FIAPOS DA MEMÓRIA –
XI
Hugo Martins
Saruê tinha
estatura mediana; cabelos brancos e desalinhados, nariz de abas largas, boca
rasgada e de raros dentes. A face era rotunda e coberta de uma ramagem de pelos
brancos. Embora embaciados, os olhos eram de lince, a tudo captavam e
traduziam. Por eles, o mundo, para o velho ébrio, revelava-se como um lugar de
imposturas e desabridas mentiras. Trazia sempre pendurado, nos lábios
desdenhosos, uma espécie de ricto em que se lia desprezo e pouco caso com o que
vai com o homem e com o mundo. Encardida, a indumentária constituía-se de uma
calça descolorida já surrada, cingida por um pedaço de corda que fazia as vezes
de cinturão . Uma camiseta velhusca, deixava mais acentuada a pança. Nada
trazia nos pés de dedos irregulares. Na parte posterior destes, destacava-se
uma camada esbranquiçada que parecia ter recebido cortes e mais cortes. Eram
rachaduras, espécies de escaras, resultantes do constante contágio daqueles pés
disformes com o solo. Para Quasímodo, só faltava a giba.
A aparência
de filósofo cínico, porém, não lhe apagava o tirocínio de bom observador do
teatro humano. Alguns peralvilhos costumavam rir dele, como fosse ele um bom
motivo para deboche. Ocorria o contrário. Normalmente ele expunha ao ridículo
pretensiosos e dissimulados. Um dia, alguém o encontrou e observou que toda vez
que o encontrava, ele estava invariavelmente bêbado. Para ser mais maldoso, o
indivíduo assinalou algumas datas e ocasiões em que aquilo sempre ocorria. Era
encontrar Saruê, era ter a certeza de
que ele se encontrava embriagado. O endiabrado homem perguntou ao inoportuno a
última vez que se tinham visto. O
mal-educado e grosseiro disse já fazer mais de três anos. Saruê fitou-lhe os
olhos, deu um sorriso escarninho e aduziu: “ “pra tu ver, neguim, como eu não
bebo às tuas custas”. Dizendo isso, afastou-se e deixou o sujeitinho entregue à
perplexidade que costuma tomar conta dos que se metem na vida dos outros sem
nenhuma razão plausível. Para tudo tinha ele uma resposta adequada e, de regra,
salpicada de doce ironia, se a pergunta tangenciava os limites da cretinice.
Quando se achava encharcado de “água
que passarim num bebe” ou, em linguagem menos coloquial, quando rendia longas e
largadas homenagens a Dioniso ou Baco, sua marcha era vagarosa, as pernas
pareciam pular poças d´água imaginárias e seu corpo balançava de um lado para
outro como sacudido por rajadas de vento. Dava a impressão de que se desviava
de alguma coisa que lhe embaraçava o caminho. Seu destino certo era o alpendre
de um coronel do sertão, em cujo cimento frio se deitava e arriscava alguns
cochilos, entremeados de monólogos incompreensíveis. O chefe político tinha por
vezo reunir, numa grande sala, correligionários locais sobre quem ele exercia
visível liderança. Ali conversavam, discutiam e trocavam amenidades, tendo em
mira sempre a vida do povo da cidade. De vez em quando, um serviçal levava,
numa grande bandeja, acepipes, sucos e café. E, nessa espécie de ritual, a
tarde se escoava, e o destino da população era, politicamente, traçado por
aqueles senhores.
O grupo saiu para o alpendre. De
repente, em meio a filosofices batidas, prenhes de lugares comuns, um nobre
deputado começou a descompor a classe política, censurando-a pela natural
vocação de mentir, descumprir promessas e compromissos, bem como ser useira e
vezeira em surripiar os recursos públicos do erário. Deixou a retórica bem-comportada
e disse: “na verdade não passam de uma cambada de desavergonhados, patifes,
ladrões e obstinados mentirosos...” O orador foi subitamente interrompido. Não
por nenhum dos colegas, que o ouviam atentamente, mas pela voz de barítono de
Saruê, que, saindo de seus devaneios etílicos, ergueu a cabeça e disse:
- Dotô, dotô, o sinhô tá cuipando a
si prope.”
Indiferente a tudo, voltou a recostar
a cabeça no chão do cimento frio e entregar-se aos braços de Morfeu.
O retrato que aqui se faz de Saruê
foi tomado de empréstimo das muitas histórias sobre ele narradas. Pelo que
minha memória dele guardou, sobretudo o lado espirituoso de seu modo peculiar
de ver e interpretar o mundo, é que o coloco como personagem do meu pequeno
mundo quando era eu menino de calças curtas e suspensórios, vivendo, nos meus
nove anos de idade, na cidade de Itapipoca.
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