sexta-feira, 8 de julho de 2016

MEDO DE MONSTROS
                                                       Hugo Martins

Conta-se que, de uma feita, a professora reuniu seus aluninhos de alfabetização e com eles começou um jogo de perguntas e respostas a ver o que ia no inconsciente dos petizes. Sentados no chão, via-se no olhar de cada uma grande expectativa, pois a professora dissera que ia conversar sobre medo, este gigante da alma a que se refere Mira y Lopez, psiquiatra cubano.
O jogo se constituía em a mestra perguntar a cada guri que mais metia medo nele.
A menininha levantou o braço e disse:” o lobo mau”. A professora perguntou por quê. A explicação da jovenzinha foi lógica; “o lobo mau quis fazer Chapeuzinho Vermelho de mingau e ainda quis comer a vovó”.
Em seguida, um meninozinho sardento levantou o dedinho e disse temer por demais o lobisomem. E explicou: ele tem os dentes muito grandes, é corcunda, tem um uivo amedrontador e mata as pessoas.
A seguir, outra menininha de olhos ardidamente verdes, com os cabelos arrumados em forma de rabos de cavalo, acrescentou que tinha muito medo de vampiros, pois eles se transformam em morcegos e, à noite,  chupam o sangue das pessoas.
Lá no cantinho, um garotinho de ar tímido, respondendo à pergunta da professora disse muito temer o MALAMÉM. Sem entender, a jovem professora perguntou de quem se tratava. O assustado molequinho começou a explicar: “Professora, toda noite, antes de me deitar, minha mãe reza comigo. E, na oração, tem uma parte que ela diz assim: “... e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-me do “MALMÉM”!!!
Contei essa história a um sujeito supinamente cético e aproveitei a oportunidade de também perguntar-lhe que coisa no mundo mais lhe metia medo. Ele olhou-me, pendurou nos lábios amargo um risinho escarninho e disse:
- Da  frasezinha “eu te amo.”

Não mais esperei explicações. Não havia interferência do inconsciente. Toda a instância do consciente parecia estar ali simples, barata e clara, sem subterfúgios.

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