NAQUELE
TEMPO (11)
Hugo Martins
Era possível enxergar o céu recamado de
estrelas. A lua ainda não fora desmitificada, continuava sendo dos namorados.
Nada se sabia de poluição atmosférica, e o vento frio e sibilante corria livre,
vindo da serra. À boca da noite, a meninada sentava-se na calçada, apreensiva,
esperando Maria Luísa, espécie de mucama, que, terminada a faina de lavar os
pratos e arrumar a cozinha, vinha contar histórias de Trancoso, de almas do outro
mundo ou os contos de fadas de Charles Perrault, dos irmãos Grimm e de Hans
Christian Andersen. Naquele tempo, essas coisas vinham da boca do povo, pouco
importava se as historietas tinham ou não autor definido. Interessavam os
encantos de que delas emanavam, instigando a imaginação da criançada.
O momento e o ambiente eram propícios. Ausência de luz
elétrica, o coaxar de sapos, as rasga-mortalhas cortando os ares com seu
grasnar lúgubre e soturno. Toda essa atmosfera espicaçava o silêncio dos meninos,
que não desgrudavam os olhos da negra. Esta era uma autêntica contadora de
histórias: as modulações da voz assumiam tonalidades trágicas ou adocicadas em
consonância com a narração. As mãos desenhavam arabescos no ar, emprestando um
tom adequado à dramaticidade, que ia num crescendo até atingir o clímax, que
tirava o fôlego, e a conclusão, que fazia a todos respirar aliviados.
Naquele tempo, as crianças não sonhavam com o que há de
subliminar nos contos de fadas. Chapeuzinho Vermelho livrara-se realmente das
garras do lobo mau graças à intervenção de um caçador; o reino da Bela
Adormecida, de fato, dormira cem anos por haver a meninota ferido o dedo na
ponta de uma roca; João e Maria foram, deveras, abandonados na floresta pelo
pai e aprisionados por um velha dona de uma casa construída com toda espécie de
guloseimas.
Depois dos contos de fadas, vinham as
histórias de almas penadas, que deixavam a vida além-túmulo, onde cumpriam
duríssimas penas, e vinham meter medo aos mortais. Entre muitas, Maria Luísa
era sempre instada a contar a história de uma moça que, tarde da noite, pediu
carona na garupa de um vaqueiro, pedindo-lhe que a deixasse num determinado
rancho. Ao chegar, apeou-se e disse àquele que passasse no outro dia, e ela lhe
daria uma recompensa. No dia seguinte, batendo à porta do rancho, foi o rapaz recebido
pela mãe da moça e contou-lhe o ocorrido. A jovem senhora disse-lhe que a tal
moça descrita pelo vaqueiro não morava ali. Olhando em direção à porta, o
vaqueiro viu um retrato na parede de reboco da sala, para ele apontou e ajuntou
dizendo ser aquela a moça a que se referia. A senhora, assustada, disse-lhe
fazer mais de vinte anos que a jovem do retrato falecera. Um arrepio subia pelo
espinhaço da meninada, mas todos ali permaneciam esperando o relato de mais
casos assombrosos...
Maria Luísa sempre fechava a sessão com a expressão: “entrou no cu do pato, saiu no cu do pinto,
senhor rei mandou dizer que alguém contasse mais cinco.” O frio da noite
alta e de lua morta enxotava todos para casa. Não se sabe o que ia no espírito
da cada um... Agora, era enrolar-se até a cabeça nos lençóis cheirando a baú,
rezar uma oração a Nossa Senhora do Rosário para espantar o medo e entregar-se
ao sono, ao frufru musical da velha mangueira lá fora, açoitada, em cavo
silêncio, pelo vento cantante.
Naquele tempo, as crianças tinham com que excitar o
imaginário, não recebiam nada pronto pela indústria cultural e tinham tempo de
sonhar...
Bons tempos aqueles.
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