NEM MUDOU O NATAL
NEM MUDAMOS NÓS
Hugo Martins
Não é que está se
aproximando mais um Natal! Todos se programarão para experimentar as mesmas
emoções de outros já idos natais. Luzes, pisca-piscando, ornarão ruas e praças.
As lojas elegerão os mais feéricos motivos natalinos para atrair compradores de
bolsos risonhos com o minguado décimo terceiro. Nas casas, portas e janelas
ostentarão a caraça de um Papai Noel, encimada pelas indefectíveis locuções
“Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Na sala, a árvore de Natal, com ar de
inverno europeu, também acenará, com seu antipático e monocórdio pisca-pisca,
para um Natal de mais exuberante luz. Supriria esta a carência da interior de
muitos, já narcotizados pela indisfarçável e insopitável insensibilidade, então
travestida de sorrisos e salamaleques de polichinelo desencantado?
Dia
a dia, as lojas se apinharão do vazio das gentes, cacarejando como galináceos
desorientados, no afã de encontrar o presente adequado à pessoa que, de sua
parte, também retribuirá com o presente adequado, acompanhado de cartão com
discurso pré-fabricado, a fim de que reinem entre os homens a paz e a harmonia.
Sobre
grandes e largas mesas, espalhar-se-ão acepipes e iguarias do mais fino gosto
para o agrado de todos os paladares. Homens e mulheres, enfatiotados,
pavonearão sua vaidade sob os auspícios de “griffes” as mais distintas para,
sob efeitos etílicos, esperar que à meia-noite, o espírito natalino,
personificado na figura balofa e idiotizada de um Papai Noel de riso fácil,
baixe, ao som do “Jingle Bell”, e traga conforto à consciência de cada um. Tudo
bonitinho e de acordo com os paradigmas ditados pela indústria cultural, na sua
sempiterna faina de institucionalizar a imbecilidade e a mentira convencional.
No
dia seguinte, as coisas voltarão ao seu devir natural. Virá o novo ano. Chegará
o Carnaval. O espetáculo da vida retomará a deixa do ano que passou. Nossa
sensibilidade readormecerá na longa hibernação da indiferença. Calçaremos as
sandálias aladas de Mercúrio. Desafiaremos a Lei da Gravidade. Sobranceiros,
adejantes e impávidos de pérfida soberba, aguardaremos o próximo Natal para
desejar, no mesmo diapasão monocórdio de antanho, Feliz Natal e Próspero Ano
Novo.
Arre!
não é à toa que o pançudo velhote de brancas barbaças e avantajados borzeguins
milicianos traz às costas UM SACO. Quem sabe abarrotado de maçantes mesmices...
Terei
construído um discurso cínico acerca do Natal?! Direi com Machado: “questão
prenhe de questões...” Não creio. Apenas a tessitura de mais uma leitura possível
do que se esconde por trás de símbolos e signos, bem manipulados pela indústria
cultural com objetivos nada nobres.
Enquanto
isso, aí está o mundo, tal um grande cartão, a merecer de nós uma leitura,
através da qual nos revelemos mais homens e menos discurso.
Se
você, neste ano, inclui-se no rol dos sessenta e quatro por cento de
brasileiros inadimplentes e endividados, não terá nenhum motivo para usufruir
do lirismo teatral do Natal. Pague suas contas e sossegue sua alma.
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