Philosophum non facit barba
(A barba não faz o filósofo)
Hugo Martins
O delicioso livrinho de Eduardo Prado de Mendonça, O Mundo
Precisa de Filosofia, longe de ser um tratado pretensioso do assunto, convence,
mesmo os mais pedantes e posudos, de que o assunto é indispensável, sobretudo
num mundo em crise, cuja nota dominante é o pragmatismo estéril, o vazio
existencial e a desesperança vã.
Passados os ventos negros da ditadura e instalado o Estado de
Direito, até mesmo as crianças já ensaiam alguma simpatia pela matéria. Diz uma
mãe testemunhar o entusiasmo da filha, de pouco mais de onze anos, pelo
assunto. Talvez isso signifique que o estudo da Filosofia não deva ser apanágio
apenas de homens graves, de olhar perscrutador e escondidos nas grossas lentes
dos óculos professorais... Não é suficiente no ato de filosofar tão-só a pose
doutoral, tampouco a indumentária bizarra, ou mesmo o vocabulário esotérico, ou
a mise em scène do alheamento de
poeta ultra-romântico. Necessárias a sinceridade e simplicidade das crianças,
que podem filosofar sem o fardo do narcisismo intelectualóide...
Se filosofar é, como quer Epicuro, com um pedaço de pão e um
pouco d´água, rivalizar com o próprio Zeus; é ser afortunado como Diógenes
tendo como vestimenta um lençol e como moradia um barril; ninguém melhor que as
crianças para compreender a inutilidade das pequenas vaidades, encontradiças
nos valores mercadejados pela publicidade enganosa dos discursos utilitarista. Nem
por isso se há de fazer a apologia da pobreza franciscana ou mesmo de que não
se deva “pensar no futuro”. Ainda assim, o projeto da felicidade deve estar
amparado numa visão de mundo em que o indivíduo não enxergue no viver apenas o
hedonismo grosseiro dos insensatos, que vagueiam como cadáveres ambulantes,
destituídos do que se convencionou chamar de senso crítico.
O professor daquela jovem encantada pelo mundo da Filosofia,
é presumível, pode ser visto como um benfeitor da humanidade, que passa
despercebido do olhar dos homens, que não espera foguetes nem refletores ou
almeje ter a foto estampada em jornais... Não é um herói de papelão ou
papelões. Também é provável que não pretenda conquistar cargos públicos, com as
promessas mentirosas, penduradas no sorriso maroto de político pilantra.
Certamente recebe seu galardão na satisfação gratuita de forjar consciência e
soprar entusiasmo no espírito desarmado das crianças. Isso basta... Isso
muda... Isso é Filosofia. De parabéns seus alunos...
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