sexta-feira, 1 de julho de 2016

ELEIÇÕES
                                         Hugo Martins

            Caro leitor, desculpe-me se falo em primeira pessoa. Exigência da natureza do texto. Por ser confessional, trará à baila algumas lembranças e cotejos esparsos, pondo em evidência novos e velhos tempos, cuja compreensão está umbilicalmente presa à historicidade, ao devir, ao eterno retorno.
            Lembra-me que antes da “máquina de fazer doido”, as campanhas eleitorais se reduziam à distribuição do sorridente retrato do candidato ou à voz estentórea ou aflautada deste em comícios e palanques. As multidões se embeveciam tal como hoje. Se, à época, a carência de propostas e os ataques pessoais surtiam efeito chinfrim, não é que candidato fosse menos mentiroso, tampouco não muito afeito ao comportamento ético e ao respeito ao outro. A coisa se devia à sempiterna natureza do homem - muito  próxima daquela do lobo de Hobbes - que não dispunha de meios eficazes para atassalhar reputações e jogar o adversário à execração pública como se lhe faculta hoje. Quer dizer, nada mudou, apenas os instrumentos se travestiram.
            Nos tempos de antanho, os candidatos tinham sua imagem construída nas conversas de esquinas e de botequins e nas conversas de começo de noite com chefes políticos, pontificando com promessas de que tudo mudaria para melhor com a eleição deste ou daquele vivaldino de discurso tão meloso quão cínico. Nos tempos hodiernos, também se elegem candidatos da mesma forma. O discurso é prenhe de otimismo, de promessas de um tempo melhor, de mudanças e outras baboseiras repetitivas. As conversas de calçadas e de botequins foram substituídas pelos papos internéticos, em que se enviam e-mails, cujo conteúdo é levar ao internauta o convencimento de que este candidato é o avatar dos novos tempos, e aquele, um dos cavaleiros do Apocalipse... O primeiro continuará o trabalho de um vivaldino, o outro é o demônio redivivo de um mais vivaldino ainda.
            Ora, cada fala não passa de uma mentira convencional, pois enquanto se enfileiram as promessas de mudanças disso e daquilo, a fome campeia pelo país, a violência recrudesce, a indiferença pelos maus fados do próximo é flagrante e perversa, e a filosofia da educação está preocupada em formar técnicos e peões de indústria, fantoches de uma sociedade que carece de pensadores.
            Depositar confiança em que um alguém pode imprimir mudanças ou coisas que tais é ingenuidade... Mesmo que renunciemos nossa vontade individual para congregá-la a uma vontade geral, como propôs Rousseau, a democracia exige de cada um participação silenciosa, sem alarde, voltada para a ação pessoal, ungida de responsabilidade social. É fazer como Spinoza, que, com a ferramenta de operário na mão, trazia na cabeça idéias coruscantes, que certamente imprimiram mudanças no mundo. É, enfim, exercitar o direito, não só pelo voto, mas pela participação sincera, centrada na certeza de que cada um é importante na promoção de mudanças.
            Para isso, é suficiente estudo, educação e amor aos livros...
            Monteiro Lobato, o mais porreta dos brasileiros, denotando preocupação com o destino do povo, dizia, em frase lapidar: UM PAÍS SE FAZ COM HOMENS E LIVROS. Antes dele, Castro Alves propalava que era necessário se distribuíssem livros a mancheia, para levar o povo a pensar (in O livro e a América)
            O que daí passar é conversa fiada, é conversa pra boi dormir...
           
           

            

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