segunda-feira, 5 de março de 2012


17ª

CARTAS Á MINHA FILHA

Maria Helena,

dizem que, no Brasil, o professor de língua portuguesa é igual ao cão do Pavlov. Em outras palavras, mal ouve a campainha, já começa a salivar gramática. De vez em quando, as pessoas a mim se dirigem com perguntas e propostas tão bisonhas, que estas atingem as raias do absurdo. Certo dia, abordado por um pai, aflitíssimo com uma questão “inteligente” e originalíssima do professor de português de seu filho, fez-me a pergunta com que intitulei o texto que se segue. Leia-o e não me caia na armadilha de propor tal baboseira a seus futuros alunos. Isso não é ensino de língua , mais parece uma espécie de tortura em que o verdugo, “dono do saber”, tira o couro do torturado com perguntas que atazanam o próprio Satanás. Ai vai a perguntinha psicodélica... Ainda bem que nos rendeu uma reflexão e um texto.





O COLETIVO DE SONHOS, DE BETERRABA E CENOURA...





                        Sou abordado por alguém que, preocupado com auxiliar o filho nas tarefas escolares, pergunta-me qual o substantivo coletivo de sonho, de cenoura e de beterraba. Respondi não conhecer, mas fiz ver ao pai que aquilo não tinha nenhuma importância. Mostrei a ele que o cronista Rubem Braga também se indignava com a natureza das provas de língua portuguesa para o ingresso no serviço público, promovidas pelo extinto DASP. Numa delas, havia questões sensaboronas relativas ao feminino de cupim, ao adjetivo (gentílico) que se deve aplicar a quem nasce na cidade do Cairo, ao coletivo de borboleta e a outras sandices afins. Quer dizer, a ciência da linguagem evolui, mas o professor de português continua aferrado às mesmices e chatices pedagógicas de antanho.

                        Ora, quem vai narrar sonhos não vai escolher palavrório inútil e não usual para designá-los. Poderá dizer que teve vários sonhos durante determinada noite e uma porrada de pesadelos com a falta de imaginação de seu professor de português. Da mesma forma, quem chega à feira ou ao supermercado compra beterrabas e cenouras no peso. Nesse contexto, não há outra forma de designá-las. Nem mesmo quando dispostas em renques nos canteiros de hortaliças.

                        A propósito, nunca perdoei aos professores que me obrigavam a decorar o coletivo de camelos, o indefectível cáfila. Perguntava-me para que aquilo servia se nunca vi camelos aos magotes a não ser nas narrativas de Malba Tahan e nos filmes, cuja paisagem eram desertos, povoados de camelos de beduínos e de anacoretas. Afora isso, nem mesmo em circo vi camelos. Ainda assim, designaria um monte deles por um porrilhão de camelos, uma porrada de camelos e outros coletivos menos pretensiosos, que só figuram no cemitério dos dicionários e no pedantismo gramatiqueiro.

                        A aura de dignidade que deve envolver o ensino sério do idioma há de ter em mira o falar, o ler, o escrever e o ouvir. O desenvolvimento do potencial comunicativo de cada usuário da língua, enquanto sistema noticiador do mundo, dar-se-á na mesma medida em que o falante puser em ação aquelas práticas. O conhecimento da gramática, do modo de ser do idioma, aos poucos se entranhará na consciência do usuário do idioma de modo tão espontâneo quanto o ato de nadar, de andar de bicicleta e de jogar sinuca. Assim, na proporção em que o indivíduo vai amadurecendo nos planos biológico e intelectual, também se vai afeiçoando ao vocabulário, aos torneios sintáticos e às tiradas criativas ínsitas ao idioma. O que daí passar é autoritarismo de gramático e bizantinice de professor de português conservador, garimpador de errinhos esdrúxulos e de exceções inomináveis...



                        Ora, às favas, Sô!!!



Teu pai. Hugo



Post Scriptum: já se mediu a competência do bom professor de língua portuguesa pela capacidade com que acorre a complicações inomináveis e às regrinhas de exceção com que alguns atingem maravilhosos orgasmos mentais, num jogo masturbatório e, portanto, estéril...






Nenhum comentário:

Postar um comentário