terça-feira, 6 de março de 2012


18ª

Maria Helena



Esta semana fui brindado com um adjetivo que me deixou, a um tempo, envaidecido e frustrado. De mim aproximou-se uma jovem e apodou-me doutor. Aquilo, malgrado cheirar-me a provincianismo da sempiterna mania bacharelesca do povo brasileiro, herdeiro da cultura latino-patriarcal, levou-me á reflexão de quão tola é a espécie humana quando está em jogo a inútil vaidade.

Com efeito, por ser graduado em ciências jurídicas, recebo o tratamento doutoral por mero costume de, nessa terra de tanta gente douta, tratar-se o advogado com o terminho cerimonioso. No mais fundo da alma, não me vejo merecedor de tanto encômio. Ser portador de certificado de bacharel em direito em meio a essa gente tão culta, tão conhecedora dos meandros de leis, doutrinas e jurisprudências, não me dá o direito de assim ser tratado. Além do mais, depois que a vida acadêmica nas universidades saiu do marasmo da mera graduação e abriu perspectivas mais amplas para o auto-aperfeiçoamento, criaram-se os mestrados e doutorados em que tantos aventureiros, sem capa e sem espadas, montados no pangaré quixotesco de um preparo duvidoso, vislumbram a feitura de monografias e teses que, em nada lembram a doçura gratuita do estudar pelo estudar. São cavaleiros de triste figura, carentes de dulcinéias, que se esboroam num sonho louco e desembestado, fustigados pelo “salve-se quem puder” imposto pela irresponsabilidade de projetos educacionais concebidos de afogadilho. De que vale o sujeito escolher caminhos que não lhe calam na alma? Por exemplo, que mérito teria teu pai, amante das Belas Letras, pós-graduar-se em Geografia? Não pareceria uma pantomima mal ensaiada? E se o contracheque não fosse engordado por tal contradição, será que o “estudioso amante das geografias” insistiria em continuar seu “aperfeiçoamento” na área ou logo trataria de pôr-se ao largo, colocando a barba de molho?  Como vês, deveriam, por uma questão lógica, freqüentar aulas de arte dramática, coisa consentânea com seu talento.

Ao ser brindado com aquela palavrinha tão a gosto no comércio louvaminheiro, experimentei, repito, uma onda de indignação e desconforto, quando pensei, não sei se em Sócrates ou Pitágoras, estou em dúvida... Bom, de qualquer modo, quedei-me na reflexão por um daqueles feita acerca do termo douto ou sófos. Ora, para o pensador, a simpática palavrinha deve ser aplicável àquele que, convencido de que a maior virtude do homem é o conhecimento, mas, paradoxalmente, por ser este inalcançável, a busca se torna inútil e útil. Por isso, é que a palavrinha doutor tanto pesa, sobremaneira porque alguns pretensiosos não possuem ombros suficientemente fortes para suportar tão amargo ônus.



Teu pai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário