FIAPOS
DA MEMÓRIA - XVI
Hugo
Martins
Hoje, primeira aula de língua grega, o professor me
pergunta o porquê de eu decidir estudar grego. Simplesmente amor pela palavra,
pelo mundo e pelo conúbio entre uma e outro. Lógos, verbum,
mot,
parola, world, palavra, elas retratam e
refletem o mundo em todas as suas
instâncias. Amo-as, não importa a que língua pertençam. São a minha grande
paixão. Daí a desmedida devoção a elas desde o tempo em que era eu menino de
calças curtas e suspensórios, morando na cidade de Itapipoca até os idos do ano
de 1958. Lembro-me nitidamente do começo de minha paixão por elas. Embora não dispuséssemos
de biblioteca em nossa casa, tampouco existisse tal coisa no município, dentro
de nossa casa havia o exemplo vivo de nossa mãe, cuja influência iria
irradiar-se no espírito de todos nós. Nossos irmãos, sem exceção, gostavam e
gostam de ler. A velha era apaixonada por leitura e sempre era vista de olhos
grelados em alguma página impressa. O material para leitura não era rico.
Constituía-se de revistas em quadrinhos, fotonovelas, romances folhetinescos e
um ou outro livro de cunho aparentemente científico, além dos livros didáticos
como a Crestomatia e a Nova Seleta... De qualquer modo era material de leitura.
Alfabetizado (palavra formada das duas primeiras letras
do alfabeto grego, alfa e
beta), já folheava algum
material impresso que me surgisse aos olhos. Assim é que, vendo meu interesse,
minha mãe, toda vez que vinha a Fortaleza, trazia-me uma revista. Na época, não
havia referido material na cidade acanhada de Itapipoca. Que lia eu? Os
chamados gibis. Revistas que retratavam o oeste selvagem da América do Norte
(Roy Rogers, Dom Chicote, Gene Autry, Tom Mix, Zorro; revistas de conteúdo
apologético a dados heróis fictícios da vida norte-americana) Superman e
Batman; publicações retratando o mundo das crianças (Luluzinha, Bolinha,
Carequinha, Aninha, Zeca, a Turma da Zona Norte; e outras como O Pato Donald,
Tio Patinhas, Mickey; por fim, as que decantavam o neocolonialismo americano na
África (Tarzan e Antar, a primeira, a desenho; a outra à moda fotonovela...).
Quem me encontrasse, sempre me veria isolado, sobraçando alguma dessas
revistas; como hoje, onde quer que me encontre, algum livro me faz companhia.
Tinha mania de colecioná-los como fazia, antes, com elas.
Nunca larguei o gosto por ler revistas em quadrinhos
embora, pouco tempo depois, tenha eu experimentado uma evolução: comecei a ler
também fotonovelas. Havia muitas lá por casa. Além de minha mãe, tinha minhas
oito irmãs... Mulheres, mulheres, o maior alvo. Desse modo, comecei a entrar no mundo em que
só há felicidades. A temática é a mesma, e o casamento era a solução para
qualquer problema que a mulher enfrentasse. Havia até mesmo uma revista de nome
Querida (li muito), cujo conteúdo apregoava uma ideologia de que a mulher era o
sexo frágil e, por isso, havia para ela um papel social a desempenhar: escrava
do homem, devotada ao lar, aos filhos e a todas as tarefas e problemas domésticos.
As outras fotonovelas, algumas estrangeiras, assentavam-se na temática do amor
como solução para tudo. Assim, retratavam casos, calcados no tripé: mocinha
pobre, porém virtuosa; rapaz rico, de coração nobre que, em nome do amor,
enfrentaria qualquer obstáculo; pai tirano, que não aceitava a união da filha
amada (proprietário não se deve descuidar) com um plebeu ou pé-rapado
(preconceito?). Alguma coincidência com o modelo literário/teatral de Romeu e
Julieta? Às vezes, o rapazelho pretensioso conquistava as graças do pai da
donzela, não pela sabujice subserviente, mas pela virtude, traduzida na vontade
trabalhar, estudar, esforçar-se e vencer na vida (que diabo é isso?) bem a
gosto das ideologias burguesas. Pois bem, na mais tenra idade, eu já me
debruçava nesse mundo hoje enfocado pelas telenovelas, pelo cinema e pela
subliteratura. Dessa maneira, eis aí a “bibliografia” formadora de bovaristas e
sonhadoras: Grande Hotel, Capricho, Sétimo Céu e outras do mesmo jaez. Ainda
hoje lembro o casal romântico da revista Grande Hotel. Tratava-se do par
amoroso Sandro Moretti e Michelle Morgan. Eram atores cinematográficos sem
nenhum talento, mas fotogravam bem, sobretudo por ostentarem a beleza que
encantava às moçoilas casadoiras e doidivanas.
Quanto a livros, lembro de uma publicação de nome Corin
Telado (nunca atinei para a significação dessa locução). Telado por que e de
quê? Bem sei que tratava de questões semelhantes, no tema e na linguagem, às
abordadas pelas fotonovelas. Havia um livro a que menores de idade não podiam ter
acesso, pois seu conteúdo era impróprio, enfocava a questão sexual. Era o
livreto Relações Sexuais entre Solteiros e Casados. Não sei se nesse assunto
havia alguma diferença. Hoje é fácil inferir: era escrito por um padre. Lá em
casa, o livro era arrolado no index librorum prohibitorum (índice de livros
proibidos), criado pela hipocrisia da igreja católica, que tentou assassinar
até mesmo alguns livros da grande literatura, como, por exemplo, Madame Bovary,
do romancista francês Gustave Flaubert. Consegui burlar a vigilância e os
cuidados de minha mãe e terminei por ler o livro proibido. Aqui me vem à mente, uma
reflexão de Melanie Klein, psicanalista austríaca, que diz mais ou menos assim:
“a árvore do conhecimento tem expulsado muita gente de muitos paraísos”. Não
fui fisicamente expulso de lugar nenhum, mas aplicaram-me o epíteto de curioso,
e sofri duras admoestações de minha mãe quando descobriu meu grave “pecado”...
Passados os anos, vinda a maturidade e a evolução
intelectual, meu amor aos livros nunca arrefeceu. Continua o mesmo, cúpida e
ardentemente alimentado a todo momento e a toda hora em que não me ocupo de
coisas menos graves. Há na palavra um pirlimpimpim mágico, envolvente e
embriagador, que nos coloca frente a frente aos enigmas da existência, que
seriam mais indecifráveis sem a luz que dimana refulgente da palavra, sobretudo
da escrita, que nos proporciona tempo de refletir e mantém alguns espécimes
humanos de nós afastados na justa medida das latitudes e longitudes espaciais e
sociais.
Ave, palavra!!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário