quarta-feira, 17 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – XIII
                                                                       Hugo Martins

            Narrativas memorialísticas não podem prescindir de acontecimentos atinentes a episódios da vida escolar, envolvendo professores e alunos. Alguns fatos envolvendo esses personagens se fixam de tal modo na cachola que, trazidos à baila, dão a impressão de que que se transportam ao presente como fatos contemporâneos inapagáveis, pois envoltos em saboroso gosto de eternidade. Colados à infância, parecem tatuagens intangíveis que rutilam no mundo feérico e maravilhoso dessa época tão cara aos seres humanos. Em si prosaicos, para o memorialista, porém, sublimes. É o que basta.
            Término do ano letivo. Entrega de boletins. Expectativa do bom êxito. Caminho de casa. Alegria incontida. O garoto entre em casa e dirige-se ao pai. Este era conhecido como um poço de ceticismo e descrença no ser humano. Era homem dado a estudos e reflexões, hauridos em leituras diárias e demoradas. Diziam deliciar-se com qualquer prato, em especial, com as delícias da literatura e com a grave sisudez agridoce da filosofia. Interessava-se, em regra geral, por qualquer superfície em que estivesse grafado algum texto. Ia dos para-choques de caminhão, das revistas em quadrinho aos alentados tratados em que se enfocassem os problemas humanos de todo jaez. Enfim, era um “viciado” em caracteres gráficos. Para ele, qualquer texto, não interessa a capa em que estivesse envolto, era noticiador do mundo e, portanto, passível de investidas interpretativas. Pois bem. Fechou o livro, depôs a caneta sobre o birô e recebeu, festivo, o filho, em cujo olhar faiscavam chispas de contentamento. O rapazola vinha dar ao pai notícia alvissareira. O homem era todo ouvidos. O garoto anunciou: “pai, este ano fui o terceiro colocado em desempenho escolar. O pai exultou, abraçou o filho e fez a pergunta inevitável: “meu filho, quantos alunos na turma? ” O cretino respondeu: “Três!” História contada pelo pai...
            O professor desenvolvia no quadro-negro (hoje é quadro-branco) um problema de álgebra. Na carteira, o aluno acompanhava, tendo aberto sobre os joelhos um exemplar do livro-do-professor, com as indefectíveis respostas. Lá ia o professor, jogando letras, cortando números, acrescentado “ses” e “dondes”, até que chega ao resultado. Do grande “catatau”, jargão comum aos professores de matemática quando se referem ao tamanho do problema a ser resolvido, o mestre escreveu, depois do sinal de igualdade: NP. O aluno sádico, com o espírito maquiado com a antológica maldade humana, ergue o dedo indicador e acrescenta: “professor, já vi esse problema resolvido em outro lugar, e o resultado é MP e não NP...” O mestre, justificando seu despreparo, lança mão do apagador e deleta o NP, acrescenta o MP e joga um argumento irretorquível: “ é verdade. Não me lembrava de que antes de P e B só se escreve M.
            Em dada ocasião, durante a aula de matemática, em que o professor resolvia uma questão envolvendo a chamada função quadrática, aquela de que resulta o gráfico da parábola, o aluno maldoso e pouco dado à reflexão, ergue a mão e faz a seguinte indagação: “professor, para que servem mesmo os problemas de matemática”? O professor, não sei se por não saber responder ou, quem sabe, para calar o inoportuno, respondeu: “meu caro, pra você não sei para que servem: para mim me servem muito para ganhar algum dinheiro e sustentar a família... Essa é boa.
            Na aula de Introdução à Ciência, o professor faz arguição. Um determinado aluno é chamado. O professor pergunta: “fulano, o que é um átomo?”   O aluno olhou acanhado para o professor, juntou as duas mãos, dando a cada uma a forma de uma concha, mostrou ao professor e acrescentou este brilhante comentário: “professor, o átomo é um negócio tão pequeno, mas tão pequeno, que, se eu tiver aqui nas mãos uma ruma deles, o senhor não enxergará nenhum” (?)... Perplexo, o mestre aduziu: “meu querido, vou lhe dar um rotundo ZERO por sua miopia...”
            “Nada a declarar.”
           
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