sábado, 13 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – IX
                                              Hugo Martins

            Tudo era artesanal. Cavalgávamos as planícies do velho oeste montados em garbosos corcéis. Não eram comprados, nem eram objeto de troca, tampouco capturados em seu estado selvagem, domados e tornados criaturas dóceis ao comando de seus donos. Não. Bastava uma carnaubeira ou um coqueiro...  Colhidas as palhas, eram trabalhadas. Primeiro, passávamos-lhes a faca, restando-lhes só o esqueleto, sem esquecer de deixar na ponta alguns resquícios da palha que lembrassem uma cauda. Na outra ponta, precisamente a “cabeça” da bizarra montaria, eram feitos dois cortes, e ali, ficavam as orelhas do bicho.  Depois, era só colocar o cabresto e escolher a aventura.
            Dias havia em que perseguíamos os fora-da-lei, portando nossos revólveres e rifles feitos de madeira. Quando não, com eles travávamos duelos nas ruas desertas de pessoas, que espreitavam pelas frinchas das janelas de lojas, barbearias e salons. Normalmente, vencia o confronto quem fosse mais rápido ao sacar a arma. A encenação era inspirada na vida de alguns personagens do oeste selvagem, por nós conhecidos da leitura de revistas em quadrinho nas quais figuravam Tom Mix, Gene Autry, Roy Rogers e seu cavalo Tiger, Zorro e seu companheiro, Tonto, bem como figuras de delinquentes e criminosos que, mais tarde, seriam romantizados e heroificados, pelo cinema, como Bill the Kid, Jesse James e Wild Bill Hickoc. Nossa imaginação ainda não fora desrespeitada pela indústria do ludismo industrializado.
            Também se fabricavam trens. Bastava um pedaço estreito de madeira, martelo, pregos, latas de leite em pó ou similar e bastante cocô de equinos e muares. Uma lata era pregada, verticalmente, na extremidade da tábua e enchida de muito cocô, a que ateávamos fogo...  As demais, deitadas em fila, sofriam, na parte abaulada, pequenos cortes quadrados a lembrar janelas, simulavam vagões, ou eram mantidas íntegras, lembrando grandes containers. O apito da maria-fumaça também era fabricado na hora. Ao se aproximar da estação, o “maquinista” entrefechava a mão como se esta fosse um microfone e tirava da garganta sons que lembravam o piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiipiuiiiiiiiiiiiiiii do trem ? Sua aproximação vagarosa e cadenciada era marcada por ruídos vocais sugerindo o tiiiiiiisss, tiiiiiiisssss, tiiiiiiisssss, tiiiiiiiiiiissss. Embarcávamos na locomotiva e íamos em busca de outros sonhos...
De fato, atravessada toda a lonjura de planícies, serras, mata fechada, ao som do café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão, bolacha-não, estacionávamos num terreno baldio por trás da igreja matriz e, lá, participávamos de outros banquetes lúdicos. As bolas de gude bilabilavam; os piões e carrapetas desnudos rodopiavam na areia branca da tarde modorrenta; as arraias faziam firulas, saracoteavam e se olhavam meneando o corpo e a cauda; as hastes de ferro de extremidade pontiaguda eram atiradas com força no chão marcando território no desenho das linhas como a fugir do jogador adversário ou ensaiando enclausurá-lo em simulacros do labirinto de Creta, desenhado em traços sinuosos.  Sempre aparecia uma Ariadne a dar palpites, lançando seu fio ao Teseu sertanejo. O companheiro de folguedos agradecia e continuava o jogo de lançar a haste de ferro no chão. Preocupações nenhuma. Lá para as bandas da serra, um sol, já mortiço, tingia de amarelo-queimado o céu manchado, aqui e ali, por pedaços de nuvens que mais pareciam tiradas das pinceladas angustiadas de Van Gogh... Era a hora crepuscular encerrando o dia e as brincadeiras.  Todos para casa. Era esperar a noite e dar continuidade ao sonho.
Tudo era gratuito. Brinquedos e brincadeiras saltavam, gratuitos, da imaginação e da necessidade; o dia, por si mesmo, atravessava, gratuito, as fronteiras do tempo; gratuita era nossa alegria gratuita. A tudo se davam graças silenciosas, enraizadas na alma infantil. É de se pensar que, gratuitamente, a tal felicidade estava conosco sem que disso tivéssemos consciência. A indústria do brinquedo ainda não punha às claras sua carantonha. Tudo era por nós fabricado.
 Eo tempore, multas gratias nobiscum habitabant... (Naquele tempo, muitas graças moravam conosco).
           


            

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