FIAPOS DA MEMÓRIA – XIII
Hugo Martins
Narrativas memorialísticas
não podem prescindir de acontecimentos atinentes a episódios da vida escolar,
envolvendo professores e alunos. Alguns fatos envolvendo esses personagens se
fixam de tal modo na cachola que, trazidos à baila, dão a impressão de que que
se transportam ao presente como fatos contemporâneos inapagáveis, pois envoltos
em saboroso gosto de eternidade. Colados à infância, parecem tatuagens
intangíveis que rutilam no mundo feérico e maravilhoso dessa época tão cara aos
seres humanos. Em si prosaicos, para o memorialista, porém, sublimes. É o que
basta.
Término do
ano letivo. Entrega de boletins. Expectativa do bom êxito. Caminho de casa.
Alegria incontida. O garoto entre em casa e dirige-se ao pai. Este era
conhecido como um poço de ceticismo e descrença no ser humano. Era homem dado a
estudos e reflexões, hauridos em leituras diárias e demoradas. Diziam
deliciar-se com qualquer prato, em especial, com as delícias da literatura e com
a grave sisudez agridoce da filosofia. Interessava-se, em regra geral, por
qualquer superfície em que estivesse grafado algum texto. Ia dos para-choques
de caminhão, das revistas em quadrinho aos alentados tratados em que se
enfocassem os problemas humanos de todo jaez. Enfim, era um “viciado” em
caracteres gráficos. Para ele, qualquer texto, não interessa a capa em que
estivesse envolto, era noticiador do mundo e, portanto, passível de investidas
interpretativas. Pois bem. Fechou o livro, depôs a caneta sobre o birô e
recebeu, festivo, o filho, em cujo olhar faiscavam chispas de contentamento. O
rapazola vinha dar ao pai notícia alvissareira. O homem era todo ouvidos. O
garoto anunciou: “pai, este ano fui o terceiro colocado em desempenho escolar.
O pai exultou, abraçou o filho e fez a pergunta inevitável: “meu filho, quantos
alunos na turma? ” O cretino respondeu: “Três!” História contada pelo pai...
O professor
desenvolvia no quadro-negro (hoje é quadro-branco) um problema de álgebra. Na
carteira, o aluno acompanhava, tendo aberto sobre os joelhos um exemplar do livro-do-professor,
com as indefectíveis respostas. Lá ia o professor, jogando letras, cortando
números, acrescentado “ses” e “dondes”, até que chega ao resultado. Do grande “catatau”,
jargão comum aos professores de matemática quando se referem ao tamanho do
problema a ser resolvido, o mestre escreveu, depois do sinal de igualdade: NP. O
aluno sádico, com o espírito maquiado com a antológica maldade humana, ergue o
dedo indicador e acrescenta: “professor, já vi esse problema resolvido em outro
lugar, e o resultado é MP e não NP...” O mestre, justificando seu despreparo,
lança mão do apagador e deleta o NP, acrescenta o MP e joga um argumento
irretorquível: “ é verdade. Não me lembrava de que antes de P e B só se escreve
M.
Em dada
ocasião, durante a aula de matemática, em que o professor resolvia uma questão
envolvendo a chamada função quadrática, aquela de que resulta o gráfico da
parábola, o aluno maldoso e pouco dado à reflexão, ergue a mão e faz a seguinte
indagação: “professor, para que servem mesmo os problemas de matemática”? O
professor, não sei se por não saber responder ou, quem sabe, para calar o
inoportuno, respondeu: “meu caro, pra você não sei para que servem: para mim me
servem muito para ganhar algum dinheiro e sustentar a família... Essa é boa.
Na aula de
Introdução à Ciência, o professor faz arguição. Um determinado aluno é chamado.
O professor pergunta: “fulano, o que é um átomo?” O
aluno olhou acanhado para o professor, juntou as duas mãos, dando a cada uma a
forma de uma concha, mostrou ao professor e acrescentou este brilhante comentário:
“professor, o átomo é um negócio tão pequeno, mas tão pequeno, que, se eu tiver
aqui nas mãos uma ruma deles, o senhor não enxergará nenhum” (?)... Perplexo, o
mestre aduziu: “meu querido, vou lhe dar um rotundo ZERO por sua miopia...”
“Nada a
declarar.”
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