sexta-feira, 9 de março de 2012


A CASA



                                     

                                          

                                                                Hugo Martins

                                                                     



             Era uma casa não como outra qualquer, era minha casa, era a casa em que nasci. Da calçada, avistávamos a serrania que nos lembrava vulcões vistos nos livros de Geografia. Era uma casa grande, de largo e longo alpendre em forma de ele. À sua volta, um muro musguento, por onde deslizavam calangros de corrida nervosa, que paravam de chofre e fitavam-nos com a cabeça oblonga, tremendo em movimentos intermitentes.

           

           Logo à entrada, um portão de madeira. Ali também ficava um pé de bogari cheiroso. Nunca esqueci aquele eflúvio, que parecia aumentar, sobretudo à tardinha, quando o sol ameaçava se pôr, e os sinos da igreja matriz repicavam a ave-maria. O alpendre, a que se chegava por uma pequena passarela de cimento, ainda ostentava velhos armadores gementes, em que a figura paterna, cuja lembrança está esgarçada em fiapos de memória, balançava-se numa rede branca, que cheirava a guardados dos velhos baús de antanho.

             

         A casa tinha quartos, salas, despensa e cozinha. Compartimentos amplos, cujo piso era recamado de tijolos nus. No alto, no teto de telha-vã, pendia o brilho mortiço de uma lâmpada, que emprestava aos compartimentos, que mal iluminava, um ar soturno, uma atmosfera que nos povoava a imaginação com almas penadas se esgueirando para a cozinha escura, onde ainda ardiam, sob o borralho tépido,  as brasas do velho fogão a lenha.

            Da porta da cozinha, que dava para um quintal amplo, avistava-se o velho cacimbão de água salobra. O pé de ata, o pé de cajarana, mamoeiros e pés de vassourinha, que serviam de instrumento para as rezadeiras afastarem quebrantos ou curar mau-olhado. Aqui e ali cacarejavam galinhas, ronronavam porcos e, no canto, ruminavam filosoficamente as vacas Pretinha e Pixuna.

           

            À noite, sob os lençóis, ouvíamos as vozes da noite: sussurrava a copada mangueira, açoitada pelos ventos que desciam da serra; gemia o velho açude da Nação, onde adivinhávamos cobras e afogados; nas paredes do alpendre as latinhas nele penduradas,  que faziam as vezes de jarro, esbatiam-se ao sabor de sopros misteriosos. Naquelas horas, sentia um grande medo de almas do outro mundo, as referidas nas histórias de Trancoso, contadas por Maria Luísa do Totó, uma serviçal com ares de mucama, narradora de primeiro time, habitante de minhas recordações. Costumávamos ouvi-la, sentados na beira da calçada de cimento, que contornava a casa. Só saíamos do encantamento quando a voz materna dava o toque de recolher, abria-nos a rede macia e nos inebriava com o “Deus te abençoe”, hoje tão dolorido e tão saudade. E a casa dormia seu sono profundo. Hoje só nos resta sua alma imortal, ainda vagueando viva em minhas doridas lembranças.







           


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