sexta-feira, 1 de julho de 2016

E POR QUE NÃO?
                                             Hugo Martins
  Estou aqui, à frente da tela fria e indiferente do computador à espera de que avulte uma reflexão qualquer. Essa coisa de escrever, para mim está se tornando uma compulsão. A mesma que ocorre com os apelos que me levam a estar lendo sempre alguma coisa, não importa onde eu me encontre. Isso não me chateia de modo algum. Pelo contrário, se o escrever me leva a entrar no jogo dialético da vida pelo entrechoque com o real, que se me abre como um imenso lençol branco a lembrar uma grande folha de papel, o ato de ler constitui-se num diálogo denso entre mim e a obra, esta que procuro desvirginar sem nenhum pejo, sem medo, sem escrúpulos, pois ela ali está para isso, para que, do nosso conúbio, decorra a gestação e, em seguida, os partos dessa união tão necessária.
Enquanto matraqueio o teclado, ouço estampidos de foguetes; pressinto carros que deslizam na avenida próxima; no apartamento vizinho, o televisor está na altura máxima, saindo dele uma musiquinha monocórdia tão chatinha quanto a voz gasguita da cantora que a ela solfeja. “De repente, não mais que de repente”, saltou-me no bestunto uma ideia imperativa, que me soprou no ouvido: “se não tens o que dizer, vai escrevendo na “doida”, considerando que palavra puxa palavra e, nesse ramerrão, o texto se vai fazendo!” Estou nas pegadas do conselho, pois o assunto está quase sendo parido.
Luzes pisca-piscaram no meu cérebro. Entrei num sonho psicodélico e, num átimo, vi-me envolvido por situações que lembravam a idade de ouro dos antigos, em texto do  poeta romano Virgílio, nas Metamorfoses. Naquela época, homens e mulheres levavam a vida no ócio, obtinham tudo de graça. Colhiam os frutos maduros das árvores. Os lagos corriam mansos. A cupidez não governava a vontade. Os homens não conheciam a avareza nem os tormentos. Todos cultivavam a paz, e as almas belicosas desapareceram.  Na idade de ouro, a paz era eterna.
Pois bem, passagem de ano. A contagem regressiva se esvai, Em todos, a expectativa de que a hora chegue para os gritinhos desenxabidos. Comida, bebida, salgados e outros quitutes transbordam em grandes bandejas e em pródigos e enfeitados pratos. Garrafas de cerveja, vinho e champagne são prodigamente entornadas em copos e, destes, para bocas sequiosas.  Abraços, beijos, telefones celulares tocando em alternados e alegres murmurejos. Conversas entrecortadas por frases feitas... Tudo é congraçamento. Os pequenos ódios cotidianos e as amarguras adormecidas se embuçam em sorrisos sinceramente francos. Por fim, o foguetório vai, pouco a pouco, cessando. Ouvem-se aqui e ali, ao longe, um ou outro papouco solitário. Instaura-se um simulacro de silêncio. Foi uma passagem de ano de muita paz e de farta felicidade.
A noite segue sua marcha. Os festejos continuam... Depois da grande festa, retirada a noite e surgida a manhã, a vida volta à normalidade. Abrem-se os jornais, leem-se revistas, assiste-se a noticiários televisivos. De grande pasmo os homens são tomados: não há o que ler, não há o que ver nos televisores. As notícias ruins como que bateram asas, não deram o ar de sua graça. Nos lares, nos bares e nas ruas, grandes cortejos de gentilezas risonhas. O ambiente lembrava a grande paz celestial e inspirava a troca de amabilidades mútuas. Nessa doce harmonia, sopitados os ódios, e as mágoas apagadas, o mundo era uma doce estonteante sinfonia de amor.

Estaríamos vivenciando uma novel idade de ouro? Benzam-na os céus!!

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