NAQUELE
TEMPO (10)
Hugo
Martins
Havia dois jornais de grande circulação na cidade: o Povo e
o Unitário. As revistas de publicação semanal se reduziam a três: Cruzeiro,
Manchete e Fatos&Fotos. Na primeira, liam-se os textos polêmicos do
jornalista David Násser, ria-se muito com as páginas do Amigo da onça, de Péricles e com os desenhos Dr. Macarra, de Carlos Estêvão. Na última página, saía uma crônica
de Rachel de Queiroz, mais tarde enfeixadas no volume O Brasileiro perplexo. Além disso, a cada ano, a revista trazia AS DEZ MAIS CERTINHAS, de Stanislaw
Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto. As outras valorizavam
excessivamente a fotografia em detrimento do texto escrito, salvante os artigos
do dramaturgo e jornalista Henrique Pongetti, que também escrevia na revista
Manchete.
Naquele tempo, mulher não vestia calças compridas, a não
ser quando montava, de lado, a garupa de um cavalo. Para isso, vestia a calça
do marido sob a longa saia. Não ficava bem a uma mulher andar escanchada no
lombo de um animal, mesmo numa sela. Ser uma das certinhas do Lalau, posar em trajes menores (maiô), era coisa de
gente sem-vergonha. Também não lia outros livros senão os da Biblioteca das moças, em que estas se
abeberavam para aprender a cuidar do marido, dos filhos e cuidar da casa. Ler A carne, de Júlio Ribeiro, O primo Basílio, de Eça de Queirós ou Madame Bovary, de Gustave Flaubert era
demonstrar inclinação para a luxúria. Por isso, além daqueles, cujo teor as
anulava, arriscavam-se a compulsar as páginas de Victor Hugo, Dumas, pai e
filho, e as irmãs Charlote e Emile Brontê. A temática tinha de ser romântica:
atos heróicos, amores impossíveis, superação de obstáculos, casamento e final
feliz. Naquele tempo, Jorge Amado seria um pervertido influenciado pelo
demônio. Vade retro, Satanás.
Naquele tempo, mulher era mulher, menina era menina e
Gerardo Bastos já descobrira que um pneu era um pneu. As meninas-moças não
conheciam a indústria de cosméticos, vestiam vestidos que iam até meio da perna
e brincavam de boneca. Se experimentavam alguma paixonite aguda, refreavam os
impulsos, esparramando-os em diários, trancados a quatro chaves, ou no jogo do
disparate, brincadeira dialógica de perguntas indiscretas, registrada num
caderno em que apunham seus desideratos afetivos mais recônditos. Quando não,
desenhavam corações trespassados por uma flecha. De um lado e de outro desta, punham
seu nome e o nome do amado, ou escreviam versos como: “O amor é como um pirulito, começa doce e termina num palito”.
Outras vezes, inspiradas em fotonovelas, lidas às escondidas, escreviam
pequenos textos, polvilhados de um lirismo explicavelmente ingênuo. Neles,
drenavam seus anseios, dores e apreensões e deixavam à vista seu coração
sofredor.
Naquele tempo, menino pedia a bênção aos pais, dormia cedo
e tinha medo de almas do outro mundo. Caçava passarinhos usando como arma a
baladeira, preparava arapucas para aqueles e lia revistas, cujos protagonistas
eram valorosos, leais e francos. Não chegara ainda a vez do cafajestismo
veiculado em desenhos animados, em cujos episódios campeiam a matrerice, a
desfaçatez, a deslealdade e a falta de respeito ao outro.
Bons tempos aqueles.
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