profunda amizade pela sabedoria). Em outras
palavras, não bastam mestres e doutores, mas, sobretudo, honestidade e estudo,
muito estudo, diuturnamente. Desse modo, cada qual no seu mister, instilará no outro alguma dosagem de humanismo
para que o mundo se torne lugar mais suportável. Estamos precisando de homens e
não de robôs; estamos precisando de almas, não de engrenagens de fábricas e
indústrias. Não há progresso, não há falar em desenvolvimento se não se investe
na alma humana.
Teu
pai
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