sexta-feira, 8 de julho de 2016

LEITURAS E LEITURAS...
                                                   Hugo Martins
Um gramático tradicional, aferrado aos conceitos/preceitos da Gramática Normativa, ao ler os três primeiros versos da letra da canção Roda-viva, de Chico Buarque de Holanda, diria que o compositor teria incorrido num erro.... Transcrevamos os versos: “Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente...” Estar numa roda-viva é estar entregue ao ramerrão, ao caos, ao lufa-lufa do dia a dia. A partir daí, procedendo-se à leitura do texto, estando o leitor desprovido de qualquer preconceito em relação aos “erros” que porventura nele possamos encontrar, ver-se-á que o gramático “pisa na bola” por esquecer da existência de um setor dos estudos linguísticos que prioriza a expressividade em detrimento da correção. Isso é matéria da Estilística, parte dos estudos linguísticos voltados para a expressividade/afetividade da linguagem.
O gramático dirá que o compositor erra ao empregar o verbo “ter” no lugar de “haver”. Se este pertence, no caso, à norma padrão; o primeiro, sendo do linguajar coloquial, denuncia que o compositor se irmana com o sofrimento de sua gente no corre-corre do cotidiano. A opção pelo verbo “ter” é intencional.  Em seguida, Chico Buarque usa a palavra “gente” duas vezes. Essa palavra merece mais de uma leitura: o compositor se refere a ele mesmo, usando-a como espécie de pronome pessoal, ou se refere às pessoas de modo geral com quem ele se irmana, comungando dores, desesperos e sofrimentos e tudo o que dimana da barafunda dos dias vãos da vida das gentes...
Pois bem: os chamados “erros” e “desvios” visam ao alcance de maior expressividade no dizer. Por isso são comuns em textos literários ou naqueles em que há uma predominância da função poética da linguagem. Metaforizar: eis a questão. Não se duvide: entre incorrer num erro para alcançar maior expressividade ou submeter-se às normas gramaticais dos acertos, qualquer escritor de bom senso preferirá a primeira alternativa.
Bom continuar a leitura do restante do texto. A nós nos bastam os versos em análise...



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