quarta-feira, 14 de março de 2012


NAQUELE TEMPO

                                                                         Hugo Martins



               Rezava-se o terço e, após o jantar, as cadeiras se esparramavam nas calçadas. A brisa era pródiga, e as conversas corriam às horas soltas. Ouvia-se o dobre dos sinos anunciando a ave-maria, coadjuvados pela música melíflua de Franz Schubert ou Charles Gonod. Também era comum a saudação com graves boas noites. Vez por outra, crianças brincavam pelas calçadas, meninas politonavam cantigas de roda ou saltavam a amarelinha. Quando a conversa enfarava os espíritos, os meninos iam ouvir a novela Jerônimo, o herói do sertão, escrita por Moisés Weltmam. Depois, era a vez de os adultos se reunirem em torno do rádio para ouvir as novelas melodramáticas produzidas pelas Rádios Tupi ou Nacional. Se os meninos se encantavam com as proezas daquele herói nordestino, que, com honradez e denodo, defendia os injustiçados, os adultos se envolviam na trama chorosa das novelas de Ivani Ribeiro, em cujo enredo moçoilas e mancebos se enfronhavam em intrincados casos amorosos. Se Jerônimo enfrentava o mal, que estava encarnado na figura do vilão Caveira, coadjuvado por seu ajudante Chumbinho, os dramas sentimentais retratavam as dores e dissabores de paixões imorredouras, frenadas pelas antíteses rapazinho rico, mocinha pobre ou pelas dificuldades enfrentadas pelo rapazito para chegar ao coração da amada. Era algo semelhante ao paradigma Romeu e Julieta... Ao fim, depois de medos e choros, tudo terminava bem, não tanto quanto os dramas reais, mas as famílias dormiam em paz.

            Naquele tempo, o uso da farda era obrigatório. As meninas ficavam graciosíssimas com as longas saias plissadas que lhe iam abaixo do joelho. A blusa, enfiada no cós era de mangas compridas e não se dispensava a indefectível gravatinha ou a boina, cuidadosamente encimada sobre a copa de gentis cabelos. A indumentária era, por fim, complementada por sapatinhos cara-de-bebê afivelados por sobre o peito do pé, que se tornavam mais gráceis com as meias brancas que lhes iam até  a metade das pernas Os meninos, pelo menos os liceístas, mais pareciam pequenos soldados, portando calças cáqui com duas grossas listas azuis, do cós à bainha, dólmãs da mesma cor, apertados, por botões de metal. Sobre os ombros, listas ou estrelas, espécie de patente, denunciava o grau em que se encontrava o estudante. Havia um orgulho silente e grave em se estudar neste ou naquele colégio E no desfile do dia Sete de Setembro, quando era obrigatória a participação das escolas, a moçada desfilava com garbo e elegância, com suas bicicletas enfeitadas de fitas verdes e amarelas, pisando forte o chão com os sapatos fanabôs, que recebiam, na noite anterior à solenidade, camadas mais cuidadosas de alvaiade.

            Naquele tempo, o ingresso no curso ginasial, era precedido de um Exame de Admissão. Muito estudo e grande medo do fracasso, afinal o candidato gastara cinco anos de curso primário e punha-se à prova numa superlativa concorrência.

Depois de quatro anos, findo o Curso Ginasial, o candidato escolhia cursar o Científico ou o Clássico. Neste, o candidato preparava-se para cursos universitários respeitantes às ditas ciências humanas, pois ia dedicar-se às letras ou às filosofias; naquele, às ciências químico-biológicas ou físico-matemáticas; às meninas, ficava reservado o Curso Normal, em que se preparavam professoras voltadas para o ensino primário do primeiro ao quinto ano.

Naquele tempo, findos os estudos universitários, era visível o preparo dos bacharéis, que tinham ciência e consciência e não se rendiam ao aceno comercial e cômodo de bodegas pedagógicas, aliás, à época, inexistentes. Era tempo em que o estudar era, sobretudo, um ato prazeroso, de que podia resultar angariar bons salários, mas, antes de tudo, propiciava o pensar que rejeita a subserviência e foge à rendição covarde ao tilintar de cifrões de pós-graduações feitas de afogadilho e sem nenhuma sinceridade intelectual.

Bons tempos aqueles...


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