17ª
CARTAS
Á MINHA FILHA
Maria
Helena,
dizem
que, no Brasil, o professor de língua portuguesa é igual ao cão do Pavlov. Em
outras palavras, mal ouve a campainha, já começa a salivar gramática. De vez em
quando, as pessoas a mim se dirigem com perguntas e propostas tão bisonhas, que
estas atingem as raias do absurdo. Certo dia, abordado por um pai, aflitíssimo
com uma questão “inteligente” e originalíssima do professor de português de seu
filho, fez-me a pergunta com que intitulei o texto que se segue. Leia-o e não
me caia na armadilha de propor tal baboseira a seus futuros alunos. Isso não é
ensino de língua , mais parece uma espécie de tortura em que o verdugo, “dono
do saber”, tira o couro do torturado com perguntas que atazanam o próprio
Satanás. Ai vai a perguntinha psicodélica... Ainda bem que nos rendeu uma
reflexão e um texto.
O COLETIVO DE SONHOS, DE BETERRABA E
CENOURA...
Sou abordado por alguém que, preocupado
com auxiliar o filho nas tarefas escolares, pergunta-me qual o substantivo
coletivo de sonho, de cenoura e de beterraba. Respondi não conhecer, mas fiz ver ao pai que aquilo não
tinha nenhuma importância. Mostrei a ele que o cronista Rubem Braga também se
indignava com a natureza das provas de língua portuguesa para o ingresso no
serviço público, promovidas pelo extinto DASP. Numa delas, havia questões
sensaboronas relativas ao feminino de cupim, ao adjetivo (gentílico) que se
deve aplicar a quem nasce na cidade do Cairo, ao coletivo de borboleta e a
outras sandices afins. Quer dizer, a ciência da linguagem evolui, mas o
professor de português continua aferrado às mesmices e chatices pedagógicas de
antanho.
Ora,
quem vai narrar sonhos não vai escolher palavrório inútil e não usual para
designá-los. Poderá dizer que teve vários sonhos durante determinada noite e
uma porrada de pesadelos com a falta de imaginação de seu professor de
português. Da mesma forma, quem chega à feira ou ao supermercado compra
beterrabas e cenouras no peso. Nesse contexto, não há outra forma de
designá-las. Nem mesmo quando dispostas em renques nos canteiros de hortaliças.
A
propósito, nunca perdoei aos professores que me obrigavam a decorar o coletivo
de camelos, o indefectível cáfila.
Perguntava-me para que aquilo servia se nunca vi camelos aos magotes a não ser
nas narrativas de Malba Tahan e nos filmes, cuja paisagem eram desertos,
povoados de camelos de beduínos e de anacoretas. Afora isso, nem mesmo em circo
vi camelos. Ainda assim, designaria um monte deles por um porrilhão de camelos,
uma porrada de camelos e outros coletivos menos pretensiosos, que só figuram no
cemitério dos dicionários e no pedantismo gramatiqueiro.
A
aura de dignidade que deve envolver o ensino sério do idioma há de ter em mira
o falar, o ler, o escrever e o ouvir.
O desenvolvimento do potencial comunicativo de cada usuário da língua, enquanto
sistema noticiador do mundo, dar-se-á na mesma medida em que o falante puser em
ação aquelas práticas. O conhecimento da gramática, do modo de ser do idioma,
aos poucos se entranhará na consciência do usuário do idioma de modo tão
espontâneo quanto o ato de nadar, de andar de bicicleta e de jogar sinuca.
Assim, na proporção em que o indivíduo vai amadurecendo nos planos biológico e
intelectual, também se vai afeiçoando ao vocabulário, aos torneios sintáticos e
às tiradas criativas ínsitas ao idioma. O que daí passar é autoritarismo de
gramático e bizantinice de professor de português conservador, garimpador de
errinhos esdrúxulos e de exceções inomináveis...
Ora,
às favas, Sô!!!
Teu pai. Hugo
Post Scriptum:
já se mediu a competência do bom professor de língua portuguesa pela capacidade
com que acorre a complicações inomináveis e às regrinhas de exceção com que
alguns atingem maravilhosos orgasmos mentais, num jogo masturbatório e,
portanto, estéril...
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