NAQUELE
TEMPO (II)
Hugo
Martins
Naquele tempo, a brisa corria mansa e fagueira, não
existiam arranha-céus, a não ser um edifício de treze pavimentos, que fica na
esquina da Rua Barão do Rio Branco com Rua Pedro Pereira. Era o IAPC, cuja
sigla a meninada, em tom de blague, traduzia por Isto Ainda Pode Cair. O vento
maroto fazia a alegria da moçada, que, com ar e trejeitos de James Dean,
postava-se nas Lojas Rouvani Modas (esquina da Rua Major Facundo com Rua
Guilherme Rocha) a atiçá-lo com assovios para soerguer as saias das meninas
sapecas da Escola Normal. Havia o coió,
espécie de silvo produzido com os lábios arredondados, forma brejeira de enviar
às mocinhas algum elogio às suas graça e faceirice.
Naquele tempo, as mulheres usavam anágua, combinação e
califon. A cintura era apertada por um largo cinto, e a saia, longa e
derramada, tomava a configuração de abajur, graças às várias anáguas, antes
colocadas no grude, mistura de goma e água, que as enrijeciam. Quanto mais
anáguas, maior a parecença com as atrizes da época: a italiana Gina Lolobrígida,
a norte-americana Marylin Monroe, a alemã Elke Sommer e a francesa Milene
Demongeot. Os cabelos, quando não soltos, esparramados nas costas e ombros,
eram penteados, assumindo a forma de uma casa de cupim, e enfeitados com uma
tiara de pano que ia de orelha a orelha. As faces eram avermelhadas com rouge, uma espécie de pó carmesim,
acondicionado numa caixinha redonda e minúscula, trazida nas bolsas. Se os
homens usavam o perfume Lancaster, as mulheres, o 1010 da Bozzano.
Naquele tempo, a moçada não saía para as baladas, ia às
tertúlias, não lítero-musicais do século XIX, mas àquelas em que, ao som de
radiolas e vitrolas, dançavam de rosto colado, entregues à malemolência rítmica
do Besame Mucho ou rendiam-se às
letras românticas de Carlos Gonzaga, Cely Campelo e Sérgio Murilo. Mastigava-se
chiclets de bola, tomava-se Coca-Cola ou Cuba libre, mistura de rum Montilla ou
rum Baccardi com Coca-Cola. Ali aconteciam namoros e paixonites agudas. Não se
apodavam, grosseiramente, as meninas de gatas, mas, carinhosamente, de brotos.
Não havia a paquera, mas o flerte. Surdiam abraços e afagos, não amassos. As
meninas evitavam a dança colada, embora, algumas mais assanhadas permitissem,
às escondidas no meio da dança, uma ou outra encostadinha. Quando o sujeito se
afoitava, era delicadamente empurrado por mãos escrupulosas e cuidadosas.
Naquele tempo, menino não se metia em conversa de
adultos. Não. “Sentava-se no chão e conversava com o cão”. Se, porventura,
algum mal-educado, fosse quem fosse, deixasse, sorrateiramente, escapar algum
flato, logo, atribuía-se o pecadilho a algum menino ou a algum cão nas
adjacências. O bom menino não fazia xixi na cama, como aconselhava o palhaço
Carequinha nas suas músicas de cunho pedagógico. O menino mijão era ameaçado
de, caso cometesse aquela falta, sair à rua com uma rede de dormir na cabeça,
bater à porta de alguém e recitar os versos: “Uma esmolinha, por amor de São Vicente, para um pobre que mija na rede
e não se sente.”
Naquele
tempo, os meninos não se rendiam à sabujice dos brinquedos eletrônicos ou
automáticos. Quando algum adulto desavisado presenteava o guri com aqueles
artefatos intrincados, o diabinho logo o quebrava. Exercia o direito infantil
de saber como funcionava. A menina enchia-se de orgulho quando ganhava de
presente a boneca Amiguinha. Os mais criativos faziam seus carrinhos e suas
arraias, se meninos; se meninas, iam brincar no quintal, onde faziam guisados
de tripas de galinhas em panelinhas de barro compradas na feira. Era proibido
aos meninos usar calças compridas. Quando iam ao barbeiro voltavam parecidos
com o personagem Cascão, do desenhista e pedagogo Maurício de Sousa. Dava-se
àquele corte de cabelos o nome de Príncipe de Gales. Só se lhe permitiam usar
meia-cabeleira quando completassem pelo menos doze anos, pois cabeleira era
coisa de rabo-de-burro, isto é, rapazes que se entregavam a fazer estripulias
contrárias à moral e aos bons costumes.
Naquele
tempo, a educação familiar era rígida, e todo mundo devia “dar-se a respeito”.
Bons tempos aqueles!!!
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