EIS
O MUNDO
Hugo
Martins
Existe uma foto famosa do
poeta português Fernando Pessoa, encontradiça numa obra do crítico literário
Antônio Quadros. Nela, o homem dos heterônimos porta seu capote escuro, seu
chapéu de fita, seus óculos redondos, e se encontra no interior de uma
quitanda. O objetivo da fotografia era pôr em evidência a pose do criador da
Mensagem, entornando o conteúdo de um litro de vinho. Pessoa, porém, afastou a
gratuidade da fotografia e escreveu-lhe no verso a seguinte frase: “Fernando
Pessoa em fragrante delitro”. A isso se dá o nome de fazer poético, isto é, o
encontrar no mundo outras significações escondidas na, nem sempre, vã aparência
das coisas.
A propósito, trago à
baila um episódio protagonizado pelo pintor espanhol Diego Velázquez
(1599/1660). Tinha ele pintado a tela a Crucificação de Jesus. Um filho menor,
inadvertidamente, verteu sobre a face direita do Cristo uma porção de tinta,
estragando, assim, o trabalho artístico do pai. Dizem que este nem ralhou com o
filho, tampouco o castigou pelo sucedido. Ato contínuo, lançou mão de uma
espátula, fez uma raspagem na tinta derramada de modo que aquilo que poderia
ser uma nódoa transformou-se numa mecha de cabelos a cobrir a face direita do Cristo.
Uma saída poética, sem dúvida, o que angariou mais reconhecimento artístico
para a tela.
Voilà, mundo
transfigurado... transformado pela mágica inventividade do artista.
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