FIAPOS DE MEMÓRIA – XX
Hugo Martins
Trouxe eu a
lume, em dezenove textos, sobrepostos com o título em frontispício, alguns
quadros narrativos em que intentei pintar, com tintas fugidias, momentos de
minha infância na cidade de Itapipoca, enfocando pessoas, tipos e lugares que
estão indelevelmente marcados naquele tempo em que me vi ser pensante capaz de
enxergar e compreender algumas acontecências de mundo, mais tarde (hoje)
resgatáveis pelos mecanismos da memória. Retratei mitômanos, loucos, bêbados,
padres, paisagens físicas, paisagens psíquicas, estados d´alma... Esse período
vai da abertura dos meus olhos e espírito para o mundo até o ano em que, com
quase dez anos, minha família se mudou para Fortaleza. Muito há ainda para
contar desse período. Prefiro, porém, parar por aqui, pois toda pausa traz
repouso e propicia a abertura de novas reflexões sobre o que há para frente. Há
muita coisa a resgatar. Aos dez anos de idade, a mudança de ambiente geográfico
e a perspectiva de coisas novas por surgirem, é de bom alvitre que se faça como
o cineasta que, com a câmara sobre o ombro e as ideiasna cabeça, como fazia
cinema o baiano Gláuber Rocha, procurem-se nos cenários do mundo novos quadros,
sejam ou não surpreendentes. O importante é fugir à monotonia como providência
segura para emprestar novas cores, novas nuanças ao eterno devir das coisas,
sem perder de vista não só a “aurora da vida”, época de doçuras e gratas
satisfações mas também o que se lhe segue, as inevitáveis dores e amarguras do
mundo. Afinal a marcha da vida é única, só se transmutam os cenários, os
discursos, as verdades, as mentiras, os engodos, o teatro... Depois, vem a
“indesejada das gentes” e fulmina todos os cenários e encenações. E fim de ato.
Continuando
a pescar no mar do passado novos quadros, novos tipos, novas paisagens, daremos
continuidade às narrativas, substituiremos, no entanto, o título Fiapos da
Memória por Reminiscências. O que dá no mesmo, e o que prova que vestimos as
coisas do mundo com outras palavras-indumentárias, mas não mudamos a essência semântica daquele,
tampouco escondemos os variados palcos nele montados. Acho que o espírito
galhofeiro de Machado de Assis, vez por outra, faz-me uma visita a “vol
d´oiseau”, o que muito me envaidece, afinal todo homem é portador dessa virtude
tão espancada pelo escritor carioca. Não posso fugir à regra, sob pena de a
minha vaidade mais e mais inchar como a rã de La Fontaine.
Quero crer
que faço tais digressões porque hoje à tarde folheando as Memórias Póstumas,
detive-me no capítulo II, em que Brás Cubas, atormentado com uma ideia de criar
um emplasto (forma variante de emplastro) “anti-hipocondríaco para aliviar a
nossa melancólica humanidade”, na verdade, não tinha em mente esse propósito
nobre, pois confessa que o fazia, resumidamente, por amor à glória. “Tinha ele
a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrima”. Trocando em miúdos:
vaidade, vaidade, vaidade. Machado tem a virtude de mexer com minhas reflexões,
de me fazer rir e chorar, isso ao mesmo tempo, pois coloca, nas páginas mais
cortantes, uma espécie de espelho, que reflete quanto somos ridículos com as
nossas vaidadesinhas cotidianas.
Mas o que
estou dizendo? De repente, o texto quis tomar outro rumo como se tivesse sido o
redator tomado por um transe que lhe dirigia os pensamentos e não lhe dava
chance alguma de tomar as próprias rédeas. Com essa reflexão, voltamos à vaca
fria. Em outras palavras, deixar remarcado que, doravante, os textos que, por
acaso, por sorte ou por esforço venha eu a produzir, não mais terão os pés
fincados na cidade em que nasci. O cenário será outro: Fortaleza do resto de
minha infância, somada à minha minha adolescência.
Uma amiga
que, casualmente, leu meu blog perguntou-me o porquê do escrever sobre assunto
tão espinhoso que é o trazer à tona acontecimentos do passado. Respondi-lhe que
por questão de comodidade. Os fatos ali estão gravados, pintados, esculpidos,
sem nenhuma pretensão de recriar o passado. É bem certo que, vez ou outra, damos
a alguns episódios ou quadros alguma pincelada de ficção, mas só para driblar a
dificuldade de encontrar a palavra certa para emprestar maior precisão e
nitidez ao que se pinta, pois, não se recorrendo ao artifício da ficção,
perdemos a chance de acentuar as tonalidades mais diáfanas das paisagens...
Além do mais, a infância é campo fértil onde se colhem os frutos que
amadureceram e ficaram eternizados na memória como placas de bronze. É
instância não atingida pelas intempéries da vida. Mesmo que o sujeito perca a
razão (o senso), enlouqueça, adoeça, sofra, enfrente as adversidades da vida,
padeça de males que atinjam a capacidade de relembrar fatos passados, pode ele
pular alguns vivenciados em outros períodos de sua vida, mas os fatos ocorridos
na infância são inapagáveis. Não é à toa a existência de um gênero literário a
que se dá o nome de Memórias... Deixar de lado esse terreno é não ter nenhum
talento para ali plantar a sua pena, a com que o indivíduo escreve e a com a
qual lamenta ter ultrapassado essa faixa em que a vida parece ser mais
cor-de-rosa. Desconfio ter usado uma metáfora batida. Mas por falta de outra
mais apropriada. Além do mais, é catarse, é depuração, é exercício intelectual
que ocupa nossas reflexões, impedindo-as de derivar para as vias da
imbecilidade coletiva, tão deplorável e monótona.
Até, pois, a
próxima estação de outras relembranças...
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