quarta-feira, 3 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – II
                                                  Hugo Martins
            Minhas lembranças daquele período, compreendido dos seis aos dez anos em Itapipoca, não estão assim tão obnubiladas. Intentei fazer incursões naquele aparente vácuo mnemônico e, com algum esforço, consegui trazer à tona alguns momentos, certas imagens e algumas pessoas que, embora encobertas por um véu diáfano de esquecimento, ainda permitem que o memorialista entreveja com tênue nitidez sua estada no mundo e no tempo. Aos poucos serão pintadas com traços talvez não tão precisos devido o espaço temporal que nos separa. Lá vão mais de sessenta anos... Por isso, é possível que, em descrevendo-os, venha à tona boa mistura de realidade e ficção, que, nem por isso, falseará cada portrait, cada debuxo, cada descrição e, mesmo, algumas digressões reflexivas...
            Bairro Boa Vista, nome feliz, pois quem lá morava tinha uma visão privilegiada, pois a paisagem dava a impressão de que a cidade era arrodeada de serras e serrotes, cuja beleza mais se acentuava na estação invernosa quando os picos eram cingidos pela neblina à moda colar ou cachecol. Nas noites de plenilúnio, a vegetação ficava como que tingida de salpicadas nuanças de prata. À noitinha, na calçada de cimento frio de nossa casa, um rebanho de meninos pulava corda, outros faziam o jogo da macaca ou amarelinha, e meia dúzia de arteiros corriam no afã do pega-pega ou esconde-esconde. Em certas noites, havia as brincadeiras de roda, do canto triste da viuvinha da mata d´além; do lirismo do bote aqui, do bote aqui o seu pezinho bem juntinho ao meu; da faceirice matreira do anel; da brejeirice da berlinda; do cadê o grilo? (tá lá atrás). Em noites mais frias e soturnas, com o vento assoviando e a lua se escondendo em nuvens densas, sentavam todos à beira da calçada a ouvir Maria Luísa do Totó, uma negra mucama, descendente de escravos, de saia rodada, lábios grossos, olhos de águia e turbante cobrindo-lhe a carapinha. Era ela versada na arte de contar histórias, entrelaçando os fatos com a maestria de um bom narrador de romance policial. O suspense no ar. A voz grave e os arabescos com as mãos emprestavam aos casos sabor de verossimilhança. Todos ficavam de olhos arregalados e, com o desfecho, suspiravam longamente ou ficavam rindo, olhando um para o outro como a comungar a satisfação que a boa narração provoca na alma. Por falar nisso, ouvi de alguns, muitos deixavam de conciliar o sono depois de ouvir as histórias de almas de outro mundo, contadas com a destreza da negra Maria Luísa do Totó. Sempre achei que Maria Luísa despertou em mim esse gosto pelo narrativo, pelo enxergar o mundo pela narrativa literária, pelo ver o mundo pela ótica da escritura. Mestra anônima, que, de alguma forma, cultivou espíritos sem disso ter consciência. Hoje está tão em moda a figura do “contador de histórias"!...Maria Luísa e outras de seu tempo seriam disso pioneiras.
            Quando dela me lembro, vem-me à cachola a figura da negra velha Totonha, figura referida por José Lins do Rego no prefácio da obra Menino de Engenho, também exímia narradora... Diz Zé Lins que ela e os cantadores de feira foram seus grandes influenciadores na arte de contar uma história. Seus romances não o deixam mentir... As obras filiadas ao chamado ciclo da cana-de-açúcar, todas de cunho memorialista, são um primor. Deixando de lado um certo psicologismo do romancista, o sabor maior de sua prosa está no visgo narrativo, que conduz o leitor como que inebriado pela musicalidade dos torneios sintáticos, pelo ritmo de canção de ninar e, sobretudo, pelo encantamento da alma, que só a grande literatura é capaz de proporcionar ao amante da arte de escrever.
            Há uma frase sublime de Víctor Hugo, em que o poeta e romancista francês reconhece, lindamente, a participação da figura das mães na construção de um mundo melhor quando põem no mundo seus rebentos e plasmam sua formação, seu caráter, sua personalidade. Olha que coisa linda aí aspeada: “A mão que balança o berço é a mesma que move o mundo”. Nesse diapasão, os contadores de histórias do porte das marias luísas também movem o mundo, sejam cantadores de feira, poetas, romancistas ou rapsodos. Ninguém vive sem as histórias deles...
           

            

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