NAQUELE
TEMPO (3)
Hugo
Martins
Ir ao “cinema ainda era”, nas palavras de Severiano
Ribeiro, “a melhor diversão”. Havia na cidade os cines do centro: São Luiz,
Diogo, Samburá, Jangada, Toaçu, Majestic, Moderno, Rex e Art Palácio. No Otávio
Bonfim, existia o Cine Familiar; na esquina da Av. Pontes Vieira com Visconde
do Rio Branco, o cine Atapu.
Aos domingos, as sessões do cine São Luiz, de 08h30min e
10h30min, enchiam a sala, onde só era permitido o ingresso vestindo paletó.
Inaugurado em 1958, desde então, o São Luiz deixou sua marca na população com a
projeção de filmes como Marcelino, Pão e Vinho, O Manto Sagrado, Demetrius e os
Gladiadores, Anastácia, Sayonara, Suplício de uma Saudade, afora os filmes em
que figurava como ídolo o menino cantor-ator espanhol de nome Joselito. Havia
choro incontido, explosão de paixões represadas nas almas sonhadoras, e muitas
canções líricas deixavam indeléveis tatuagens no espírito das moçoilas de então.
Mal se sabia que, por trás daquelas letras, havia a sublimidade das músicas de
Thaykovsky, Chopin e Franz Schubert.
Nos cinemas mais populares, as tiradas picantes do ator
Zé Trindade faziam escola e eram repetidas em bares, esquinas e reuniões familiares.
Enquanto Oscarito e Grande Otelo divertiam a platéia com seus pastichos e
plágios, Mazaropi se travestia de caipira paulista, encarnando um tipo de ar
ingênuo, por trás de quem se vislumbrava, no decorrer da projeção, um matuto
que nada tinha de bobo, pois se safava de toda e qualquer enrascada. Eram as
chanchadas da Atlântida, cujo objetivo maior visava a lançar as músicas do
Carnaval na voz de cantores célebres do porte de Caubi Peixoto, Ângela Maria,
Jorge Goulart, Nélson Gonçalves, Marlene e Emilinha Borba. Não podia faltar uma
pitada de romantismo nas cenas mais líricas em que se sobressaía o par amoroso,
sempre representado pelos atores Cil Farney e Eliana. Outras vezes, a diversão
ficava por conta de Cantinflas, o ator mexicano Mário Moreno, espécie de pícaro
de fino bigodinho, emoldurando lábios finos e sorriso mordaz, que arrancava
boas gargalhadas da platéia pela retórica de sua gestualidade chapliniana.
As sessões matinais, aos domingos, no cine Majestic e no
cine Moderno, além de um seriado, que obrigava o espectador a voltar a cada
domingo, projetavam-se dois filmes: um por que não se interessava a meninada, normalmente
historietas de amor; e, outro, dito de Cowboy, em que vaqueiros varavam as
planícies enfrentando índios; ou heróis como Rocky Lane, Roy Rogers, Tom Mix,
Kit Carson, Búfalo Bill e outros do mesmo feitio perseguiam bandoleiros e quem
quer que estivesse agindo contra a lei. Eram os heróis do Far-West, mantendo a
ordem do mundo. A meninada gritava e se esgoelava, torcendo para que o mocinho,
em seu fogoso corcel, dele saltasse sobre o vilão em fuga e o capturasse a fim
de que a lei e a ordem fossem mantidas. Naquele tempo não se entreviam
ideologias em tais narrativas fílmicas.
Viviam-se
os anos dourados de Juscelino; o selecionado brasileiro de futebol fora
bicampeão, em 1962, no Chile; e os russos haviam lançado o Sputnik, o primeiro
satélite artificial da terra. Tudo era noticiado no Jornal da Atlântida...
Naquele tempo, depois do cinema, tomava-se o pega-pinto do Mundico, à época,
encostado na Farmácia Pasteur, ou comia-se pastel acompanhado de caldo-de-cana no
Leão do Sul ou ia-se saborear o sorvete do Top´s. Naquele tempo, a violência
urbana ainda não dera sua cara. Podia-se voltar para casa depois da soirée (sessão de 9 às 11h) no cine São
Luiz, cantando Menino de Braçanã, de Luiz Vieira... Não se tinha medo de
assombração...
Bons
tempos aqueles!!!
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