NAQUELE
TEMPO (8)
Hugo Martins
Boquinha da noite... Os últimos raios do sol salpicavam de
tons fulvos a vegetação estorricada, estertorando por trás dos serrotes que
circundavam a cidade. Os sinos bimbalhavam, bois mugiam, pessoas caminhavam
cabisbaixas e sem pressa em consonância com o final da tarde pachorrenta e
melancólica. Nas calçadas, apareciam as primeiras cadeiras, prenunciando
conversas, entrecortadas, vez ou outra, por uma rodada de fumegante café, cujo
olor anunciava ter sido torrado e pilado em casa.
Logo, o ritmo das cadeiras de balanço animava a roda,
espécie de parlamento interiorano, cujos membros eram sobejamente versados na
arte de falar da vida alheia. Naquele tempo, não havia televisão, apenas um
rádio, coisa rara e privilégio de alguns, levava às gentes o que ia pelo mundo.
O bom mesmo, depois da novela, era conversar na calçada sob a frescura do vento
frio que soprava da serra e o entrecortar das badaladas do sino da igreja
matriz, anunciando as horas.
Naquele tempo, Dona Amélia, senhora apreciadora de
conversas, costumava receber os amigos para a prosa, cujo teor ia do suicídio
de Vargas aos mais comezinhos episódios do cotidiano.
Certa feita, em meio à algaravia, Seu Urbano, que se pronunciava
Urubano, no evolver da conversa, pôs as mãos em concha, soltou um largo bocejo,
deu boa-noite e, quando se levantava para ir embora, ouviu da dona da casa: “tá
cedo, seu Urbano”. O velho sentou-se. Eram vinte horas. O sino badalou
anunciando a hora seguinte. Seu Urbano, agora decidido, soergueu-se e, quando
ensaiava mais um boa-noite, ouviu novamente um “tá cedo, Seu Urbano!” O velho
sentou-se, recebeu a xícara de café, sorveu-o vagarosamente e, pegando o fio do
assunto, animou-se e não mais deu bolas aos sucessivos e compassados toques do
sino. Algumas pessoas começaram a se retirar, davam seu boa-noite e se
embrenhavam na escuridão. Naquele tempo, as lâmpadas da cidade se apagavam às
vinte e duas horas. Eram alimentadas pelo motor da prefeitura, pois a energia
de Paulo Afonso ainda não existia para aquela gente. Uma a uma as pessoas se
iam retirando. Dona Amélia já olhava, desconfiada, de um lado para o outro. Seu
Urbano continuou puxando assunto e já não mais esperava, pedia, vez e outra,
mais uma xicarazinha do bom moca, agora já morno, enquanto se embrenhava numa
fieira de assuntos para espanto de Dona Amélia. Esta conhecia de cátedra a
impertinência daquele senhor sisudo e encanecido, cujos atos insólitos faziam
rir a todos. A boa senhora recorreu ao último apelo: abriu largamente a boca,
enfileirou três longos bocejos. O relógio anunciou a primeira hora da
madrugada. Seu Urbano, estoicamente, acomodado na cadeira, balançava-se pra lá
e pra cá sob o olhar incrédulo daquela senhora. Esta, não mais suportando,
criou coragem e, recorrendo ao último argumento, disse: “Seu Urbano, vá
“s´imbora!!” Boca, para que falaste? Seu Urbano, ainda sentado, disse
sonoramente:
_ “TÁ CEDO, MÉLIA” – e por lá ficou...
Bons tempos aqueles.
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