sexta-feira, 8 de julho de 2016

DELENDA...
                                                             Hugo Martins
Vi nas prateleiras de uma livraria um título trágico: O Lado Sujo do Futebol... Num átimo, veio-me à mente um episódio passado em Itapipoca. Eu tinha dez anos. Era o Intermunicipal. Tinha meus ídolos: um era o centroavante Valdeci, que jogou no time do Ceará na década de sessenta; o outro era um zagueiro, que se destacava pelo vigor físico e pelo chute forte.  Eu ia a todos os treinos e jogos e participava do entusiasmo da população. Itapipoca tinha um time muito bom. Numa tarde de sábado, jogo empate entre a nossa seleção e a de Itapajé. A partida tinha que ser resolvida na cobrança de penalidades máximas.
À noite, na praça central, choro e lamentação; ranger de dentes e frustração. O time local fora eliminado. Como? Jurandir, o zagueiro de chute forte, se vendera. Sobre mim, particularmente, na minha solidão de menino, abateu-se pungente dor, que minha ingenuidade não sabia exprimir. O tempo, na sua eterna sabedoria, tratou de curar as feridas, embora algumas cicatrizes ainda se mantivessem latentes, tais invisíveis e indeléveis tatuagens.
Despertei do transe, tomei do livro, passei uma vista d´olhos sobre algumas páginas, alguns títulos e algumas fotos e tratei de recolocá-lo no lugar. Veio-me uma amarga sensação de que eu não faria boa coisa lendo, certamente, histórias escabrosas, envolvendo jogadores, dirigentes, cartolas e toda uma coorte de gente corrupta e desavergonhada.
Há muito deixei de amar o futebol. Sinto-me enganado, ludibriado, enfim, um trouxa, um otário, um traído, um babaca... Alimento uma certeza, que está mais nos fatos que em mim, portanto, uma verdade e não uma mera e irresponsável elucubração, de que, nos bastidores do poder dos homens da mala preta, ocorrem mais tramoias e velhacarias do que ousa – plagiando o vate inglês – desvendar nossa vã filosofia.
Como explicar a situação de um time que, antes da Copa do Mundo, estava no topo da classificação e, inexplicavelmente, começar uma derrocada vertiginosa ainda que alguns resultados desfavorecessem alguns clubes e gritantemente o beneficiassem? Direi como o caudilho Leonel Brizola quando do lançamento do Plano Cruzado ao ver Delfin Neto, o gordinho sinistro aplaudir a iniciativa do governo brasileiro: “se Delfin aplaude, algo existe.” Se o time do Ceará Sporting Club mostrou desempenho quase sofrível mesmo tendo em seu favor os bons ventos, que gritavam: “sobe, Vovô, sobe Vozão”, algo deve existir de podre no reino do futebol cearense.
Sem citar nomes, sem tecer comentários levianos ou apontar o dedo para sicranos e beltranos, denuncia-se correr no ar uma desconfiança de que algumas almas se venderam por mais de trinta moedas, e alguns Judas se esgueiraram pelas vias obscuras e desertas onde se mercadeja o pouco caso com a postura ética. Todos prosternados ao argumento irrespondível do homem da mala preta.
Quanta tristeza, quanto desengano, quanta força bruta, quanta tibieza!...
Ao torcedor o réquiem e o toque de tenebroso silêncio.


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