terça-feira, 30 de agosto de 2016

PINÓQUIOS VIVOS E REDIVIVOS
                                                                      Hugo Martins
            O projeto é simples: registrar, não à moda diário, mas com a feição de texto memorialístico, passagens de minha estada no mundo quando menino de calças curtas e suspensórios, vivendo em Itapipoca até os dez anos de idade.
            Já ensaiei publicar em meu blog (o Face é só espaço motivador) vinte textos com sabor de relembranças, aos quais atribuí o título Fiapos da Memória. Há tempos espero o espírito engravidar para continuar a produção, levando em conta, agora, a cidade de Fortaleza nos inícios de minha adolescência. Sim, espero, com paciência e fleuma bovinas, mas continuo estéril. Enquanto isso, vou garatujando as páginas recorrendo àquilo que vejo no mundo, sobretudo no que tem ele de tragicômico e mentiroso.
            Embora entregue a uma infrene atividade intelectual nesses dois últimos meses, não consigo fugir ao mundo e a seu espetáculo. Às vezes, quando intento recrear o espírito vendo algum filme no NETFLIX, dou uma olhada na programação televisiva e, fatalmente, vejo-me tomado pelas emoções da propaganda eleitoral gratuita. Não me contenho e a ela assisto a ver os discursos e falas, procurando desencavar nelas as intenções nobres dos candidatos. As performances são dignas de atores que cursaram o Actors Studio, por onde passaram Marlon Brando, Paul Newman, Sal Míneo e tantos outros atores hollywoodianos de reconhecida nomeada. As figuras são engraçadas, bisonhas, divertidas...
            Uma senhora loura, de cabelos bastos e escorridos nos ombros, com ar de adolescente protagonista de comédias românticas em filmes melosos, aparece com largo sorriso, lembrando já ter administrado a cidade por duas vezes e dizendo que quer mais. Ela quer cuidar das pessoas. Bonitim mermo. Naqueles oito anos, ela parece não ter conseguido fazer lá grande coisa, pois quer mais quatro para continuar a fazer o que mesmo?
            Um sujeito, com ar de rapazola, aproveitando-se da violência reinante aí às nossas fuças, bem como da incompetência do poder público para lidar com o problema, monta no discurso do “combate à violência” como se esta pudesse ser eliminada com a recorrência à pleonástica violência pela violência. Pensar por aí é patentear despreparo por carência de reflexão científica. Onde anda a Sociologia? Onde andam os educadores? Por que não recorrer às universidades, lugar de pensamento? Não bastam quartéis e tropas na rua. Sempre que me vem ao pensamento como a Alemanha, a Itália e o Japão saíram da Segunda Guerra Mundial, lembro que o remédio que soergueu essas nações foi a alocação de muitos e sobejos recursos em prol da educação. Aí está, argumento batido, discutido e sempre lembrado. Mas sempre tão esquecido e desprezado. Quer dizer, o discurso do rapazinho é ingênuo porque sustentado na evidência de que o povo crê piamente nas soluções arrotadas com cheiro de coronelismo ultrapassado. Cheiro de caserna ainda faz mal ao povo brasileiro...
            Depois, um baixote, com ar de Dr. Silvana (inimigo do Capitão Marvel), com a cabeça lembrando um queijo coalho recém-saído da prensa, de fala melíflua, recorre ao mesmo discurso de que vai continuar o que vem fazendo pela mobilidade urbana da cidade, afora a intensificação da iluminação. Seu vice, sujeito useiro e vezeiro em candidatar-se e sair vencido nas disputas municipais, também tem o vezo de recorrer ao argumento do combate à violência pela violência. Uma ocasião, candidatando-se a governador, empunhava a frase sábia e inteligente de que “combateria a violência com uma 45 na mão e um 38 na outra.” Lengalenga, conversa fiada, mesmice discursiva.
            Estes e outros de menor expressividade partidária nunca põem às claras a preocupação em voltar-se para outros dois problemas básico que deveriam figurar como matéria principal de suas falas: a educação e a saúde. Não só como alusão, mas pondo na mesa os projetos de como priorizar e fazer alcançar os objetivos neles descritos. Pouco adianta desejar “cuidar das pessoas” tomando a locução apenas como apêndice de má e repetida retórica.
            Quando qualquer cidadão faz observações críticas à atuação dos políticos partidários por ocasião da campanha eleitoral, visando ao atingimento de um cargo eletivo, alguns filisteus hipócritas desencavam um argumento cretinoide, sacando estas sábias palavras: “por que você não se coloca no lugar deles e faz o que você mesmo propõe?” Argumento simplório, que não enxerga a questão do talento. São poucas as pessoas que ostentam alguma vocação para performances teatrais. Estas ficam para os caras de pau, aqueles de fala mansa e sorriso fácil. Para aqueles que, em campanha, bebem cachaça com o povo ao pé de balcões, colocam nos braços crianças humildes, maltratadas, encardidas e catarrentas. É tarefa hercúlea para aqueles que, em desfile pelas ruas e praças, apertam, com asco, a mão calejada do povo humilde e, depois, de bem lavadas com sabão, nelas passam álcool. Enfim, o sujeito tem de ser senhor de traquejos mentirosos, apanágio de quem tem talento para embair, para mentir, para enganar. Passadas as eleições, babau: o pano cai, os atores e figurantes deixam a cena...
            Em verdade, em verdade, vos digo, diria o profeta: “Quando fordes tirar a barba, não esqueçais dessa sabedoria imorredoura: no lugar de passar loção pós-barba na cara de pau, passai ÓLEO DE PEROBA. É preciso coerência.
                         
           
           

            

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