NAQUELE
TEMPO (6)
Hugo Martins
Escreviam-se cartas de amor, que, envoltas por laços de
fitas, eram guardadas em pequenos baús de madeira como, fugindo ao fenecimento
irretorquível do efêmero, que tudo extingue. Algumas guardavam ainda o perfume,
de cujos eflúvios olorosos muito diziam do coração do apaixonado, de suas
saudades, dores e anseios.
Naquele tempo, ainda não se conjugava a aspereza trágica do
verbo “ficar”, tradução aproximada do verbo “eu te uso” tu me usas”, escandido
por almas imediatistas, solitárias e incapazes da entrega afetiva gratuita.
Flertava-se com o broto e, ocorrida a aproximação, iniciava-se a fase efetiva
da conquista. Muito tempo se gastava para chegar ao coração da pretendida. O
coração trotava em passo tardio, presa de um explicável temor reverencial. Ocorriam, em primeiro lugar, os
olhares de esguelha, depois, caso o brotinho desse sinal com um sorriso arredio
e maroto, acontecia a aproximação tímida e, por fim, dava-se o conúbio. O
imediatismo dos tempos hodiernos era moeda que ainda não se conhecia.
Concretizado o acordo de se iniciar o namoro, significava que o marmanjo
deveria freqüentar a casa da jovem e conhecer os pais desta. Pegar na mão era
uma tortura que se prolongava por alguns dias. O primeiro beijo nos lábios era
conquista que se dava depois de longas insistências, freadas por uma espécie de
um não-querer-querendo, afinal a libido não marca hora, mas é filha da
Psicologia e da História. Havia recomendações para que um dos garotos da casa
se postasse pelas proximidades a fim de que se evitassem maiores excessos. O
fechar os olhos para os furtivos impulsos dos pombinhos ficava na dependência da arte com que o namorado conquistava a confiança do cunhadinho.
Se, porventura, a menininha cedesse às investidas do
namorado e engravidasse, pecado
gravíssimo, vez que o tabu da virgindade ainda estava muito presente na cultura
de então, ou “fazia uma viagem” para outro Estado ou ia ser freira para “tirar
o diabo do corpo” e servir ao Senhor. Naquele tempo, embora existisse a camisa
de Vênus, o que se convencionou chamar hoje camisinha, os rapazes, quando
buscavam comprá-la numa farmácia, aproximavam-se, a medo, do balconista,
levavam-no para um canto e perguntavam, intimidados, se existia o produto. Em
seguida, saíam cabisbaixos do estabelecimento comercial como se houvessem
cometido um pecado mortal. A bendita moral judaico-cristã!!!!!
Naquele tempo, mulher desquitada (separada judicialmente)
era vista como mercadoria disponível à lascívia de outrem. Se namorasse,
estaria desafiando a moral vigente e, por sua frivolidade, consideravam-na
desfrutável.
Naquele tempo, o senador Nélson Carneiro
apresentou projeto de lei, visando a instituir, no Brasil, o divórcio. Era o
prenúncio da redenção da mulher brasileira. Promulgada, a Lei do Divórcio
(6.515) passou a viger a partir de 26 de dezembro de 1977. Nossas mulheres
libertaram-se do jugo do preconceito e passaram a vivenciar sua sexualidade sem
os fumos da insana hipocrisia pequeno-burguesa.
Naquele tempo, embora oprimida, a mulher brasileira
desejava apenas não ser a prometida e escolher o parceiro que bem quisesse para
desenvolver sua capacidade de amar livre, leve e solta, sem outras atribulações
e peias que não o desenvolver-se afetivamente.
Naquele tempo, apesar dos pesares, a História determinava o
que era ser mulher num mundo governado por machos.
Ainda assim, bons tempos aqueles!!
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