UMA VIAGEM PROUSTIANA
Hugo Martins
Antes de
pegar o bonde rumo ao sonho, visitei outras eras, de mãos dadas à música.
Conversei com Agostín Lara, Trio los Panchos, Consuelo Velasquez, Nat King
Cole, Plácido Domingo, Pedro Vargas, enfim passei bom tempo ouvindo-os e, pelo
que diziam, nada impediu, nem mesmo reflexões mais cerebrinas, de eu voltar ao
passado. Por falar nisso, encerrei meu programa ouvindo, vejam só, Renato e
seus Blue Caps, interpretando uma música exatamente intitulada Memórias, em que
o conjunto, marcando o ritmo com o som de uma eloquente guitarra, vai aos
chamados anos dourados e traz toda aquela atmosfera, executando uma música que
em muito se assemelha ao Besame Mucho, de Consuelo Velasquez, popularizada no
Brasil, sobretudo por Ray Conniff, à época em que se dançava de rosto colado
nas tertúlias, espécie de saraus familiares ao som de radiola (esta palavra
estaria já obsoleta?). Foram duas horas e meia de puro encantamento.
Agora vamos viajar por outras sendas
e veredas, vamos dar as mãos à poesia, apertá-la nos braços e a ela rogar nos
conte uma história, uma história igual àquela que Rosa contava a Manuel
Bandeira em Pasárgada quando o impulso por se matar mortificava o espírito do
poeta. Nessas horas, só havia um remédio: encostar a cabeça no colo de Rosa e
mergulhar no devaneio doce de sua voz e aceitar o convite à viagem (um poema de
Baudelaire Invitation au Voyage).
Nessa viagem que ora vamos
empreender, visitamos o texto Visita à Casa Paterna, do poeta Luís Guimarães
Júnior... Embora o título do poema refira-se à casa paterna, deixando de lado
as marcas da sociedade patriarcalista, vamos ver que a visita, na verdade, foi
à casa materna, essa instância onírica sempre presente em nossas lembranças,
sonhos e saudades... Devo confessar que, toda vez que intento ler esse texto em
voz alta, não consigo chegar ao seu final: engrolo a voz, as lágrimas passam-me uma rasteira e caio
estatelado na dureza de sentido silêncio... Deixemos isso pra lá e
transcrevamos o primeiro quarteto, que assim diz:
Como
a ave que volta ao ninho antigo,
Depois
de um longo e tenebroso inverno,
Eu
quis também rever o lar paterno,
O
meu primeiro e virginal abrigo.
Transpondo para a ordem direta, temos: Eu quis também rever o lar paterno, o meu primeiro e virginal abrigo
tal a ave que volta ao ninho antigo depois de um longo e tenebroso inverno.
Agora fica mais fácil desencavar do texto as significações nele camufladas. Em
primeiro lugar, na estrutura mais ampla do texto, temos uma comparação marcada
pelo conectivo como, interligando a oração subordinada (dois primeiros versos) à
oração principal (dois últimos versos). Depois, resta ao leitor, estabelecer
outras comparações entre palavras e locuções numa relação de equivalência.
Assim temos: “ave e eu”; “ninho antigo e lar paterno”; “depois de um longo e
tenebroso inverno”, que lembra, para o homem, os sofrimentos e reveses da
existência; a locução “o meu primeiro e virginal abrigo” serve de aposto “a lar
paterno” e a “ninho antigo”.
De fato, o
poeta, combalido pelas dores da existência, chega à casa paterna, à procura de
alento, onde será, no segundo quarteto, recebido por um conhecido morador da
casa. Esta, também, assemelha-se àquela do avô de Manuel Bandeira, que, apesar
de fisicamente demolida, permanece suspensa no ar... Façamos uma pausa.
Retomaremos a caminhada na próxima
estação...
Nenhum comentário:
Postar um comentário