segunda-feira, 12 de março de 2012


Philosophum non facit barba (A barba não faz o filósofo)

                                                                          Hugo Martins

O delicioso livrinho de Eduardo Prado de Mendonça, O Mundo Precisa de Filosofia, longe de ser um tratado pretensioso do assunto, convence, mesmo os mais pedantes e posudos, de que o assunto é indispensável, sobretudo num mundo em crise, cuja nota dominante é o pragmatismo estéril, o vazio existencial e a desesperança vã.

Passados os ventos negros da ditadura e instalado o Estado de Direito, até mesmo as crianças já ensaiam alguma simpatia pela matéria. Diz uma mãe testemunhar o entusiasmo da filha, de pouco mais de onze anos, pelo assunto. Talvez isso signifique que o estudo da Filosofia não deva ser apanágio apenas de homens graves, de olhar perscrutador e escondidos nas grossas lentes dos óculos professorais... Não é suficiente no ato de filosofar tão-só a pose doutoral, tampouco a indumentária bizarra, ou mesmo o vocabulário esotérico, ou a mise em scène do alheamento de poeta ultra-romântico. Necessárias a sinceridade e simplicidade das crianças, que podem filosofar sem o fardo do narcisismo intelectualóide...

Se filosofar é, como quer Epicuro, com um pedaço de pão e um pouco d´água, rivalizar com o próprio Zeus; é ser afortunado como Diógenes tendo como vestimenta um lençol e como moradia um barril; ninguém melhor que as crianças para compreender a inutilidade das pequenas vaidades, encontradiças nos valores mercadejados pela publicidade enganosa dos discursos utilitarista. Nem por isso se há de fazer a apologia da pobreza franciscana ou mesmo de que não se deva “pensar no futuro”. Ainda assim, o projeto da felicidade deve estar amparado numa visão de mundo em que o indivíduo não enxergue no viver apenas o hedonismo grosseiro dos insensatos, que vagueiam como cadáveres ambulantes, destituídos do que se convencionou chamar de senso crítico.

O professor daquela jovem encantada pelo mundo da Filosofia, é presumível, pode ser visto como um benfeitor da humanidade, que passa despercebido do olhar dos homens, que não espera foguetes nem refletores ou almeje ter a foto estampada em jornais... Não é um herói de papelão ou papelões. Também é provável que não pretenda conquistar cargos públicos, com as promessas mentirosas, penduradas no sorriso maroto de político pilantra. Certamente recebe seu galardão na satisfação gratuita de forjar consciência e soprar entusiasmo no espírito desarmado das crianças. Isso basta... Isso muda... Isso é Filosofia. De parabéns seus alunos...

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