A CASA
Hugo Martins
Era uma casa não como outra
qualquer, era minha casa, era a casa em que nasci. Da calçada, avistávamos a
serrania que nos lembrava vulcões vistos nos livros de Geografia. Era uma casa
grande, de largo e longo alpendre em forma de ele. À sua volta, um muro musguento,
por onde deslizavam calangros de corrida nervosa, que paravam de chofre e
fitavam-nos com a cabeça oblonga, tremendo em movimentos intermitentes.
Logo à entrada, um portão de
madeira. Ali também ficava um pé de bogari cheiroso. Nunca esqueci aquele
eflúvio, que parecia aumentar, sobretudo à tardinha, quando o sol ameaçava se
pôr, e os sinos da igreja matriz repicavam a ave-maria. O alpendre, a que se
chegava por uma pequena passarela de cimento, ainda ostentava velhos armadores
gementes, em que a figura paterna, cuja lembrança está esgarçada em fiapos de
memória, balançava-se numa rede branca, que cheirava a guardados dos velhos
baús de antanho.
A casa tinha quartos, salas, despensa
e cozinha. Compartimentos amplos, cujo piso era recamado de tijolos nus. No
alto, no teto de telha-vã, pendia o brilho mortiço de uma lâmpada, que
emprestava aos compartimentos, que mal iluminava, um ar soturno, uma atmosfera
que nos povoava a imaginação com almas penadas se esgueirando para a cozinha
escura, onde ainda ardiam, sob o borralho tépido, as brasas do velho fogão a lenha.
Da porta da cozinha, que dava para
um quintal amplo, avistava-se o velho cacimbão de água salobra. O pé de ata, o
pé de cajarana, mamoeiros e pés de vassourinha, que serviam de instrumento para
as rezadeiras afastarem quebrantos ou curar mau-olhado. Aqui e ali cacarejavam
galinhas, ronronavam porcos e, no canto, ruminavam filosoficamente as vacas
Pretinha e Pixuna.
À noite, sob os lençóis, ouvíamos
as vozes da noite: sussurrava a copada mangueira, açoitada pelos ventos que
desciam da serra; gemia o velho açude da Nação, onde adivinhávamos cobras e
afogados; nas paredes do alpendre as latinhas nele penduradas, que faziam as vezes de jarro, esbatiam-se ao
sabor de sopros misteriosos. Naquelas horas, sentia um grande medo de almas do
outro mundo, as referidas nas histórias de Trancoso, contadas por Maria Luísa
do Totó, uma serviçal com ares de mucama, narradora de primeiro time, habitante
de minhas recordações. Costumávamos ouvi-la, sentados na beira da calçada de
cimento, que contornava a casa. Só saíamos do encantamento quando a voz materna
dava o toque de recolher, abria-nos a rede macia e nos inebriava com o “Deus te
abençoe”, hoje tão dolorido e tão saudade. E a casa dormia seu sono profundo.
Hoje só nos resta sua alma imortal, ainda vagueando viva em minhas doridas
lembranças.
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