sexta-feira, 1 de julho de 2016

É ISSO
                                               Hugo Martins

Ouvi a história numa mesa de bar. Conta-se que um certo senhor carregava nos ombros e na alma a provecta idade de 90 (noventa) anos. Quem o olhava, porém, dava-lhe, numa estimativa pessimista, não mais que 60 (sessenta) anos. De fato, as rugas não  lhe desenhavam no rosto nenhum traço de amargura; a cabeleira basta ainda não fora totalmente tomada pelo giz do tempo; no brilho do olhar, ainda se pescavam expressivas alegrias e nenhum dissabor; o corpo era rijo e o andar seguro. Essa aura de juventude despertou, por óbvio, a curiosidade das pessoas e, sobretudo da imprensa, dada a ineditismos. Um jornal da cidade grande enviou um repórter à cidadezinha do interior, onde morava o jovial matusalém, com o propósito de entrevistar o homem de muitos anos.
Marcada a entrevista, o repórter, sujeito dado a pendengas e polêmicas, entre outras perguntas, trouxe à tona aquela que mais interessava, indagou do homem o segredo daquela longevidade tão embuçada em juventude tão evidente. Enfim, que explicação tinha o entrevistado para aquele fato que deixava as pessoas tão intrigadas.
O homenzinho cofiou os bastos bigodes, deixou escapar por entre os lábios finos um sorriso sardônico, temperou a garganta e disse:
- Meu filho, cedo aprendi a não refutar ninguém, a não discutir e a não perder a calma, deixando o outro com a sensação de que ele sempre era o senhor da situação. Dentro de dois meses estarei aniversariando e mantenho o propósito de assim sempre agir para viver mais e sem sobressaltos, que é o que nos envelhece o corpo e o espírito. Só isso...
O repórter, então, refutou-o, acrescentando que a passividade era algo deplorável, que a participação na vida por meio da interação com o outro não podia ser negligenciada e coisa e tal e coisa e tal e coisa e tal... O homem ouviu-o calmamente, olhou de frente, foi saindo e acrescentou:
- Você tem toda razão, meu rapaz...


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