DELENDA...
Hugo
Martins
Vi nas prateleiras de uma
livraria um título trágico: O Lado Sujo do Futebol... Num átimo, veio-me à
mente um episódio passado em Itapipoca. Eu tinha dez anos. Era o Intermunicipal.
Tinha meus ídolos: um era o centroavante Valdeci, que jogou no time do Ceará na
década de sessenta; o outro era um zagueiro, que se destacava pelo vigor físico
e pelo chute forte. Eu ia a todos os
treinos e jogos e participava do entusiasmo da população. Itapipoca tinha um
time muito bom. Numa tarde de sábado, jogo empate entre a nossa seleção e a de
Itapajé. A partida tinha que ser resolvida na cobrança de penalidades máximas.
À noite, na praça
central, choro e lamentação; ranger de dentes e frustração. O time local fora
eliminado. Como? Jurandir, o zagueiro de chute forte, se vendera. Sobre mim,
particularmente, na minha solidão de menino, abateu-se pungente dor, que minha
ingenuidade não sabia exprimir. O tempo, na sua eterna sabedoria, tratou de
curar as feridas, embora algumas cicatrizes ainda se mantivessem latentes, tais
invisíveis e indeléveis tatuagens.
Despertei do transe,
tomei do livro, passei uma vista d´olhos sobre algumas páginas, alguns títulos
e algumas fotos e tratei de recolocá-lo no lugar. Veio-me uma amarga sensação
de que eu não faria boa coisa lendo, certamente, histórias escabrosas,
envolvendo jogadores, dirigentes, cartolas e toda uma coorte de gente corrupta
e desavergonhada.
Há muito deixei de amar o
futebol. Sinto-me enganado, ludibriado, enfim, um trouxa, um otário, um traído,
um babaca... Alimento uma certeza, que está mais nos fatos que em mim, portanto,
uma verdade e não uma mera e irresponsável elucubração, de que, nos bastidores
do poder dos homens da mala preta, ocorrem mais tramoias e velhacarias do que
ousa – plagiando o vate inglês – desvendar nossa vã filosofia.
Como explicar a situação
de um time que, antes da Copa do Mundo, estava no topo da classificação e,
inexplicavelmente, começar uma derrocada vertiginosa ainda que alguns
resultados desfavorecessem alguns clubes e gritantemente o beneficiassem? Direi
como o caudilho Leonel Brizola quando do lançamento do Plano Cruzado ao ver
Delfin Neto, o gordinho sinistro aplaudir a iniciativa do governo brasileiro:
“se Delfin aplaude, algo existe.” Se o time do Ceará Sporting Club mostrou
desempenho quase sofrível mesmo tendo em seu favor os bons ventos, que
gritavam: “sobe, Vovô, sobe Vozão”, algo deve existir de podre no reino do
futebol cearense.
Sem citar nomes, sem
tecer comentários levianos ou apontar o dedo para sicranos e beltranos,
denuncia-se correr no ar uma desconfiança de que algumas almas se venderam por
mais de trinta moedas, e alguns Judas se esgueiraram pelas vias obscuras e
desertas onde se mercadeja o pouco caso com a postura ética. Todos prosternados
ao argumento irrespondível do homem da mala preta.
Quanta tristeza, quanto
desengano, quanta força bruta, quanta tibieza!...
Ao torcedor o réquiem e o
toque de tenebroso silêncio.
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