segunda-feira, 15 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – XI
                                                                           Hugo Martins

            Saruê tinha estatura mediana; cabelos brancos e desalinhados, nariz de abas largas, boca rasgada e de raros dentes. A face era rotunda e coberta de uma ramagem de pelos brancos. Embora embaciados, os olhos eram de lince, a tudo captavam e traduziam. Por eles, o mundo, para o velho ébrio, revelava-se como um lugar de imposturas e desabridas mentiras. Trazia sempre pendurado, nos lábios desdenhosos, uma espécie de ricto em que se lia desprezo e pouco caso com o que vai com o homem e com o mundo. Encardida, a indumentária constituía-se de uma calça descolorida já surrada, cingida por um pedaço de corda que fazia as vezes de cinturão . Uma camiseta velhusca, deixava mais acentuada a pança. Nada trazia nos pés de dedos irregulares. Na parte posterior destes, destacava-se uma camada esbranquiçada que parecia ter recebido cortes e mais cortes. Eram rachaduras, espécies de escaras, resultantes do constante contágio daqueles pés disformes com o solo. Para Quasímodo, só faltava a giba.
            A aparência de filósofo cínico, porém, não lhe apagava o tirocínio de bom observador do teatro humano. Alguns peralvilhos costumavam rir dele, como fosse ele um bom motivo para deboche. Ocorria o contrário. Normalmente ele expunha ao ridículo pretensiosos e dissimulados. Um dia, alguém o encontrou e observou que toda vez que o encontrava, ele estava invariavelmente bêbado. Para ser mais maldoso, o indivíduo assinalou algumas datas e ocasiões em que aquilo sempre ocorria. Era encontrar  Saruê, era ter a certeza de que ele se encontrava embriagado. O endiabrado homem perguntou ao inoportuno a última vez que se tinham visto.  O mal-educado e grosseiro disse já fazer mais de três anos. Saruê fitou-lhe os olhos, deu um sorriso escarninho e aduziu: “ “pra tu ver, neguim, como eu não bebo às tuas custas”. Dizendo isso, afastou-se e deixou o sujeitinho entregue à perplexidade que costuma tomar conta dos que se metem na vida dos outros sem nenhuma razão plausível. Para tudo tinha ele uma resposta adequada e, de regra, salpicada de doce ironia, se a pergunta tangenciava os limites da cretinice.
Quando se achava encharcado de “água que passarim num bebe” ou, em linguagem menos coloquial, quando rendia longas e largadas homenagens a Dioniso ou Baco, sua marcha era vagarosa, as pernas pareciam pular poças d´água imaginárias e seu corpo balançava de um lado para outro como sacudido por rajadas de vento. Dava a impressão de que se desviava de alguma coisa que lhe embaraçava o caminho. Seu destino certo era o alpendre de um coronel do sertão, em cujo cimento frio se deitava e arriscava alguns cochilos, entremeados de monólogos incompreensíveis. O chefe político tinha por vezo reunir, numa grande sala, correligionários locais sobre quem ele exercia visível liderança. Ali conversavam, discutiam e trocavam amenidades, tendo em mira sempre a vida do povo da cidade. De vez em quando, um serviçal levava, numa grande bandeja, acepipes, sucos e café. E, nessa espécie de ritual, a tarde se escoava, e o destino da população era, politicamente, traçado por aqueles senhores.
O grupo saiu para o alpendre. De repente, em meio a filosofices batidas, prenhes de lugares comuns, um nobre deputado começou a descompor a classe política, censurando-a pela natural vocação de mentir, descumprir promessas e compromissos, bem como ser useira e vezeira em surripiar os recursos públicos do erário. Deixou a retórica bem-comportada e disse: “na verdade não passam de uma cambada de desavergonhados, patifes, ladrões e obstinados mentirosos...” O orador foi subitamente interrompido. Não por nenhum dos colegas, que o ouviam atentamente, mas pela voz de barítono de Saruê, que, saindo de seus devaneios etílicos, ergueu a cabeça e disse:
- Dotô, dotô, o sinhô tá cuipando a si prope.”
Indiferente a tudo, voltou a recostar a cabeça no chão do cimento frio e entregar-se aos braços de Morfeu.
O retrato que aqui se faz de Saruê foi tomado de empréstimo das muitas histórias sobre ele narradas. Pelo que minha memória dele guardou, sobretudo o lado espirituoso de seu modo peculiar de ver e interpretar o mundo, é que o coloco como personagem do meu pequeno mundo quando era eu menino de calças curtas e suspensórios, vivendo, nos meus nove anos de idade, na cidade de Itapipoca.

           

            

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