18ª
Maria Helena
Esta semana fui brindado com um
adjetivo que me deixou, a um tempo, envaidecido e frustrado. De mim
aproximou-se uma jovem e apodou-me doutor.
Aquilo, malgrado cheirar-me a provincianismo da sempiterna mania bacharelesca
do povo brasileiro, herdeiro da cultura latino-patriarcal, levou-me á reflexão
de quão tola é a espécie humana quando está em jogo a inútil vaidade.
Com efeito, por ser graduado em
ciências jurídicas, recebo o tratamento doutoral por mero costume de, nessa
terra de tanta gente douta, tratar-se o advogado com o terminho cerimonioso. No
mais fundo da alma, não me vejo merecedor de tanto encômio. Ser portador de
certificado de bacharel em direito em meio a essa gente tão culta, tão
conhecedora dos meandros de leis, doutrinas e jurisprudências, não me dá o
direito de assim ser tratado. Além do mais, depois que a vida acadêmica nas
universidades saiu do marasmo da mera graduação e abriu perspectivas mais
amplas para o auto-aperfeiçoamento, criaram-se os mestrados e doutorados em que
tantos aventureiros, sem capa e sem espadas, montados no pangaré quixotesco de
um preparo duvidoso, vislumbram a feitura de monografias e teses que, em nada
lembram a doçura gratuita do estudar pelo estudar. São cavaleiros de triste
figura, carentes de dulcinéias, que se esboroam num sonho louco e desembestado,
fustigados pelo “salve-se quem puder” imposto pela irresponsabilidade de
projetos educacionais concebidos de afogadilho. De que vale o sujeito escolher
caminhos que não lhe calam na alma? Por exemplo, que mérito teria teu pai,
amante das Belas Letras, pós-graduar-se em Geografia? Não pareceria uma
pantomima mal ensaiada? E se o contracheque não fosse engordado por tal
contradição, será que o “estudioso amante das geografias” insistiria em
continuar seu “aperfeiçoamento” na área ou logo trataria de pôr-se ao largo,
colocando a barba de molho? Como vês,
deveriam, por uma questão lógica, freqüentar aulas de arte dramática, coisa
consentânea com seu talento.
Ao ser brindado com aquela palavrinha
tão a gosto no comércio louvaminheiro, experimentei, repito, uma onda de
indignação e desconforto, quando pensei, não sei se em Sócrates ou Pitágoras,
estou em dúvida... Bom, de qualquer modo, quedei-me na reflexão por um daqueles
feita acerca do termo douto ou sófos. Ora, para o pensador, a simpática
palavrinha deve ser aplicável àquele que, convencido de que a maior virtude do
homem é o conhecimento, mas, paradoxalmente, por ser este inalcançável, a busca
se torna inútil e útil. Por isso, é que a palavrinha doutor tanto pesa,
sobremaneira porque alguns pretensiosos não possuem ombros suficientemente
fortes para suportar tão amargo ônus.
Teu pai.
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