terça-feira, 26 de julho de 2016

UMA VIAGEM PROUSTIANA
                                                    Hugo Martins
            Antes de pegar o bonde rumo ao sonho, visitei outras eras, de mãos dadas à música. Conversei com Agostín Lara, Trio los Panchos, Consuelo Velasquez, Nat King Cole, Plácido Domingo, Pedro Vargas, enfim passei bom tempo ouvindo-os e, pelo que diziam, nada impediu, nem mesmo reflexões mais cerebrinas, de eu voltar ao passado. Por falar nisso, encerrei meu programa ouvindo, vejam só, Renato e seus Blue Caps, interpretando uma música exatamente intitulada Memórias, em que o conjunto, marcando o ritmo com o som de uma eloquente guitarra, vai aos chamados anos dourados e traz toda aquela atmosfera, executando uma música que em muito se assemelha ao Besame Mucho, de Consuelo Velasquez, popularizada no Brasil, sobretudo por Ray Conniff, à época em que se dançava de rosto colado nas tertúlias, espécie de saraus familiares ao som de radiola (esta palavra estaria já obsoleta?). Foram duas horas e meia de puro encantamento.
Agora vamos viajar por outras sendas e veredas, vamos dar as mãos à poesia, apertá-la nos braços e a ela rogar nos conte uma história, uma história igual àquela que Rosa contava a Manuel Bandeira em Pasárgada quando o impulso por se matar mortificava o espírito do poeta. Nessas horas, só havia um remédio: encostar a cabeça no colo de Rosa e mergulhar no devaneio doce de sua voz e aceitar o convite à viagem (um poema de Baudelaire Invitation au Voyage).
Nessa viagem que ora vamos empreender, visitamos o texto Visita à Casa Paterna, do poeta Luís Guimarães Júnior... Embora o título do poema refira-se à casa paterna, deixando de lado as marcas da sociedade patriarcalista, vamos ver que a visita, na verdade, foi à casa materna, essa instância onírica sempre presente em nossas lembranças, sonhos e saudades... Devo confessar que, toda vez que intento ler esse texto em voz alta, não consigo chegar ao seu final: engrolo a voz,  as lágrimas passam-me uma rasteira e caio estatelado na dureza de sentido silêncio... Deixemos isso pra lá e transcrevamos o primeiro quarteto, que assim diz:

                        Como a ave que volta ao ninho antigo,
                        Depois de um longo e tenebroso inverno,
                        Eu quis também rever o lar paterno,
                        O meu primeiro e virginal abrigo.

Transpondo para a ordem direta, temos: Eu quis também rever o lar paterno, o meu primeiro e virginal abrigo tal a ave que volta ao ninho antigo depois de um longo e tenebroso inverno. Agora fica mais fácil desencavar do texto as significações nele camufladas. Em primeiro lugar, na estrutura mais ampla do texto, temos uma comparação marcada pelo conectivo como, interligando a oração subordinada (dois primeiros versos) à oração principal (dois últimos versos). Depois, resta ao leitor, estabelecer outras comparações entre palavras e locuções numa relação de equivalência. Assim temos: “ave e eu”; “ninho antigo e lar paterno”; “depois de um longo e tenebroso inverno”, que lembra, para o homem, os sofrimentos e reveses da existência; a locução “o meu primeiro e virginal abrigo” serve de aposto “a lar paterno” e a “ninho antigo”.
            De fato, o poeta, combalido pelas dores da existência, chega à casa paterna, à procura de alento, onde será, no segundo quarteto, recebido por um conhecido morador da casa. Esta, também, assemelha-se àquela do avô de Manuel Bandeira, que, apesar de fisicamente demolida, permanece suspensa no ar... Façamos uma pausa. Retomaremos a caminhada na  próxima estação...



                        

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