sábado, 20 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA - XVI
                                                      Hugo Martins

            Hoje, primeira aula de língua grega, o professor me pergunta o porquê de eu decidir estudar grego. Simplesmente amor pela palavra, pelo mundo e pelo conúbio entre uma e outro. Lógos, verbum,  mot, parola, world, palavra, elas  retratam e refletem   o mundo em todas as suas instâncias. Amo-as, não importa a que língua pertençam. São a minha grande paixão. Daí a desmedida devoção a elas desde o tempo em que era eu menino de calças curtas e suspensórios, morando na cidade de Itapipoca até os idos do ano de 1958. Lembro-me nitidamente do começo de minha paixão por elas. Embora não dispuséssemos de biblioteca em nossa casa, tampouco existisse tal coisa no município, dentro de nossa casa havia o exemplo vivo de nossa mãe, cuja influência iria irradiar-se no espírito de todos nós. Nossos irmãos, sem exceção, gostavam e gostam de ler. A velha era apaixonada por leitura e sempre era vista de olhos grelados em alguma página impressa. O material para leitura não era rico. Constituía-se de revistas em quadrinhos, fotonovelas, romances folhetinescos e um ou outro livro de cunho aparentemente científico, além dos livros didáticos como a Crestomatia e a Nova Seleta... De qualquer modo era material de leitura.
            Alfabetizado (palavra formada das duas primeiras letras do alfabeto grego, alfa e beta), já folheava algum material impresso que me surgisse aos olhos. Assim é que, vendo meu interesse, minha mãe, toda vez que vinha a Fortaleza, trazia-me uma revista. Na época, não havia referido material na cidade acanhada de Itapipoca. Que lia eu? Os chamados gibis. Revistas que retratavam o oeste selvagem da América do Norte (Roy Rogers, Dom Chicote, Gene Autry, Tom Mix, Zorro; revistas de conteúdo apologético a dados heróis fictícios da vida norte-americana) Superman e Batman; publicações retratando o mundo das crianças (Luluzinha, Bolinha, Carequinha, Aninha, Zeca, a Turma da Zona Norte; e outras como O Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey; por fim, as que decantavam o neocolonialismo americano na África (Tarzan e Antar, a primeira, a desenho; a outra à moda fotonovela...). Quem me encontrasse, sempre me veria isolado, sobraçando alguma dessas revistas; como hoje, onde quer que me encontre, algum livro me faz companhia. Tinha mania de colecioná-los  como fazia, antes, com elas.
            Nunca larguei o gosto por ler revistas em quadrinhos embora, pouco tempo depois, tenha eu experimentado uma evolução: comecei a ler também fotonovelas. Havia muitas lá por casa. Além de minha mãe, tinha minhas oito irmãs... Mulheres, mulheres, o maior alvo.  Desse modo, comecei a entrar no mundo em que só há felicidades. A temática é a mesma, e o casamento era a solução para qualquer problema que a mulher enfrentasse. Havia até mesmo uma revista de nome Querida (li muito), cujo conteúdo apregoava uma ideologia de que a mulher era o sexo frágil e, por isso, havia para ela um papel social a desempenhar: escrava do homem, devotada ao lar, aos filhos e a todas as tarefas e problemas domésticos. As outras fotonovelas, algumas estrangeiras, assentavam-se na temática do amor como solução para tudo. Assim, retratavam casos, calcados no tripé: mocinha pobre, porém virtuosa; rapaz rico, de coração nobre que, em nome do amor, enfrentaria qualquer obstáculo; pai tirano, que não aceitava a união da filha amada (proprietário não se deve descuidar) com um plebeu ou pé-rapado (preconceito?). Alguma coincidência com o modelo literário/teatral de Romeu e Julieta? Às vezes, o rapazelho pretensioso conquistava as graças do pai da donzela, não pela sabujice subserviente, mas pela virtude, traduzida na vontade trabalhar, estudar, esforçar-se e vencer na vida (que diabo é isso?) bem a gosto das ideologias burguesas. Pois bem, na mais tenra idade, eu já me debruçava nesse mundo hoje enfocado pelas telenovelas, pelo cinema e pela subliteratura. Dessa maneira, eis aí a “bibliografia” formadora de bovaristas e sonhadoras: Grande Hotel, Capricho, Sétimo Céu e outras do mesmo jaez. Ainda hoje lembro o casal romântico da revista Grande Hotel. Tratava-se do par amoroso Sandro Moretti e Michelle Morgan. Eram atores cinematográficos sem nenhum talento, mas fotogravam bem, sobretudo por ostentarem a beleza que encantava às moçoilas casadoiras e doidivanas.
            Quanto a livros, lembro de uma publicação de nome Corin Telado (nunca atinei para a significação dessa locução). Telado por que e de quê? Bem sei que tratava de questões semelhantes, no tema e na linguagem, às abordadas pelas fotonovelas. Havia um livro a que menores de idade não podiam ter acesso, pois seu conteúdo era impróprio,  enfocava a questão sexual. Era o livreto Relações Sexuais entre Solteiros e Casados. Não sei se nesse assunto havia alguma diferença. Hoje é fácil inferir: era escrito por um padre. Lá em casa, o livro era arrolado no index librorum prohibitorum (índice de livros proibidos), criado pela hipocrisia da igreja católica, que tentou assassinar até mesmo alguns livros da grande literatura, como, por exemplo, Madame Bovary, do romancista francês Gustave Flaubert. Consegui burlar a vigilância e os cuidados de minha mãe e terminei por ler o livro proibido. Aqui me vem à mente, uma reflexão de Melanie Klein, psicanalista austríaca, que diz mais ou menos assim: “a árvore do conhecimento tem expulsado muita gente de muitos paraísos”. Não fui fisicamente expulso de lugar nenhum, mas aplicaram-me o epíteto de curioso, e sofri duras admoestações de minha mãe quando descobriu meu grave “pecado”...
            Passados os anos, vinda a maturidade e a evolução intelectual, meu amor aos livros nunca arrefeceu. Continua o mesmo, cúpida e ardentemente alimentado a todo momento e a toda hora em que não me ocupo de coisas menos graves. Há na palavra um pirlimpimpim mágico, envolvente e embriagador, que nos coloca frente a frente aos enigmas da existência, que seriam mais indecifráveis sem a luz que dimana refulgente da palavra, sobretudo da escrita, que nos proporciona tempo de refletir e mantém alguns espécimes humanos de nós afastados na justa medida das latitudes e longitudes espaciais e sociais.
Ave, palavra!!!
           

             

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