FIAPOS DA MEMÓRIA – XVIII
Hugo Martins
Em outro
texto, dizia eu que, nas férias escolares, minha mãe enviava a mim e meu irmão
José Élmer para a casa de meu avô, em Paracuru, ou para a casa de nossa tia
Iolanda, no distrito de Jardim, próximo a Paracuru. Se aqui convivíamos com a
simpática austeridade de seu Tonho Barroso, no Jardim, encontrávamos maior
liberdade para expandir nossa meninice. Minha tia Iolanda era do tipo que
deixava “correr frouxo”, não ligava muito para alguns excessos que
praticávamos. Tinha ela a intuição de que menino nasceu para brincar, para
soltar as asas, para viver a vida sem amarras limitadoras. Tia Iolanda era
pessoa a quem podíamos aplicar o epíteto “gente boa.”
Saíamos de
Itapipoca pela manhã, encarapitados na carga de um caminhão misto, aquele que
faz serviço de transporte de carga e de passageiros. Chegávamos a Croatá por
volta das três horas da tarde. Descíamos e ficávamos a esperar o caminhão de
seu Valmir. Entre dezessete e trinta e dezoito horas, descíamos na beira da
rodagem e caminhávamos no estirão de três quilômetros de areia fofa, suportando
picadas de mutucas. Já escuro chegávamos à casa de tia Iolanda e tio Zeca. Era
uma casa antiga com um grande terreiro à frente. Nos fundos, um sem número de
árvores frutíferas, misturadas ao coqueiral, de onde se avistava um canavial
sem fim, atravessado por levadas, pequenos riachos que corriam nas regueiras...
Não havia energia elétrica, e a casa ficava tomada de sombras estranhas por
conta das lamparinas bruxuleantes, colocadas em locais estratégicos. Na
cozinha, grandes achas de lenha ardiam no fogão, fazendo ferver a água
da grande e preta chaleira de ferro. Maria Preta fazia tapiocas, tio Zeca se
balançava numa rede de corda, fumando seu cigarrinho, e tia Iolanda a nos fazer
perguntas de hospedeira simpática. Jantávamos o que era servido e, pouco
depois, estávamos entregues ao sono, embalado pela ventania que crispava as
folhas chiantes do canavial.
De um lado da casa grande, havia uma casa de farinha; do
outro, um engenho tipo banguê, isto é, puramente artesanal, onde só se
fabricava rapadura. Aliás, o romancista paraibano José Lins do Rego publicou
livro com esse título. Em outros tempos, a moenda era movida com força animal,
uma grande almanjarra, em cujas pontas se amarrava um burro em que ia montado
um menino. À medida que o animal, açoitado pelo menino, movia-se, a almanjarra
fazia funcionar aquele mecanismo que esmagava a cana, produzindo a garapa para
o fabrico da rapadura. Agora, às cinco da manhã, em época de moagem, ouve-se o
rugir de um motor que dá maior celeridade ao serviço. Já cedo, o povo se
aproximava para embeber a boa garapa, entornando o líquido doce com o auxílio
de uma cuia ou uma coité (ou cuité), que ficava à disposição de quem quisesse
saborear o nutritivo caldo. Quando o mel era entornado nos alguidares, sempre
aparecia alguém com um pedaço de cana raspado. Colocava-o dentro da vasilha e
retirava-o untado de mel para, em seguida, com as mãos antes mergulhadas em
goma, fazer puxa-puxa ou alfenim. À tardinha, terminados os trabalhos, os meninos
disputavam, entre muitos, em que jumento montar para conduzi-los à levada para
o banho. Era uma festa, pois apostavam corrida, além de ver quem se mantinha
mais tempo sobre o lombo do animal quando este começava a pular e a peidar,
estimulado por cutucões nas partes mais sensíveis, ancas, lombos e pescoço. Era
um divertimento impagável...
O jantar era
servido ao fim da tarde. À noite, a meninada das proximidades aparecia. Ficávamos
na calçada ou correndo na areia fria. Às vezes, surgiam desavenças, que
findavam em brigas de tapa. Outras vezes, íamos para uma bodega próxima,
iluminada por grandes faróis que provocavam um ruído estranho, semelhante a um
sopro contínuo. No balcão, os homens tomavam cachaça e jogavam bozó; do lado de
fora, outros, sentados num tronco de carnaubeira, sustentado em duas forquilhas
enfiadas no chão. Os meninos brincavam de esconde-esconde, contavam lorotas ou
ficavam ouvindo histórias de Trancoso, contadas por seu Alfredo, uma bichona
que andava de calças curtas (na época ainda não se falava de bermudas), fumava
cachimbo de barro, bebia uma cachaça amuada e era dado a contar mentiras. Lá
pelas nove horas, tomávamos o caminho de casa. Nada nos amedrontava, e
voltávamos para casa cantando Menino de Braçanã: “É tarde, já vou indo, preciso
ir-me embora, té manhã/ mamãe quando parti, disse fio, não demore em
Braçanã...” Bela canção da lavra de Luiz Vieira. Tudo era cor-de-rosa. Tudo
pureza. Só alegria de viver na doce despreocupação com o que quer que fosse...
Quando
saíamos armados com nossas baladeiras para caçar passarinhos, éramos advertidos
de que levássemos no bolso um pedaço de fumo de rolo, pois o Caipora podia
aparecer e pedir o fumo. Quem não portasse ou tivesse em seu poder um só pedaço
e se negasse a dar, o Caipora poderia matar o caçador, fazendo nele muitas
cócegas... Ora, não acreditávamos muito na coisa, pois havia entre nós um pacto
que consistia em atirar nas avezinha, mas não matá-las. Parecia que todos,
tacitamente, aplaudiam o acordo. Não havia sentido tirar a vida dos que voam em
liberdade e encantam a vida com seu canto, como o canário belga que, todo santo
dia, pousava nas palhas do coqueiro da casa de minha tia e assobiava e assobiava,
e inventava acordes de todos os moldes, fazendo com que parássemos o que
estivéssemos fazendo só para ouvir o danado encantador. Sempre jurei de mãos
postas, e isso faço agora, que nunca matei um só passarinho. Tenho por eles
ternura antiga e especial. Muita vontade tinha eu, se pudesse, de soltar
passarinhos de seus cativeiros e nestes colocar os putos que ali os encerraram...
Eis o painel
de um momento de minha infância quando era eu menino de calças curtas e
suspensórios, vivendo na cidade de Itapipoca e dela, vez em quando,
ausentando-me, para, nas férias escolares, redescobrir novos encantos dessa
faixa da existência em que, como diz Ataulfo Alves, na canção Meus Tempos de
Criança, “eu era feliz e não sabia”.
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