E
POR QUE NÃO?
Hugo Martins
Estou aqui, à frente da
tela fria e indiferente do computador à espera de que avulte uma reflexão
qualquer. Essa coisa de escrever, para mim está se tornando uma compulsão. A mesma
que ocorre com os apelos que me levam a estar lendo sempre alguma coisa, não
importa onde eu me encontre. Isso não me chateia de modo algum. Pelo contrário,
se o escrever me leva a entrar no jogo dialético da vida pelo entrechoque com o
real, que se me abre como um imenso lençol branco a lembrar uma grande folha de
papel, o ato de ler constitui-se num diálogo denso entre mim e a obra, esta que
procuro desvirginar sem nenhum pejo, sem medo, sem escrúpulos, pois ela ali
está para isso, para que, do nosso conúbio, decorra a gestação e, em seguida, os
partos dessa união tão necessária.
Enquanto matraqueio o
teclado, ouço estampidos de foguetes; pressinto carros que deslizam na avenida
próxima; no apartamento vizinho, o televisor está na altura máxima, saindo dele
uma musiquinha monocórdia tão chatinha quanto a voz gasguita da cantora que a
ela solfeja. “De repente, não mais que de repente”, saltou-me no bestunto uma
ideia imperativa, que me soprou no ouvido: “se não tens o que dizer, vai
escrevendo na “doida”, considerando que palavra puxa palavra e, nesse ramerrão,
o texto se vai fazendo!” Estou nas pegadas do conselho, pois o assunto está
quase sendo parido.
Luzes pisca-piscaram no
meu cérebro. Entrei num sonho psicodélico e, num átimo, vi-me envolvido por
situações que lembravam a idade de ouro dos antigos, em texto do poeta romano Virgílio, nas Metamorfoses.
Naquela época, homens e mulheres levavam a vida no ócio, obtinham tudo de
graça. Colhiam os frutos maduros das árvores. Os lagos corriam mansos. A
cupidez não governava a vontade. Os homens não conheciam a avareza nem os
tormentos. Todos cultivavam a paz, e as almas belicosas desapareceram. Na idade de ouro, a paz era eterna.
Pois bem, passagem de
ano. A contagem regressiva se esvai, Em todos, a expectativa de que a hora
chegue para os gritinhos desenxabidos. Comida, bebida, salgados e outros
quitutes transbordam em grandes bandejas e em pródigos e enfeitados pratos.
Garrafas de cerveja, vinho e champagne são prodigamente entornadas em copos e,
destes, para bocas sequiosas. Abraços,
beijos, telefones celulares tocando em alternados e alegres murmurejos.
Conversas entrecortadas por frases feitas... Tudo é congraçamento. Os pequenos
ódios cotidianos e as amarguras adormecidas se embuçam em sorrisos sinceramente
francos. Por fim, o foguetório vai, pouco a pouco, cessando. Ouvem-se aqui e
ali, ao longe, um ou outro papouco solitário. Instaura-se um simulacro de
silêncio. Foi uma passagem de ano de muita paz e de farta felicidade.
A noite segue sua marcha.
Os festejos continuam... Depois da grande festa, retirada a noite e surgida a
manhã, a vida volta à normalidade. Abrem-se os jornais, leem-se revistas,
assiste-se a noticiários televisivos. De grande pasmo os homens são tomados:
não há o que ler, não há o que ver nos televisores. As notícias ruins como que
bateram asas, não deram o ar de sua graça. Nos lares, nos bares e nas ruas,
grandes cortejos de gentilezas risonhas. O ambiente lembrava a grande paz
celestial e inspirava a troca de amabilidades mútuas. Nessa doce harmonia,
sopitados os ódios, e as mágoas apagadas, o mundo era uma doce estonteante
sinfonia de amor.
Estaríamos vivenciando
uma novel idade de ouro? Benzam-na os céus!!
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