domingo, 11 de março de 2012


O MENINO NÃO MORRE



                                                                                      Hugo Martins



          Sol a pino. Nem um pé de vento. Folhas paradas. Modorra em tudo e em torno. O portãozinho de madeira range. Na calçada quente, o matraquear de tamancos. Lá ia ele. Calças curtas de suspensório, camisinha de riscado enfiada no cós frouxo. Cabelo cortado a príncipe de Gales: cabeça raspada nos lados e sobre a parte superior do crânio a gaforina entrunfada tal uma mancha informe. Um dos braços balançava ao ritmo das passadas curtas e lentas. Na mão, um caderninho Bandeirantes, a Carta do ABC ou a Cartilha do Povo, uma tabuada e um lápis, em cuja ponta escanchava-se uma borracha à moda capacete. Encartada na tabuada, a indefectível banda de gilete para apontar o lápis.

            Caminhava sem pressa. Ainda tinha tempo para rememorar o dever de casa. Dobrou a esquina de onde se avistava a casa de Dona Ângela, uma senhora simpática, mas muito severa com os alunos. Virtudes pedagógicas de então. Quanto mais exigente fosse a mestra, mais era de agrado dos pais. A boa senhora, apesar da austeridade, nunca usava a palmatória, instrumento que aterrorizava alunos relapsos. Era naquela casa simples, sempre cheirando a flor, que funcionava a escolinha.

            Sentou-se. A professora, óculos a cavaleiro na metade do nariz, tricotava na mesa em que repousavam livros e férula. Uma dúzia de meninos procurava se acomodar em seus cantos. As carteiras, de tampos desgastados, exibiam na pátina deixada pelo tempo, arabescos e garatujas sem nexo algum. Os alunos se sentavam dois a dois. Súbito, a exortação a que se mantivessem em pé. Sob a batuta de Dona Ângela, entoavam o Hino Nacional. Havia datas em que, também cantando, saudavam a Bandeira, lembravam o dia da Independência ou recordavam o descobrimento do Brasil. Depois, vinham os argumentos, argüições e leituras. Vez por outra, cicios de conversas entrecortadas, silenciados pelo olhar admoestador e os “psius”  sibilantes da professora.

            Se a terna bonomia de Dona Ângela impedia a velha mestra do extremo recurso à palmatória, chamava dois alunos e fazia perguntas a uma deles. Se este errasse e o outro acertasse, a este se abria o ensejo de bater com a palmatória na palma da mão aberta do colega descuidoso com os estudos. Sentimentos de amizade ou rancor vinham à tona. Olhares cúmplices ou promessas de “te pego lá fora” se repetiam de conformidade com a intensidade do “bolo.” Terminadas as tarefas, ditas as lições, saía a meninada rumo à casa. No caminho de volta, encontravam pessoas que iam à igreja, homens conversando na ponta de calçadas, bois que mugiam numa tristeza imensa e o pipilar estridente do passaredo. E a tarde morria lenta e melancólica sobre a cidade.

            Antes do jantar, rezava-se o terço. O menino sabia de antemão que, aberto com o Credo o momento da oração, iniciava-se um desfilar monocórdio de Pais Nossos, entremeados com ave-marias. Era um suplício que só findava quando a voz materna saudava a mãe de Deus com a salve-rainha. Depois das brincadeiras na calçada, era dormir, dormir e sonhar ao embalo de passadas ave-marias, com um mundo cheio de mães amorosas e de Donas Ângelas generosas.

            O menino hoje é homem feito. A mãe e Dona Ângela não morreram. Vivem ainda nos escaninhos esconsos das recordações do menino, que ainda teima em não morrer.



                             

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