quinta-feira, 8 de março de 2012


CHICO CEGO, MAEL E GLUTÃO.



                                                                                               Hugo Martins  

        

            Sob a ampla copa verde do juazeiro, três entes entregues à modorra da hora morta do meio-dia. Sol a pino. Palmas e folhas paradas. Estrada de piçarra batida. Vez em quando, rolos de poeira passam na esteira de caminhão gemedor e cansado. Silêncio prolongado, quebrado apenas pelo zumbido ziguezagueante de besouros cavalo-do-cão. Aqui e ali um bem-te-vi corta o ar, arabescando o espaço azul, limpo de nuvens. Ouvem-se chocalhos, politonam as rolinhas fogo-apagou... Os minutos passam indiferentes àquela mesmice... Só Chico Cego está atento às horas e aos apelos do estômago...



            Era uma espécie de lida diária... Após a sesta dos moradores do lugarejo ali na beira da estrada, Chico erguia-se, batia o barro grudado nas calças, instigava Mael e chamava Glutão, atritando o polegar ao indicador.



            Mael era um carneiro de lã encardida, portando sobre o dorso uma espécie de pequena cangalha de onde pendia, de cada lado, uma espécie de caçuá onde o cego depunha o produto das esmolas, auferidas em sua caminhada diária, de casa em casa, pelo povoado. Animal de boa índole nem balia nem bulia... Sereno, acompanhava o cego aonde este fosse.



            Magro e guenzo, sempre balançando a cauda fina, nunca botava o rabo entre as pernas; com o focinho entreaberto, a língua de fora, num vaivém acelerado, Glutão olhava com doçura para o dono como se lhe oferecesse vassalagem incontida. Nada demais que pudesse ferir os brios caninos. Apenas fidelidade incondicional, resultado de um amor fruto de solidões cotizadas.



            O cego, vestido numa calça cáqui e camisa de riscado, trazia, cruzada ao tronco como talabarte, uma sacola de brim azul, esmaecido pelo tempo. Sobre a cabeça, chapéu de couro à moda vaqueiro, cuja aba dobrada chegava às grossas sobrancelhas. Um par de óculos escuros, escondia-lhe os olhos emurchecidos e ausentes do mundo.



            Lá iam os três... Atravessavam a estrada e saíam, de casa em casa... O cego gritava: Vicente Crisóstomo! Glutão corria à porta da pessoa referida e recebia o óbolo, sempre concedido de bom grado. A cada casa a que chegavam, era o mesmo ritual. Proferido o nome do dono da casa, Glutão não se fazia de rogado: achegava-se à porta e recebia a esmola e o agrado, que eram depositados no caçuá de Mael. Dito o “Deus lhe pague”, feita a féria do dia, aquelas figuras se iam... Formavam uma espécie de elemento pinturesco e necessário à paisagem local. O dia em que se não via o trio era motivo para comentários...



            Um dia (que dia!), a paisagem soluçou.  Era fim de tarde. Os raios do sol começavam a perder o brilho. Por trás do pequeno cerro, o poente avermelhava-se. Havia mau presságio no ar. Morcegos cortavam o ar. Súbito, uma pancada, um latido e um balado. Sobre a piçarra, uma poça de sangue... Ao lado, o corpo de Chico Cego jazia inerte. Não mais se lhe viam os olhos sem vida. A cabeça esfacelada...  Mael silenciou, e Glutão grunhia sua  dor num ir e vir incessante do corpo de Chico Cego à casa que lhes servia de abrigo. A noite, como um manto fúnebre, caiu indiferente à dor de homens e bichos.
             

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