quarta-feira, 21 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (5)

                                                          Hugo Martins



          Reverenciavam-se as professoras pelo maior ou menor rigor de seu trato com os alunos. Quanto mais severa fosse a mestra em seu mister, mais cedo o educando desasnava. Um dos remédios pedagógicos mais eficazes era a férula ou palmatória. De madeira, forma arredondada com um comprido cabo, lembrando uma lupa, ficava pendurada na parede ou sobre a mesa da professora, como eloqüente advertência aos relapsos. Não era instrumento de tortura, mas fazia arder a palma da mão se a lição não era dita com presteza. Quando a professora, que não era tia de ninguém a não ser dos filhos de seus irmãos, resolvia tornar-se boazinha, deixava que dois alunos se digladiassem num jogo de perguntas e respostas em que aquele que saísse vencedor no embate aplicava um bolo (palmatoada) ao perdedor.

          Naquele tempo, alfabetizar não exigia a entrega de material escolar, bastava ao aluno uma carta de ABC, uma tabuada, um caderninho Avante, um lápis com borracha nele escanchada à moda capacete e uma gilete. Não havia necessidade de cartolinas, colas, massas e outros recursos pedagógicos impostos pela indústria escolar. A professora e os alunos possuíam a intuição histórica de que a aprendizagem dispensava aqueles penduricalhos metidos a modernizantes, recorrendo à santa criatividade, ao borrão, e ao impulso do aprender.

          Naquele tempo, findo o ano letivo, os livros eram passados de irmão para irmão. As gerações construíam o alicerce de sua formação lingüístico- intelectual primeiro no exemplar do Curso de Admissão ao Ginásio, depois na Seleta, no A Flor do Lácio ou na Crestomatia. Para estudar Geografia, História ou Ciências Físicas e Biológicas uns poucos nomes eram o suficiente. Antônio José Borges Hermida, Victor Mussumeci, Carlos Galante, Jairo Bezerra e José Cretella Júnior serviram de esteio para o crescimento de várias gerações. Quer dizer: aos pais não se impunha, torpemente, a aquisição de toneladas de livros, obrigação criada pelo jogo comercial, perverso e cretino de bodegas pedagógicas e editoras. Naquele tempo, os livros não traziam gravuras inúteis, fomentadoras da antológica e corrente preguiça mental. Também não havia, em suas páginas, espaço para resolução de exercícios e tarefas, cujo fim maior parece ser inutilizar o livro.

Naquele tempo, estudar era obrigação que todos cumpriam sem a intervenção de promessas de prêmios ou recompensas vindas de pais e avós, cujos efeitos imperceptíveis, mas deletérios, corrompem, mancham o caráter e inscrevem o indivíduo no rol dos que vão optar pelo cafajestismo nacional ou dos que vão alimentar a falsa idéia de que “ganhar” a vida é sinônimo de passar a perna no próximo ou enganar-se a si mesmo com a fugidia ilusão de exercer seu ofício ao sabor de improvisações malsãs.

Naquele tempo, antes da entrada na sala de aula, entoava-se o Hino Nacional ou qualquer outro alusivo a essa ou àquela data histórica. Ministrava-se a disciplina Canto Orfeônico. Durante as aulas, cantavam-se hinos e canções do folclore nacional ou mesmo cantigas de roda. Sob a batuta do professor, cantava-se em coro e desenvolvia-se o gosto musical...

Bons tempos aqueles...

Nenhum comentário:

Postar um comentário