quarta-feira, 24 de agosto de 2016

FIAPOS DE MEMÓRIA – XX
                                                  Hugo Martins
            Trouxe eu a lume, em dezenove textos, sobrepostos com o título em frontispício, alguns quadros narrativos em que intentei pintar, com tintas fugidias, momentos de minha infância na cidade de Itapipoca, enfocando pessoas, tipos e lugares que estão indelevelmente marcados naquele tempo em que me vi ser pensante capaz de enxergar e compreender algumas acontecências de mundo, mais tarde (hoje) resgatáveis pelos mecanismos da memória. Retratei mitômanos, loucos, bêbados, padres, paisagens físicas, paisagens psíquicas, estados d´alma... Esse período vai da abertura dos meus olhos e espírito para o mundo até o ano em que, com quase dez anos, minha família se mudou para Fortaleza. Muito há ainda para contar desse período. Prefiro, porém, parar por aqui, pois toda pausa traz repouso e propicia a abertura de novas reflexões sobre o que há para frente. Há muita coisa a resgatar. Aos dez anos de idade, a mudança de ambiente geográfico e a perspectiva de coisas novas por surgirem, é de bom alvitre que se faça como o cineasta que, com a câmara sobre o ombro e as ideiasna cabeça, como fazia cinema o baiano Gláuber Rocha, procurem-se nos cenários do mundo novos quadros, sejam ou não surpreendentes. O importante é fugir à monotonia como providência segura para emprestar novas cores, novas nuanças ao eterno devir das coisas, sem perder de vista não só a “aurora da vida”, época de doçuras e gratas satisfações mas também o que se lhe segue, as inevitáveis dores e amarguras do mundo. Afinal a marcha da vida é única, só se transmutam os cenários, os discursos, as verdades, as mentiras, os engodos, o teatro... Depois, vem a “indesejada das gentes” e fulmina todos os cenários e encenações. E fim de ato.
            Continuando a pescar no mar do passado novos quadros, novos tipos, novas paisagens, daremos continuidade às narrativas, substituiremos, no entanto, o título Fiapos da Memória por Reminiscências. O que dá no mesmo, e o que prova que vestimos as coisas do mundo com outras palavras-indumentárias, mas não  mudamos a essência semântica daquele, tampouco escondemos os variados palcos nele montados. Acho que o espírito galhofeiro de Machado de Assis, vez por outra, faz-me uma visita a “vol d´oiseau”, o que muito me envaidece, afinal todo homem é portador dessa virtude tão espancada pelo escritor carioca. Não posso fugir à regra, sob pena de a minha vaidade mais e mais inchar como a rã de La Fontaine.
            Quero crer que faço tais digressões porque hoje à tarde folheando as Memórias Póstumas, detive-me no capítulo II, em que Brás Cubas, atormentado com uma ideia de criar um emplasto (forma variante de emplastro) “anti-hipocondríaco para aliviar a nossa melancólica humanidade”, na verdade, não tinha em mente esse propósito nobre, pois confessa que o fazia, resumidamente, por amor à glória. “Tinha ele a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrima”. Trocando em miúdos: vaidade, vaidade, vaidade. Machado tem a virtude de mexer com minhas reflexões, de me fazer rir e chorar, isso ao mesmo tempo, pois coloca, nas páginas mais cortantes, uma espécie de espelho, que reflete quanto somos ridículos com as nossas vaidadesinhas cotidianas.
            Mas o que estou dizendo? De repente, o texto quis tomar outro rumo como se tivesse sido o redator tomado por um transe que lhe dirigia os pensamentos e não lhe dava chance alguma de tomar as próprias rédeas. Com essa reflexão, voltamos à vaca fria. Em outras palavras, deixar remarcado que, doravante, os textos que, por acaso, por sorte ou por esforço venha eu a produzir, não mais terão os pés fincados na cidade em que nasci. O cenário será outro: Fortaleza do resto de minha infância, somada à minha minha adolescência.
            Uma amiga que, casualmente, leu meu blog perguntou-me o porquê do escrever sobre assunto tão espinhoso que é o trazer à tona acontecimentos do passado. Respondi-lhe que por questão de comodidade. Os fatos ali estão gravados, pintados, esculpidos, sem nenhuma pretensão de recriar o passado. É bem certo que, vez ou outra, damos a alguns episódios ou quadros alguma pincelada de ficção, mas só para driblar a dificuldade de encontrar a palavra certa para emprestar maior precisão e nitidez ao que se pinta, pois, não se recorrendo ao artifício da ficção, perdemos a chance de acentuar as tonalidades mais diáfanas das paisagens... Além do mais, a infância é campo fértil onde se colhem os frutos que amadureceram e ficaram eternizados na memória como placas de bronze. É instância não atingida pelas intempéries da vida. Mesmo que o sujeito perca a razão (o senso), enlouqueça, adoeça, sofra, enfrente as adversidades da vida, padeça de males que atinjam a capacidade de relembrar fatos passados, pode ele pular alguns vivenciados em outros períodos de sua vida, mas os fatos ocorridos na infância são inapagáveis. Não é à toa a existência de um gênero literário a que se dá o nome de Memórias... Deixar de lado esse terreno é não ter nenhum talento para ali plantar a sua pena, a com que o indivíduo escreve e a com a qual lamenta ter ultrapassado essa faixa em que a vida parece ser mais cor-de-rosa. Desconfio ter usado uma metáfora batida. Mas por falta de outra mais apropriada. Além do mais, é catarse, é depuração, é exercício intelectual que ocupa nossas reflexões, impedindo-as de derivar para as vias da imbecilidade coletiva, tão deplorável e monótona.
            Até, pois, a próxima estação de outras relembranças...

            

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