sexta-feira, 1 de julho de 2016

EIS O MUNDO
                                                    Hugo Martins
Existe uma foto famosa do poeta português Fernando Pessoa, encontradiça numa obra do crítico literário Antônio Quadros. Nela, o homem dos heterônimos porta seu capote escuro, seu chapéu de fita, seus óculos redondos, e se encontra no interior de uma quitanda. O objetivo da fotografia era pôr em evidência a pose do criador da Mensagem, entornando o conteúdo de um litro de vinho. Pessoa, porém, afastou a gratuidade da fotografia e escreveu-lhe no verso a seguinte frase: “Fernando Pessoa em fragrante delitro”. A isso se dá o nome de fazer poético, isto é, o encontrar no mundo outras significações escondidas na, nem sempre, vã aparência das coisas.
A propósito, trago à baila um episódio protagonizado pelo pintor espanhol Diego Velázquez (1599/1660). Tinha ele pintado a tela a Crucificação de Jesus. Um filho menor, inadvertidamente, verteu sobre a face direita do Cristo uma porção de tinta, estragando, assim, o trabalho artístico do pai. Dizem que este nem ralhou com o filho, tampouco o castigou pelo sucedido. Ato contínuo, lançou mão de uma espátula, fez uma raspagem na tinta derramada de modo que aquilo que poderia ser uma nódoa transformou-se numa mecha de cabelos a cobrir a face direita do Cristo. Uma saída poética, sem dúvida, o que angariou mais reconhecimento artístico para a tela.
Voilà, mundo transfigurado... transformado pela mágica inventividade do artista.



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