NAQUELE
TEMPO (5)
Hugo Martins
Reverenciavam-se as professoras pelo maior ou menor rigor
de seu trato com os alunos. Quanto mais severa fosse a mestra em seu mister,
mais cedo o educando desasnava. Um dos remédios pedagógicos mais eficazes era a
férula ou palmatória. De madeira, forma arredondada com um comprido cabo,
lembrando uma lupa, ficava pendurada na parede ou sobre a mesa da professora,
como eloqüente advertência aos relapsos. Não era instrumento de tortura, mas fazia
arder a palma da mão se a lição não era dita com presteza. Quando a professora,
que não era tia de ninguém a não ser dos filhos de seus irmãos, resolvia
tornar-se boazinha, deixava que dois alunos se digladiassem num jogo de perguntas
e respostas em que aquele que saísse vencedor no embate aplicava um bolo
(palmatoada) ao perdedor.
Naquele tempo, alfabetizar não exigia a entrega de material
escolar, bastava ao aluno uma carta de ABC, uma tabuada, um caderninho Avante,
um lápis com borracha nele escanchada à moda capacete e uma gilete. Não havia
necessidade de cartolinas, colas, massas e outros recursos pedagógicos impostos
pela indústria escolar. A professora e os alunos possuíam a intuição histórica
de que a aprendizagem dispensava aqueles penduricalhos metidos a modernizantes,
recorrendo à santa criatividade, ao borrão, e ao impulso do aprender.
Naquele tempo, findo o ano letivo, os livros eram passados
de irmão para irmão. As gerações construíam o alicerce de sua formação lingüístico-
intelectual primeiro no exemplar do Curso de Admissão ao Ginásio, depois na
Seleta, no A Flor do Lácio ou na Crestomatia. Para estudar Geografia, História
ou Ciências Físicas e Biológicas uns poucos nomes eram o suficiente. Antônio
José Borges Hermida, Victor Mussumeci, Carlos Galante, Jairo Bezerra e José
Cretella Júnior serviram de esteio para o crescimento de várias gerações. Quer
dizer: aos pais não se impunha, torpemente, a aquisição de toneladas de livros,
obrigação criada pelo jogo comercial, perverso e cretino de bodegas pedagógicas
e editoras. Naquele tempo, os livros não traziam gravuras inúteis, fomentadoras
da antológica e corrente preguiça mental. Também não havia, em suas páginas,
espaço para resolução de exercícios e tarefas, cujo fim maior parece ser
inutilizar o livro.
Naquele
tempo, estudar era obrigação que todos cumpriam sem a intervenção de promessas
de prêmios ou recompensas vindas de pais e avós, cujos efeitos imperceptíveis,
mas deletérios, corrompem, mancham o caráter e inscrevem o indivíduo no rol dos
que vão optar pelo cafajestismo nacional ou dos que vão alimentar a falsa idéia
de que “ganhar” a vida é sinônimo de passar a perna no próximo ou enganar-se a
si mesmo com a fugidia ilusão de exercer seu ofício ao sabor de improvisações
malsãs.
Naquele
tempo, antes da entrada na sala de aula, entoava-se o Hino Nacional ou qualquer
outro alusivo a essa ou àquela data histórica. Ministrava-se a disciplina Canto
Orfeônico. Durante as aulas, cantavam-se hinos e canções do folclore nacional
ou mesmo cantigas de roda. Sob a batuta do professor, cantava-se em coro e
desenvolvia-se o gosto musical...
Bons
tempos aqueles...
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