ELEIÇÕES
Hugo
Martins
Caro leitor, desculpe-me se falo em primeira pessoa.
Exigência da natureza do texto. Por ser confessional, trará à baila algumas
lembranças e cotejos esparsos, pondo em evidência novos e velhos tempos, cuja
compreensão está umbilicalmente presa à historicidade, ao devir, ao eterno
retorno.
Lembra-me que antes da “máquina de fazer doido”, as
campanhas eleitorais se reduziam à distribuição do sorridente retrato do
candidato ou à voz estentórea ou aflautada deste em comícios e palanques. As
multidões se embeveciam tal como hoje. Se, à época, a carência de propostas e
os ataques pessoais surtiam efeito chinfrim, não é que candidato fosse menos mentiroso,
tampouco não muito afeito ao comportamento ético e ao respeito ao outro. A
coisa se devia à sempiterna natureza do homem - muito próxima daquela do lobo de Hobbes - que não
dispunha de meios eficazes para atassalhar reputações e jogar o adversário à
execração pública como se lhe faculta hoje. Quer dizer, nada mudou, apenas os
instrumentos se travestiram.
Nos tempos de antanho, os candidatos tinham sua imagem
construída nas conversas de esquinas e de botequins e nas conversas de começo
de noite com chefes políticos, pontificando com promessas de que tudo mudaria
para melhor com a eleição deste ou daquele vivaldino de discurso tão meloso
quão cínico. Nos tempos hodiernos, também se elegem candidatos da mesma forma.
O discurso é prenhe de otimismo, de promessas de um tempo melhor, de mudanças e
outras baboseiras repetitivas. As conversas de calçadas e de botequins foram
substituídas pelos papos internéticos, em que se enviam e-mails, cujo conteúdo
é levar ao internauta o convencimento de que este candidato é o avatar dos
novos tempos, e aquele, um dos cavaleiros do Apocalipse... O primeiro
continuará o trabalho de um vivaldino, o outro é o demônio redivivo de um mais
vivaldino ainda.
Ora, cada fala não passa de uma mentira convencional,
pois enquanto se enfileiram as promessas de mudanças disso e daquilo, a fome
campeia pelo país, a violência recrudesce, a indiferença pelos maus fados do
próximo é flagrante e perversa, e a filosofia da educação está preocupada em
formar técnicos e peões de indústria, fantoches de uma sociedade que carece de
pensadores.
Depositar confiança em que um alguém pode imprimir
mudanças ou coisas que tais é ingenuidade... Mesmo que renunciemos nossa
vontade individual para congregá-la a uma vontade geral, como propôs Rousseau,
a democracia exige de cada um participação silenciosa, sem alarde, voltada para
a ação pessoal, ungida de responsabilidade social. É fazer como Spinoza, que,
com a ferramenta de operário na mão, trazia na cabeça idéias coruscantes, que
certamente imprimiram mudanças no mundo. É, enfim, exercitar o direito, não só
pelo voto, mas pela participação sincera, centrada na certeza de que cada um é
importante na promoção de mudanças.
Para isso, é suficiente estudo, educação e amor aos
livros...
Monteiro Lobato, o mais porreta dos brasileiros,
denotando preocupação com o destino do povo, dizia, em frase lapidar: UM PAÍS SE FAZ COM HOMENS E LIVROS.
Antes dele, Castro Alves propalava que era necessário se distribuíssem livros a
mancheia, para levar o povo a pensar (in O livro e a América)
O que daí passar é conversa fiada, é conversa pra boi
dormir...
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