O MENINO NÃO MORRE
Hugo
Martins
Sol a pino. Nem um pé de
vento. Folhas paradas. Modorra em tudo e em torno. O portãozinho de madeira
range. Na calçada quente, o matraquear de tamancos. Lá ia ele. Calças curtas de
suspensório, camisinha de riscado enfiada no cós frouxo. Cabelo cortado a
príncipe de Gales: cabeça raspada nos lados e sobre a parte superior do crânio
a gaforina entrunfada tal uma mancha informe. Um dos braços balançava ao ritmo
das passadas curtas e lentas. Na mão, um caderninho Bandeirantes, a Carta do
ABC ou a Cartilha do Povo, uma tabuada e um lápis, em cuja ponta escanchava-se
uma borracha à moda capacete. Encartada na tabuada, a indefectível banda de gilete
para apontar o lápis.
Caminhava
sem pressa. Ainda tinha tempo para rememorar o dever de casa. Dobrou a esquina
de onde se avistava a casa de Dona Ângela, uma senhora simpática, mas muito
severa com os alunos. Virtudes pedagógicas de então. Quanto mais exigente fosse
a mestra, mais era de agrado dos pais. A boa senhora, apesar da austeridade,
nunca usava a palmatória, instrumento que aterrorizava alunos relapsos. Era
naquela casa simples, sempre cheirando a flor, que funcionava a escolinha.
Sentou-se.
A professora, óculos a cavaleiro na metade do nariz, tricotava na mesa em que
repousavam livros e férula. Uma dúzia de meninos procurava se acomodar em seus
cantos. As carteiras, de tampos desgastados, exibiam na pátina deixada pelo
tempo, arabescos e garatujas sem nexo algum. Os alunos se sentavam dois a dois.
Súbito, a exortação a que se mantivessem em pé. Sob a batuta de Dona Ângela,
entoavam o Hino Nacional. Havia datas em que, também cantando, saudavam a
Bandeira, lembravam o dia da Independência ou recordavam o descobrimento do
Brasil. Depois, vinham os argumentos, argüições e leituras. Vez por outra,
cicios de conversas entrecortadas, silenciados pelo olhar admoestador e os
“psius” sibilantes da professora.
Se
a terna bonomia de Dona Ângela impedia a velha mestra do extremo recurso à
palmatória, chamava dois alunos e fazia perguntas a uma deles. Se este errasse
e o outro acertasse, a este se abria o ensejo de bater com a palmatória na
palma da mão aberta do colega descuidoso com os estudos. Sentimentos de amizade
ou rancor vinham à tona. Olhares cúmplices ou promessas de “te pego lá fora” se
repetiam de conformidade com a intensidade do “bolo.” Terminadas as tarefas,
ditas as lições, saía a meninada rumo à casa. No caminho de volta, encontravam
pessoas que iam à igreja, homens conversando na ponta de calçadas, bois que
mugiam numa tristeza imensa e o pipilar estridente do passaredo. E a tarde
morria lenta e melancólica sobre a cidade.
Antes
do jantar, rezava-se o terço. O menino sabia de antemão que, aberto com o Credo
o momento da oração, iniciava-se um desfilar monocórdio de Pais Nossos,
entremeados com ave-marias. Era um suplício que só findava quando a voz materna
saudava a mãe de Deus com a salve-rainha. Depois das brincadeiras na calçada,
era dormir, dormir e sonhar ao embalo de passadas ave-marias, com um mundo
cheio de mães amorosas e de Donas Ângelas generosas.
O
menino hoje é homem feito. A mãe e Dona Ângela não morreram. Vivem ainda nos
escaninhos esconsos das recordações do menino, que ainda teima em não morrer.
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