domingo, 10 de julho de 2016

DEDOS TALENTOSOS.
                                                       Hugo Martins
Estive hoje no consultório de um profissional da saúde, mais precisamente, uma nutricionista. Sempre que me encontro em consultórios, filas de banco, filas de qualquer espécie, ou no interior de ônibus municipais na hora do ruge-ruge de fim de tarde, invariavelmente estou em companhia de um amigo ou de uma amiga. Em outras palavras, nessas situações, sempre tenho nas mãos um livro ou uma revista. Mera estratégia de preencher o tempo e não abrir oportunidade a que alguém puxe conversa mole. A companhia de tais amigos e amigas me preenche, dá-me alento e evita a presença de inoportunos.
Hoje, porém, alguma coisa chamou-me a atenção e tive que cessar o diálogo que mantinha com uma amiga. Conversávamos sobre um assunto de minha especial predileção: a literatura. Mesmo assim, fui fisgado pelo insólito da cena. Espalhadas em poltronas, as pessoas, jovens e adultos, mergulhadas em fundo silêncio, estavam todas, sem exceção, olhando para o telefone celular movimentando os dedos, sobretudo os polegares, como se estivessem passando as contas de um terço ou debulhando uma invisível espiga de milhos.

A cena induziu-me a uma ilação: as pessoas, com raras exceções, podem não ser dadas a reflexões, a escrever; podem possuir um vocabulário exíguo, pobre e limitado, mas de uma coisa pode-se ter certeza: são todos exímios digitadores...

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