NAQUELE
TEMPO
Hugo
Martins
Rezava-se
o terço e, após o jantar, as cadeiras se esparramavam nas calçadas. A brisa era
pródiga, e as conversas corriam às horas soltas. Ouvia-se o dobre dos sinos
anunciando a ave-maria, coadjuvados pela música melíflua de Franz Schubert ou
Charles Gonod. Também era comum a saudação com graves boas noites. Vez por
outra, crianças brincavam pelas calçadas, meninas politonavam cantigas de roda
ou saltavam a amarelinha. Quando a conversa enfarava os espíritos, os meninos
iam ouvir a novela Jerônimo, o herói do sertão, escrita por Moisés Weltmam.
Depois, era a vez de os adultos se reunirem em torno do rádio para ouvir as
novelas melodramáticas produzidas pelas Rádios Tupi ou Nacional. Se os meninos
se encantavam com as proezas daquele herói nordestino, que, com honradez e
denodo, defendia os injustiçados, os adultos se envolviam na trama chorosa das
novelas de Ivani Ribeiro, em cujo enredo moçoilas e mancebos se enfronhavam em
intrincados casos amorosos. Se Jerônimo enfrentava o mal, que estava encarnado
na figura do vilão Caveira, coadjuvado por seu ajudante Chumbinho, os dramas
sentimentais retratavam as dores e dissabores de paixões imorredouras, frenadas
pelas antíteses rapazinho rico, mocinha pobre ou pelas dificuldades enfrentadas
pelo rapazito para chegar ao coração da amada. Era algo semelhante ao paradigma
Romeu e Julieta... Ao fim, depois de medos e choros, tudo terminava bem, não
tanto quanto os dramas reais, mas as famílias dormiam em paz.
Naquele tempo, o uso da farda era obrigatório. As meninas
ficavam graciosíssimas com as longas saias plissadas que lhe iam abaixo do
joelho. A blusa, enfiada no cós era de mangas compridas e não se dispensava a indefectível
gravatinha ou a boina, cuidadosamente encimada sobre a copa de gentis cabelos.
A indumentária era, por fim, complementada por sapatinhos cara-de-bebê
afivelados por sobre o peito do pé, que se tornavam mais gráceis com as meias brancas
que lhes iam até a metade das pernas Os
meninos, pelo menos os liceístas, mais pareciam pequenos soldados, portando
calças cáqui com duas grossas listas azuis, do cós à bainha, dólmãs da mesma
cor, apertados, por botões de metal. Sobre os ombros, listas ou estrelas,
espécie de patente, denunciava o grau em que se encontrava o estudante. Havia
um orgulho silente e grave em se estudar neste ou naquele colégio E no desfile
do dia Sete de Setembro, quando era obrigatória a participação das escolas, a
moçada desfilava com garbo e elegância, com suas bicicletas enfeitadas de fitas
verdes e amarelas, pisando forte o chão com os sapatos fanabôs, que recebiam,
na noite anterior à solenidade, camadas mais cuidadosas de alvaiade.
Naquele tempo, o ingresso no curso ginasial, era
precedido de um Exame de Admissão. Muito estudo e grande medo do fracasso,
afinal o candidato gastara cinco anos de curso primário e punha-se à prova numa
superlativa concorrência.
Depois
de quatro anos, findo o Curso Ginasial, o candidato escolhia cursar o
Científico ou o Clássico. Neste, o candidato preparava-se para cursos
universitários respeitantes às ditas ciências humanas, pois ia dedicar-se às
letras ou às filosofias; naquele, às ciências químico-biológicas ou
físico-matemáticas; às meninas, ficava reservado o Curso Normal, em que se
preparavam professoras voltadas para o ensino primário do primeiro ao quinto
ano.
Naquele
tempo, findos os estudos universitários, era visível o preparo dos bacharéis,
que tinham ciência e consciência e não se rendiam ao aceno comercial e cômodo
de bodegas pedagógicas, aliás, à época, inexistentes. Era tempo em que o
estudar era, sobretudo, um ato prazeroso, de que podia resultar angariar bons
salários, mas, antes de tudo, propiciava o pensar que rejeita a subserviência e
foge à rendição covarde ao tilintar de cifrões de pós-graduações feitas de
afogadilho e sem nenhuma sinceridade intelectual.
Bons
tempos aqueles...
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