quinta-feira, 15 de março de 2012


NAQUELE TEMPO (II)

                                        Hugo Martins



            Naquele tempo, a brisa corria mansa e fagueira, não existiam arranha-céus, a não ser um edifício de treze pavimentos, que fica na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Rua Pedro Pereira. Era o IAPC, cuja sigla a meninada, em tom de blague, traduzia por Isto Ainda Pode Cair. O vento maroto fazia a alegria da moçada, que, com ar e trejeitos de James Dean, postava-se nas Lojas Rouvani Modas (esquina da Rua Major Facundo com Rua Guilherme Rocha) a atiçá-lo com assovios para soerguer as saias das meninas sapecas da Escola Normal.  Havia o coió, espécie de silvo produzido com os lábios arredondados, forma brejeira de enviar às mocinhas algum elogio às suas graça e faceirice.

            Naquele tempo, as mulheres usavam anágua, combinação e califon. A cintura era apertada por um largo cinto, e a saia, longa e derramada, tomava a configuração de abajur, graças às várias anáguas, antes colocadas no grude, mistura de goma e água, que as enrijeciam. Quanto mais anáguas, maior a parecença com as atrizes da época: a italiana Gina Lolobrígida, a norte-americana Marylin Monroe, a alemã Elke Sommer e a francesa Milene Demongeot. Os cabelos, quando não soltos, esparramados nas costas e ombros, eram penteados, assumindo a forma de uma casa de cupim, e enfeitados com uma tiara de pano que ia de orelha a orelha. As faces eram avermelhadas com rouge, uma espécie de pó carmesim, acondicionado numa caixinha redonda e minúscula, trazida nas bolsas. Se os homens usavam o perfume Lancaster, as mulheres, o 1010 da Bozzano.

            Naquele tempo, a moçada não saía para as baladas, ia às tertúlias, não lítero-musicais do século XIX, mas àquelas em que, ao som de radiolas e vitrolas, dançavam de rosto colado, entregues à malemolência rítmica do Besame Mucho ou rendiam-se às letras românticas de Carlos Gonzaga, Cely Campelo e Sérgio Murilo. Mastigava-se chiclets de bola, tomava-se Coca-Cola ou Cuba libre, mistura de rum Montilla ou rum Baccardi com Coca-Cola. Ali aconteciam namoros e paixonites agudas. Não se apodavam, grosseiramente, as meninas de gatas, mas, carinhosamente, de brotos. Não havia a paquera, mas o flerte. Surdiam abraços e afagos, não amassos. As meninas evitavam a dança colada, embora, algumas mais assanhadas permitissem, às escondidas no meio da dança, uma ou outra encostadinha. Quando o sujeito se afoitava, era delicadamente empurrado por mãos escrupulosas e cuidadosas.

            Naquele tempo, menino não se metia em conversa de adultos. Não. “Sentava-se no chão e conversava com o cão”. Se, porventura, algum mal-educado, fosse quem fosse, deixasse, sorrateiramente, escapar algum flato, logo, atribuía-se o pecadilho a algum menino ou a algum cão nas adjacências. O bom menino não fazia xixi na cama, como aconselhava o palhaço Carequinha nas suas músicas de cunho pedagógico. O menino mijão era ameaçado de, caso cometesse aquela falta, sair à rua com uma rede de dormir na cabeça, bater à porta de alguém e recitar os versos: “Uma esmolinha, por amor de São Vicente, para um pobre que mija na rede e não se sente.”

Naquele tempo, os meninos não se rendiam à sabujice dos brinquedos eletrônicos ou automáticos. Quando algum adulto desavisado presenteava o guri com aqueles artefatos intrincados, o diabinho logo o quebrava. Exercia o direito infantil de saber como funcionava. A menina enchia-se de orgulho quando ganhava de presente a boneca Amiguinha. Os mais criativos faziam seus carrinhos e suas arraias, se meninos; se meninas, iam brincar no quintal, onde faziam guisados de tripas de galinhas em panelinhas de barro compradas na feira. Era proibido aos meninos usar calças compridas. Quando iam ao barbeiro voltavam parecidos com o personagem Cascão, do desenhista e pedagogo Maurício de Sousa. Dava-se àquele corte de cabelos o nome de Príncipe de Gales. Só se lhe permitiam usar meia-cabeleira quando completassem pelo menos doze anos, pois cabeleira era coisa de rabo-de-burro, isto é, rapazes que se entregavam a fazer estripulias contrárias à moral e aos bons costumes.

Naquele tempo, a educação familiar era rígida, e todo mundo devia “dar-se a respeito”.

            Bons tempos aqueles!!!

             

             

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