quinta-feira, 22 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (6)

                                                                                Hugo Martins



          Escreviam-se cartas de amor, que, envoltas por laços de fitas, eram guardadas em pequenos baús de madeira como, fugindo ao fenecimento irretorquível do efêmero, que tudo extingue. Algumas guardavam ainda o perfume, de cujos eflúvios olorosos muito diziam do coração do apaixonado, de suas saudades, dores e anseios.  

          Naquele tempo, ainda não se conjugava a aspereza trágica do verbo “ficar”, tradução aproximada do verbo “eu te uso” tu me usas”, escandido por almas imediatistas, solitárias e incapazes da entrega afetiva gratuita. Flertava-se com o broto e, ocorrida a aproximação, iniciava-se a fase efetiva da conquista. Muito tempo se gastava para chegar ao coração da pretendida. O coração trotava em passo tardio, presa de um explicável temor  reverencial. Ocorriam, em primeiro lugar, os olhares de esguelha, depois, caso o brotinho desse sinal com um sorriso arredio e maroto, acontecia a aproximação tímida e, por fim, dava-se o conúbio. O imediatismo dos tempos hodiernos era moeda que ainda não se conhecia. Concretizado o acordo de se iniciar o namoro, significava que o marmanjo deveria freqüentar a casa da jovem e conhecer os pais desta. Pegar na mão era uma tortura que se prolongava por alguns dias. O primeiro beijo nos lábios era conquista que se dava depois de longas insistências, freadas por uma espécie de um não-querer-querendo, afinal a libido não marca hora, mas é filha da Psicologia e da História. Havia recomendações para que um dos garotos da casa se postasse pelas proximidades a fim de que se evitassem maiores excessos. O fechar os olhos para os furtivos impulsos dos pombinhos ficava na  dependência da arte com que o namorado  conquistava a confiança do cunhadinho.

          Se, porventura, a menininha cedesse às investidas do namorado e engravidasse,  pecado gravíssimo, vez que o tabu da virgindade ainda estava muito presente na cultura de então, ou “fazia uma viagem” para outro Estado ou ia ser freira para “tirar o diabo do corpo” e servir ao Senhor. Naquele tempo, embora existisse a camisa de Vênus, o que se convencionou chamar hoje camisinha, os rapazes, quando buscavam comprá-la numa farmácia, aproximavam-se, a medo, do balconista, levavam-no para um canto e perguntavam, intimidados, se existia o produto. Em seguida, saíam cabisbaixos do estabelecimento comercial como se houvessem cometido um pecado mortal. A bendita moral judaico-cristã!!!!!

          Naquele tempo, mulher desquitada (separada judicialmente) era vista como mercadoria disponível à lascívia de outrem. Se namorasse, estaria desafiando a moral vigente e, por sua frivolidade, consideravam-na desfrutável.

 Naquele tempo, o senador Nélson Carneiro apresentou projeto de lei, visando a instituir, no Brasil, o divórcio. Era o prenúncio da redenção da mulher brasileira. Promulgada, a Lei do Divórcio (6.515) passou a viger a partir de 26 de dezembro de 1977. Nossas mulheres libertaram-se do jugo do preconceito e passaram a vivenciar sua sexualidade sem os fumos da insana hipocrisia pequeno-burguesa.

          Naquele tempo, embora oprimida, a mulher brasileira desejava apenas não ser a prometida e escolher o parceiro que bem quisesse para desenvolver sua capacidade de amar livre, leve e solta, sem outras atribulações e peias que não o desenvolver-se afetivamente.

          Naquele tempo, apesar dos pesares, a História determinava o que era ser mulher num mundo governado por machos.

          Ainda assim, bons tempos aqueles!!

         

         



         

         


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