segunda-feira, 19 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (3)

                                                                        Hugo Martins

            Ir ao “cinema ainda era”, nas palavras de Severiano Ribeiro, “a melhor diversão”. Havia na cidade os cines do centro: São Luiz, Diogo, Samburá, Jangada, Toaçu, Majestic, Moderno, Rex e Art Palácio. No Otávio Bonfim, existia o Cine Familiar; na esquina da Av. Pontes Vieira com Visconde do Rio Branco, o cine Atapu.

            Aos domingos, as sessões do cine São Luiz, de 08h30min e 10h30min, enchiam a sala, onde só era permitido o ingresso vestindo paletó. Inaugurado em 1958, desde então, o São Luiz deixou sua marca na população com a projeção de filmes como Marcelino, Pão e Vinho, O Manto Sagrado, Demetrius e os Gladiadores, Anastácia, Sayonara, Suplício de uma Saudade, afora os filmes em que figurava como ídolo o menino cantor-ator espanhol de nome Joselito. Havia choro incontido, explosão de paixões represadas nas almas sonhadoras, e muitas canções líricas deixavam indeléveis tatuagens no espírito das moçoilas de então. Mal se sabia que, por trás daquelas letras, havia a sublimidade das músicas de Thaykovsky, Chopin e Franz Schubert.

            Nos cinemas mais populares, as tiradas picantes do ator Zé Trindade faziam escola e eram repetidas em bares, esquinas e reuniões familiares. Enquanto Oscarito e Grande Otelo divertiam a platéia com seus pastichos e plágios, Mazaropi se travestia de caipira paulista, encarnando um tipo de ar ingênuo, por trás de quem se vislumbrava, no decorrer da projeção, um matuto que nada tinha de bobo, pois se safava de toda e qualquer enrascada. Eram as chanchadas da Atlântida, cujo objetivo maior visava a lançar as músicas do Carnaval na voz de cantores célebres do porte de Caubi Peixoto, Ângela Maria, Jorge Goulart, Nélson Gonçalves, Marlene e Emilinha Borba. Não podia faltar uma pitada de romantismo nas cenas mais líricas em que se sobressaía o par amoroso, sempre representado pelos atores Cil Farney e Eliana. Outras vezes, a diversão ficava por conta de Cantinflas, o ator mexicano Mário Moreno, espécie de pícaro de fino bigodinho, emoldurando lábios finos e sorriso mordaz, que arrancava boas gargalhadas da platéia pela retórica de sua gestualidade chapliniana.

            As sessões matinais, aos domingos, no cine Majestic e no cine Moderno, além de um seriado, que obrigava o espectador a voltar a cada domingo, projetavam-se dois filmes: um por que não se interessava a meninada, normalmente historietas de amor; e, outro, dito de Cowboy, em que vaqueiros varavam as planícies enfrentando índios; ou heróis como Rocky Lane, Roy Rogers, Tom Mix, Kit Carson, Búfalo Bill e outros do mesmo feitio perseguiam bandoleiros e quem quer que estivesse agindo contra a lei. Eram os heróis do Far-West, mantendo a ordem do mundo. A meninada gritava e se esgoelava, torcendo para que o mocinho, em seu fogoso corcel, dele saltasse sobre o vilão em fuga e o capturasse a fim de que a lei e a ordem fossem mantidas. Naquele tempo não se entreviam ideologias em tais narrativas fílmicas.

Viviam-se os anos dourados de Juscelino; o selecionado brasileiro de futebol fora bicampeão, em 1962, no Chile; e os russos haviam lançado o Sputnik, o primeiro satélite artificial da terra. Tudo era noticiado no Jornal da Atlântida... Naquele tempo, depois do cinema, tomava-se o pega-pinto do Mundico, à época, encostado na Farmácia Pasteur, ou comia-se pastel acompanhado de caldo-de-cana no Leão do Sul ou ia-se saborear o sorvete do Top´s. Naquele tempo, a violência urbana ainda não dera sua cara. Podia-se voltar para casa depois da soirée (sessão de 9 às 11h) no cine São Luiz, cantando Menino de Braçanã, de Luiz Vieira... Não se tinha medo de assombração...  

Bons tempos aqueles!!!



           

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