FIAPOS DA MEMÓRIA – IX
Hugo Martins
Tudo era
artesanal. Cavalgávamos as planícies do velho oeste montados em garbosos
corcéis. Não eram comprados, nem eram objeto de troca, tampouco capturados em
seu estado selvagem, domados e tornados criaturas dóceis ao comando de seus
donos. Não. Bastava uma carnaubeira ou um coqueiro... Colhidas as palhas, eram trabalhadas. Primeiro,
passávamos-lhes a faca, restando-lhes só o esqueleto, sem esquecer de deixar na
ponta alguns resquícios da palha que lembrassem uma cauda. Na outra ponta,
precisamente a “cabeça” da bizarra montaria, eram feitos dois cortes, e ali,
ficavam as orelhas do bicho. Depois, era
só colocar o cabresto e escolher a aventura.
Dias havia
em que perseguíamos os fora-da-lei, portando nossos revólveres e rifles feitos
de madeira. Quando não, com eles travávamos duelos nas ruas desertas de
pessoas, que espreitavam pelas frinchas das janelas de lojas, barbearias e
salons. Normalmente, vencia o confronto quem fosse mais rápido ao sacar a arma.
A encenação era inspirada na vida de alguns personagens do oeste selvagem, por
nós conhecidos da leitura de revistas em quadrinho nas quais figuravam Tom Mix,
Gene Autry, Roy Rogers e seu cavalo Tiger, Zorro e seu companheiro, Tonto, bem
como figuras de delinquentes e criminosos que, mais tarde, seriam romantizados
e heroificados, pelo cinema, como Bill the Kid, Jesse James e Wild Bill Hickoc.
Nossa imaginação ainda não fora desrespeitada pela indústria do ludismo
industrializado.
Também se
fabricavam trens. Bastava um pedaço estreito de madeira, martelo, pregos, latas
de leite em pó ou similar e bastante cocô de equinos e muares. Uma lata era
pregada, verticalmente, na extremidade da tábua e enchida de muito cocô, a que
ateávamos fogo... As demais, deitadas em
fila, sofriam, na parte abaulada, pequenos cortes quadrados a lembrar janelas,
simulavam vagões, ou eram mantidas íntegras, lembrando grandes containers. O
apito da maria-fumaça também era fabricado na hora. Ao se aproximar da estação,
o “maquinista” entrefechava a mão como se esta fosse um microfone e tirava da
garganta sons que lembravam o piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiipiuiiiiiiiiiiiiiii do trem ? Sua aproximação vagarosa e cadenciada era marcada por ruídos vocais
sugerindo o tiiiiiiisss, tiiiiiiisssss, tiiiiiiisssss, tiiiiiiiiiiissss.
Embarcávamos na locomotiva e íamos em busca de outros sonhos...
De fato, atravessada toda a lonjura
de planícies, serras, mata fechada, ao som do café-com-pão, café-com-pão,
café-com-pão, bolacha-não, estacionávamos num terreno baldio por trás da igreja
matriz e, lá, participávamos de outros banquetes lúdicos. As bolas de gude
bilabilavam; os piões e carrapetas desnudos rodopiavam na areia branca da tarde
modorrenta; as arraias faziam firulas, saracoteavam e se olhavam meneando o
corpo e a cauda; as hastes de ferro de extremidade pontiaguda eram atiradas com
força no chão marcando território no desenho das linhas como a fugir do jogador
adversário ou ensaiando enclausurá-lo em simulacros do labirinto de Creta,
desenhado em traços sinuosos. Sempre
aparecia uma Ariadne a dar palpites, lançando seu fio ao Teseu sertanejo. O
companheiro de folguedos agradecia e continuava o jogo de lançar a haste de
ferro no chão. Preocupações nenhuma. Lá para as bandas da serra, um sol, já
mortiço, tingia de amarelo-queimado o céu manchado, aqui e ali, por pedaços de
nuvens que mais pareciam tiradas das pinceladas angustiadas de Van Gogh... Era
a hora crepuscular encerrando o dia e as brincadeiras. Todos para casa. Era esperar a noite e dar
continuidade ao sonho.
Tudo era gratuito. Brinquedos e
brincadeiras saltavam, gratuitos, da imaginação e da necessidade; o dia, por si
mesmo, atravessava, gratuito, as fronteiras do tempo; gratuita era nossa
alegria gratuita. A tudo se davam graças silenciosas, enraizadas na alma
infantil. É de se pensar que, gratuitamente, a tal felicidade estava conosco
sem que disso tivéssemos consciência. A indústria do brinquedo ainda não punha
às claras sua carantonha. Tudo era por nós fabricado.
Eo tempore, multas gratias nobiscum habitabant...
(Naquele tempo, muitas graças moravam conosco).
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