NAQUELE
TEMPO (9)
Hugo Martins
Chegadas as férias, o
bairro era tomado de meninos. Não havia catedrais de consumo para se refugiar
da violência urbana, tampouco computadores para o solitário matraquear de
teclas no frio diálogo de interlocutores ausentes. Não se apoquentava o
espírito da moçada com miríades de atividades. Os pais viam os filhos, com quem
conversavam durante as refeições, momentos em que todos estavam reunidos. Ali
se resolviam os problemas comuns. Ninguém se isolava nos quartos para,
prestando vassalagem a imagens burrificantes, narcotizar-se com o supra-sumo de
programações idiotizantes, ou render-se ao canto de sereia de perversas
publicidades. Havia um quê de cândida despreocupação em que se exercitava a
política da boa vizinhança sem o temor da competição, que neurotiza e
desumaniza. Naquele tempo, parecia que a vida corria sem muita pressa.
Navegava-se em mar de almirante ou voava-se em céu de brigadeiro.
As ruas transformavam-se na casa dos meninos. Uns soltavam
arraias, que requebravam no ar em torneios homéricos, no afã de cortar a linha
umas das outras por meio do cerol (mistura de cola com vidro moído) previamente
preparado e cuidadosamente untado na linha. Enquanto o embate transcorria, a
emoção presa na garganta só explodia em gritos e apupos quando uma das arraias
competidoras “papocava com linha e tudo”. Outros jogavam bilas (bolas de gude),
que consistia em percorrer, sem errar, o caminho de três pequenos buracos para
onde as bolinhas de vidro eram jogadas até a “matança”, desfecho do jogo em que
o perdedor se obrigava a entregar ao outro certo número de bilas, à moda
pagamento de aposta. Havia também o jogo do triângulo. Cada jogador portava um
filete de ferro, cuja ponta aguda era cravada no chão por um forte impulso do
braço. A cada jogada, fazia-se uma linha, que partia do triângulo desenhado na
areia, de modo a dificultar a passagem da linha do oponente. Aquele que
conseguisse impedir a saída do adversário do emaranhado de linhas era o vencedor.
Sol a pino, acabava a brincadeira, e cada um ia para casa sem medo de ser
feliz.
À tarde, enquanto os meninos brincavam de gol-a-gol ou
“tiravam um racha”, as meninas pulavam corda, saltavam a amarelinha (macaca) ou
requebravam o corpinho ao ritmo do bambolê. As mais hábeis não giravam o arco
de plástico só na cintura. Conduziam-no, febricitantes, do calcanhar à cintura,
e desta ao pescoço, num frenético vaivém... Vez por outra, alguém sugeria a
brincadeira dos sete pecados. Uma bola era jogada para o alto, todos corriam e
aquele cujo nome fosse proferido, ao ter a bola nas mãos, gritava: “parem!”
Ficando todos estáticos, o que detinha a bola tentava acertar com esta um dos
participantes. Também se brincava de bandeira. Traçava-se uma linha e, de cada
lado, ficavam os competidores. No território de cada grupo (cinco ou seis),
fincava-se um pedaço de madeira que fazia as vezes de “bandeira”. A competição
consistia em conquistar aquele troféu, ingressando-se no campo do adversário
sem ser tocado por qualquer oponente. Valia a agilidade e a capacidade de
arrepiar carreira e voltar a salvo à sua grei.
Depois do jantar, a meninada saía para as ruas e brincava
de “passarinho no ninho, cobra no buraco”, brincadeira conhecida por “chicote
queimado”. Quando não, entregava-se ao esconde-esconde e outros folguedos.
Exaurida, voltava para casa... Banho?
Nem pensar! Bastava lavar os pés, ensaiar rápida oração e esparramar-se
na cama ou na rede, receber bênção e beijo da mãe e sonhar com o dia
seguinte...
Naquele tempo, as ruas eram lugar propício à criatividade e
à queima de calorias. Não se impunha às crianças o medo nosso de cada dia,
enclausurando-as. Deambulava-se sem
preocupação, não se afeava o corpo com a ingestão de alimentos industrializados
e propiciadores de mórbida obesidade... Vivia-se sem medo de ser feliz...
Bons tempos aqueles.
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