sexta-feira, 8 de julho de 2016

NEM MUDOU O NATAL NEM MUDAMOS NÓS

                                                                                          Hugo Martins


                        Não é que está se aproximando mais um Natal! Todos se programarão para experimentar as mesmas emoções de outros já idos natais. Luzes, pisca-piscando, ornarão ruas e praças. As lojas elegerão os mais feéricos motivos natalinos para atrair compradores de bolsos risonhos com o minguado décimo terceiro. Nas casas, portas e janelas ostentarão a caraça de um Papai Noel, encimada pelas indefectíveis locuções “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Na sala, a árvore de Natal, com ar de inverno europeu, também acenará, com seu antipático e monocórdio pisca-pisca, para um Natal de mais exuberante luz. Supriria esta a carência da interior de muitos, já narcotizados pela indisfarçável e insopitável insensibilidade, então travestida de sorrisos e salamaleques de polichinelo desencantado?

                        Dia a dia, as lojas se apinharão do vazio das gentes, cacarejando como galináceos desorientados, no afã de encontrar o presente adequado à pessoa que, de sua parte, também retribuirá com o presente adequado, acompanhado de cartão com discurso pré-fabricado, a fim de que reinem entre os homens a paz e a harmonia.

                        Sobre grandes e largas mesas, espalhar-se-ão acepipes e iguarias do mais fino gosto para o agrado de todos os paladares. Homens e mulheres, enfatiotados, pavonearão sua vaidade sob os auspícios de “griffes” as mais distintas para, sob efeitos etílicos, esperar que à meia-noite, o espírito natalino, personificado na figura balofa e idiotizada de um Papai Noel de riso fácil, baixe, ao som do “Jingle Bell”, e traga conforto à consciência de cada um. Tudo bonitinho e de acordo com os paradigmas ditados pela indústria cultural, na sua sempiterna faina de institucionalizar a imbecilidade e a mentira convencional.

                        No dia seguinte, as coisas voltarão ao seu devir natural. Virá o novo ano. Chegará o Carnaval. O espetáculo da vida retomará a deixa do ano que passou. Nossa sensibilidade readormecerá na longa hibernação da indiferença. Calçaremos as sandálias aladas de Mercúrio. Desafiaremos a Lei da Gravidade. Sobranceiros, adejantes e impávidos de pérfida soberba, aguardaremos o próximo Natal para desejar, no mesmo diapasão monocórdio de antanho, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

                        Arre! não é à toa que o pançudo velhote de brancas barbaças e avantajados borzeguins milicianos traz às costas UM SACO. Quem sabe abarrotado de maçantes mesmices...

                        Terei construído um discurso cínico acerca do Natal?! Direi com Machado: “questão prenhe de questões...” Não creio. Apenas a tessitura de mais uma leitura possível do que se esconde por trás de símbolos e signos, bem manipulados pela indústria cultural com objetivos nada nobres.

                        Enquanto isso, aí está o mundo, tal um grande cartão, a merecer de nós uma leitura, através da qual nos revelemos mais homens e menos discurso.
                        Se você, neste ano, inclui-se no rol dos sessenta e quatro por cento de brasileiros inadimplentes e endividados, não terá nenhum motivo para usufruir do lirismo teatral do Natal. Pague suas contas e sossegue sua alma.

                       









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