LEITURAS E LEITURAS...
Hugo Martins
Um gramático tradicional,
aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três
primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda,
diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos:
“Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de
repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao
lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando
o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que
porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por
esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a
expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte
dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da
linguagem.
O gramático dirá que o
compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este
pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial,
denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no
corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional. Em seguida, Chico Buarque usa a palavra
“gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se
refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às
pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e
sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados
“erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso
são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da
função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre
incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas
gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira
alternativa.
Bom continuar a leitura
do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...
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