quinta-feira, 29 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (11)

                                                Hugo Martins



            Era possível enxergar o céu recamado de estrelas. A lua ainda não fora desmitificada, continuava sendo dos namorados. Nada se sabia de poluição atmosférica, e o vento frio e sibilante corria livre, vindo da serra. À boca da noite, a meninada sentava-se na calçada, apreensiva, esperando Maria Luísa, espécie de mucama, que, terminada a faina de lavar os pratos e arrumar a cozinha, vinha contar histórias de Trancoso, de almas do outro mundo ou os contos de fadas de Charles Perrault, dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen. Naquele tempo, essas coisas vinham da boca do povo, pouco importava se as historietas tinham ou não autor definido. Interessavam os encantos de que delas emanavam, instigando a imaginação da criançada.

          O momento e o ambiente eram propícios. Ausência de luz elétrica, o coaxar de sapos, as rasga-mortalhas cortando os ares com seu grasnar lúgubre e soturno. Toda essa atmosfera espicaçava o silêncio dos meninos, que não desgrudavam os olhos da negra. Esta era uma autêntica contadora de histórias: as modulações da voz assumiam tonalidades trágicas ou adocicadas em consonância com a narração. As mãos desenhavam arabescos no ar, emprestando um tom adequado à dramaticidade, que ia num crescendo até atingir o clímax, que tirava o fôlego, e a conclusão, que fazia a todos respirar aliviados.

          Naquele tempo, as crianças não sonhavam com o que há de subliminar nos contos de fadas. Chapeuzinho Vermelho livrara-se realmente das garras do lobo mau graças à intervenção de um caçador; o reino da Bela Adormecida, de fato, dormira cem anos por haver a meninota ferido o dedo na ponta de uma roca; João e Maria foram, deveras, abandonados na floresta pelo pai e aprisionados por um velha dona de uma casa construída com toda espécie de guloseimas.

 Depois dos contos de fadas, vinham as histórias de almas penadas, que deixavam a vida além-túmulo, onde cumpriam duríssimas penas, e vinham meter medo aos mortais. Entre muitas, Maria Luísa era sempre instada a contar a história de uma moça que, tarde da noite, pediu carona na garupa de um vaqueiro, pedindo-lhe que a deixasse num determinado rancho. Ao chegar, apeou-se e disse àquele que passasse no outro dia, e ela lhe daria uma recompensa. No dia seguinte, batendo à porta do rancho, foi o rapaz recebido pela mãe da moça e contou-lhe o ocorrido. A jovem senhora disse-lhe que a tal moça descrita pelo vaqueiro não morava ali. Olhando em direção à porta, o vaqueiro viu um retrato na parede de reboco da sala, para ele apontou e ajuntou dizendo ser aquela a moça a que se referia. A senhora, assustada, disse-lhe fazer mais de vinte anos que a jovem do retrato falecera. Um arrepio subia pelo espinhaço da meninada, mas todos ali permaneciam esperando o relato de mais casos assombrosos...

          Maria Luísa sempre fechava a sessão com a expressão: “entrou no cu do pato, saiu no cu do pinto, senhor rei mandou dizer que alguém contasse mais cinco.” O frio da noite alta e de lua morta enxotava todos para casa. Não se sabe o que ia no espírito da cada um... Agora, era enrolar-se até a cabeça nos lençóis cheirando a baú, rezar uma oração a Nossa Senhora do Rosário para espantar o medo e entregar-se ao sono, ao frufru musical da velha mangueira lá fora, açoitada, em cavo silêncio, pelo vento cantante.

          Naquele tempo, as crianças tinham com que excitar o imaginário, não recebiam nada pronto pela indústria cultural e tinham tempo de sonhar...

          Bons tempos aqueles.

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